03/06/2012

A sexta fratura: Os segredos emancipados de Antônio e a liberdade dos meus dias


Daqui: http://getoveritloveislove.tumblr.com
Ludovico Einaudi's Melodia Africana III
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Antônio veio guardado num sossego curto, suspirando, soltando gemidos que pareciam uma imitação comovente de uma velha senhora cansada de seu casamento de cinquenta. Estávamos prestar a cair dentro um do outro. Fugíamos do tempo nublado que se fechada dentro de nós. Chovi em Antônio, mas quem morreu afogado fui eu. O apartamento não comportava mais o nosso constrangimento; uma onda dilacerante, mal cheirosa até, de desconforto nos arrastou para fora de nossa vida como casal que concordava em tudo, que se assumia realizado. A pouca beleza que morava dentro do quarto estava desapontada com nossas gargalhadas deficientes, capengas.

Fui sincero dentro das minhas medidas. Antônio preferiu a desmesura, a boca larga e apavorante das palavras fugidias. Soava como verdade, uma impressão reluzente num anteparo escurecido. Quem nunca sabe o que realmente quer desentende seus próprios começos, Antônio. 

Apresentei explicações sussurradas que se perderam nos bocejos dele. Não havia amor que superasse a esperança de Antônio em encontrar alguém melhor que eu.

Ele não possui a força de escolha alguma, são quebradiças suas maneiras de durar; uma perdição aparentemente atenta forjou suas decisões até o último momento antes da partida. Os amigos são ausentes. A única presença que o consola é uma sombra insatisfeita que atua como a extensão de seus anseios embolorados. A satisfação é confusa. Tudo que nele deveria ser vida perdeu-se no caminho do amor arrependido. Quem no mundo possui apenas um amigo? E quando acabam seus recursos para salvar o dia, esse único amigo só é capaz de ajudar com outra prisão? Existe alguma liberdade na amizade que consome tua segurança?

Antônio ainda é uma criança de dez anos escondida em seus medos, na espera ansiosa do dia em que sua mãe abandonará a loucura e contemplará seu futuro com uma felicidade emancipada. O desejo do filho agora é uma extensão dos desregramentos da mãe. Antônio cresceu dentro da ausência. A mãe viajando para longe de si, agarrada a imagens distorcidas; o pai optou pela fuga. Ninguém lhe ofertava abraços; Antônio, que não sabia mais em quem acreditar, ficou sozinho dentro de casa, dentro dos pais, sozinho dentro dos outros.

Descobriu a insuficiência em suas ofertas ao começar romances com homens e mulheres precocemente. Todo assustado, fugia para o quintal da casa das tias quando as primas ofendiam sua ainda primitiva dignidade masculina: Veadinho! A palavra o destruía. Ele cresceu na pretensão de ser uma ofensa à família. Resolveu cobrir o desejo maior dentro do coração com sexo voraz e comportamentos cheios de displicência e promiscuidade. Antônio encheu sua vida de derrotas repetidas com cheiro de glória e cor de conquista. Antônio não é feliz.

Somente uma pessoa o faz acreditar que ele é melhor que todos, que tudo vai ficar bem, que não precisará se submeter ao amor de um homem e que não é necessário abrir mão de sua vaidade: A sua sombra. Ela o ensinou a ser ninguém. Antônio e sua sombra amiga, a imitação de suas vontades esfarrapadas, sua cobiça desfiada. Aquela que é a inconsequência de Antônio e que não sabe ser alguém também. Ela precisa da luz de Antônio para continuar como uma presença suspeita numa relação adoecida, duas tristezas que se arrebentam.

A solução encontrada por Antônio, na confusão da sua sexualidade e insegurança, foi invadir a intimidade de homens e mulheres que por ele se interessavam. A solidão insatisfeita de Antônio fodeu a paixão dos outros. O abandono que sangra ocupando o amor dos que acreditam nos deslizes afetivos de Antônio. Ele entra e sai da vida dos outros visando o gozo precário, não a completude. Ele permanecerá mutilado, certo apenas de sua vaidade extasiada.

Antônio descobriu que há nele uma fome de inseguranças e homens potencialmente abandonáveis. Ele mastiga o amor e oferece as sobras à sombra que o acompanha. E fica por fora dos outros por muito tempo, na fantasia de que o mundo só existe na próxima vontade. Elabora embustes para não sacrificar seus modos também fingidos, exagerados, afetados de permanecer. Não são mentiras no início. É que ele acredita que o amor pode começar também no caos.

Ele me contou que sua mãe saía de casa para tirar a roupa na rua. Sozinho, Antônio experimentava o cuidado de vizinhas com cheiro de naftalina, primas mais velhas, empregadas oleosas. A maioria delas tocou a intimidade dele com firmeza. Elas abriram a ferida do deleite adolescente. Chuparam, morderam e ensinaram-lhe a penetrar a sensatez alheia. Dos oito aos vinte e tantos anos, Antônio foi uma máquina de sexo aquecida, vazia, automática, decrépita. Antônio deixara de lado sentimentos e como um arremedo da mãe ausente, experimentou a luxúria pecaminosa de uma carne sempre triste.

Sua mãe ausentava-se por semanas inteiras; retornava cheia de reservas, uma timidez selvagem, ternura que se perdeu. Parecia não reconhecer os filhos, quatro. E Antônio, o mais velho, foi forçado a ensaiar uma fuga de qualquer verdade organizada com a mesma destreza instruída de quem cuida do futuro do lar. Ele arremessava-se para fora de casa, urgente, para cair no abismo da própria discórdia. Deixou-se preencher pela sombra que se manifesta nele. Um corpo sem alma agora, sem esperança, aturdido, que continua indeciso, mordendo as escolhas lamentáveis, com um sorriso aterrorizado, num ensaio de felicidade plena que não passa de estranheza e desespero.

Ele prefere as pessoas que o dispersam, que mutilam seu sossego, o sexo rápido que sufoca o presente. Viveu fora dos abraços da mãe, dos cuidados do pai, esteve durante anos fugindo da crítica ácida das primas e da mágoa fanática das irmãs; foi como se estivesse num quarto em chamas, e a única saída fosse uma janela no vigésimo andar.

(E o destino, veio-lhe apresentar a sombra que não o deixa ser outra coisa, uma paixão escondida no apoio incondicional.)

Antônio não acreditou em nenhuma das minhas palavras; ouvia todas as minhas declarações como se estivesse ouvindo uma estória lúdica sobre monstros de mentira, ou presenciando um golpe bem calculado.

Quando avista o fim da relação se aproximando, estende suas mentiras como o desenrolar de um glamoroso tapete vermelho e deixa desfilar sobre ele a majestade de suas intenções forçadas. Antônio, ao entender que o fim se aproxima, sofre e elabora uma ilusão impregnada de declarações de amor entediadas.

Convivi com as mentiras assanhadas dele, com a postura mansa ao preparar o jantar, o sorriso distanciado como se estivesse elaborando uma ideia brilhante que me tornaria rendido. Ao explicar seu passado, algo em Antônio fechava-se quase completamente, talvez o núcleo da presença, para então fugir novamente. Pensei que poderia entendê-lo com o passar dos meses. Eu teria muito tempo para compreender as perdas que ele insistia em dizer que estavam superadas. Ele torcia o canto da boca, dava um nó em seu sorriso e me deixava sozinho, com o fascínio inescrupuloso de pertencer mais a ele que a mim.

Antônio,

Dentro da noite, as lembranças dos teus beijos aquecidos de sossego e cuidado são realizações plenas, uma presença quase física que me enternece. Basta cerrar os olhos para experimentar a tua saliva a hidratar meu desespero. Uma concentração apaziguadora do que sempre esperei que você se tornasse em minha vida. As partículas de solidão delirante que compunham minha desesperança foram engolidas pela tua necessidade de estar comigo. Você disse: Não sei mais estar longe de ti. E disse também: Não sei mais viver sem te ver sorrindo abobalhado. E repetia: Não consigo uma gota de concentração ao pensar em ti que salve o meu futuro. E agora, nada.

Minha boca ensaia uma declaração de permanência, mas vacila quando o medo de tornar-me patético mais uma vez solidifica-se grosso nas carnes da língua. Abraço-te, e penso nas próclises, nos arrepios gramaticais que forjo para assegurar inteligência. Lembro do sol inteiro no teu sorriso de gigante. E seguro teu abraço com meu silêncio.

 Eu não te amo, mas faz parte do meu deserto acreditar na imensidão encharcada do teu amor repentino.

Acredito em ti, duvido mesmo é de mim: Se saberei não desistir do que quero.

Só renuncio ao que me faz maior que meus desastres íntimos.





27/05/2012

A segunda distância


Fotografia: Jeffrey Kilmer’s 23% Pure (Aqui)




A pele fria não costumava receber quaisquer toques com desconforto. Nada brotava naquele corpo que lembrasse afeto ou preparação para o acolhimento. Não que fosse desleixado, mas as conexões que compunham seus sentidos, que o permitiam habitar um mundo distante, estavam corrompidas. Algumas delas, talvez, estivessem interrompidas, desfeitas pelos casos do passado, todos os desgostos que ele não conseguiu superar, as velhas tralhas, que nem pareciam mais sentimentos, naqueles armários usados, gastos e pesados que trazemos dentro do inevitável que nos habita, do que um dia parecia irrealizável. Só presenciei algo semelhante em minha história com mamãe; e o que a transformou numa estátua pálida de olhar marmóreo, uma expressão incansável de terror, foi o amor e o medo; mais precisamente, o abandono.

Eu o penteava todas as manhãs. Catava cada pensamento sem rancor, cheio de esperança de que todos os cabelos que caíam formassem um sinal, um claro sinal de que as coisas – nós, os movimentos dele, as minhas declarações de sucesso, desejos de futuro, os cuidados que ele não sabia desenvolver – pudessem melhorar. O sol, depois de algumas horas, me ajudava a intensificar carinhos; como eu desistia cedo de receber algum olhar em troca de afeição, o calor que vinha de fora, o amarelo vivo dos toques solares iluminavam o rosto de Vicente, emprestando a ele os tons de quem ainda quer viver, mas tem pavor suficiente para se esconder numa agonia amaldiçoada, dentro da derrota miserável de não entender a distância que nos separa.

Depois que eu despejava água sobre seu corpo, já despido, imaginava que a natureza havia me concedido o poder de imitar chuvas torrenciais. Eu inundava aquele homem vazio com vários baldes cheios de decepção e esperas gastas. Se um dia existiu esperança em meus olhos, ela se desfazia no chão naqueles momentos, em metros cúbicos, e as lágrimas que rolavam soltas no fim de uma tórrida tempestade anunciavam a próxima estação.

Quando Vicente dormia, provavelmente engolido pela realidade paralela que existia em seus sonhos, eu acordava para ser outro. Pensava no passado, remexia caixas velhas com declarações de amor mais velhas ainda, que prediziam o contrário, o avesso de tudo aquilo que estava acontecendo: a felicidade não morava dentro de mim. Então, com uma chama violenta de amor reverso, queimei quaisquer perspectivas de um futuro sozinho, e desisti de abandonar Vicente.

Você nunca entenderia. Você pensa que é fácil desistir de um homem, de pensar em sofrer tanto sem o silêncio dele. Mas não é. Você não entenderia seu olhar escuro, capaz de engolir alegrias envergonhadas, devorador de promessas de paz; as perguntas sobre o que o teria tornado um homem tão silencioso, com grandes precipícios sendo cavados a cada vez que eu ia diminuindo meus percursos, ficavam me consumindo; então eu, que era dado a entregas e aproximações iluminadas, inventei uma profundidade desconhecida: a primeira distância.

Não voltei a trabalhar. Abandonei amigos e futuro por Vicente. Ele nunca pediu nada. Passei a aceitar, entender sua expressão de infinito no rosto, como se o apocalipse estivesse sempre começando dentro dele, e os assombros que ele experimentava ao gemer de dor funcionavam como súplicas comprometidas.

Resolvi ficar, todo dia um pouco mais. Não fugia mais. Comia pouco. Escrevia um roteiro do que deveriam ser conversas afetuosas entre nós dois. Colava palavras bem desenhadas nas paredes, e ilustrava bonequinhos felizes, correndo em campos marrons borrados com árvores bem verdes, gigantes, e um céu torto com sol de sorriso escancarado, e durante meses incorporei a alegria, o amor, o respeito, o jeito flexível de me respeitar e de me aquecer, o modo sobrenatural de me comparar ao outono, sendo o que Vicente nunca fora.

Engrossei a voz e tentei imaginar outro timbre, as expressões que ele faria se soubesse como injetar vida naquele corpo amorfo. No café da manhã, voltei a usar os plurais dos quais havia desistido há anos: duas xícaras, dois copos, dois pratos, pães, frutas. Tudo para uma vida a dois inventada.

Assumi mais que a ausência de Vicente. Resolvi não esperar o amor que não balbuciava, que não movia os dedos para me dizer que direção seguir, nem piscava para discordar dos meus erros, que não me fazia rogos com sorrisos abertos. Não esperei mais pela presença vazia, a carne que se tornava paralisada pelo desconhecido, a ausência da ausência, como se existisse dentro de um buraco minúsculo uma profundeza mais negra e poderosa que aquela que se consegue enxergar ou entender.

Percebi que sem um amor presente eu só conseguiria experimentar uma segunda distância.

E me aproximei.











Doze dias para o fim




Fotografia: brianoldhan

(Escritos de 2010)

Dia 1: Qual o tamanho da dor de viver sozinho? Menor que o céu azul, maior que a preocupação do mindinho?

Dia 2: O amor devia começar aos poucos; um jardim de tamanho razoável que comportasse a intimidade de dois grandes universos, com rosas transparentes que se alegram durante a noite (quando os olhos focam a preocupação e a alegria inesperada de uma segunda-feira agitada) e um rio grave com nascente nas dores passadas, percorrendo a nova morada que abriga esse amor que se inicia.

Dia 3: Quanto tempo é preciso para se querer tanto alguém por muito tempo?, e sentir a paixão soprar o pó do desgosto e do preconceito? Encher o pulmão de afinidades e coragem, fazer voar a areia da velha ampulheta que calcula o tempo necessário para nosso novo querer?

Dia 4: Quantos dias se passarão para eu te convencer que minhas rugas são de vergonha e não de uma velhice ainda jovem? E que essas marcas fazem sombra no meu rosto para esconder os detalhes que denunciam minha imaturidade?

Dia 5: Eu nunca soube acreditar no amor.

Dia 6: Eu sempre quis acorrentar meu coração na irreverência de um querer maior que eu.

Dia 7: Não tenho paciência para as tempestades e o céu negro do sexo descompromissado.
A expectativa me aproxima do desconhecido. O mistério que em mim reside se torna desabrigado; foge do conforto dos meus recantos e se revela uma espécie desprotegida de bicho inseguro, faminto de algum sentimento nobre, luminoso, disponível para a cumplicidade e para as torrentes do compromisso dependente.

Dia 8: E não é que seus confortáveis vinte e poucos anos te afastam da mediocridade tediosa da adolescência pseu-metropolitana de Teresina a qual sempre me vi tentado a aceitar, entender, querer muito, engolir, mastigar, e aprender a conviver com os prejuízos que causam aos dentes?

Dia 9: Senti-me embriagado de seus desejos revolucionários; sua gentileza precipitada ainda me confunde; é que penso que qualquer disponibilidade para a bondade é um ensaio para o amor; e eu, esforçando-me para lutar contra sua juventude de águas poderosas, acabo cedendo e me entregando ao cultivo da possibilidade do novo amor.

Dia 10: Meus vinte e oito anos não me capacitaram a racionalizar. Um cérebro de algodão-doce, e neurônios em calda como se tudo o que eu precisasse fosse um querer coberto de açúcar queimado e ma certeza infinitamente colorida.

Dia 11: Nunca entendi a entrega completa, mas sempre a quis. Vivo dolorosamente as renúncias das repetições de uma vida menor; mastigando os hábitos que me tornam distante. Sinto a vida com um corpo novo, uma reinvenção de mim, [Você já leu isso em algum lugar de um outro alguém? Sentimentos discretos, crocantes, e alguma revelação clichê, mas sempre esperada? – então encaras meu coração como um biscoito da sorte?], engolindo seus ensinamentos inacreditavelmente adultecidos, e corrompendo minhas decisões disfarçadamente adolescentes.

Dia 12: E que se repita a novidade a cada dia, com disposição para redimir nossas falhas; com fôlego para emergir a cada desgosto ou ir mais fundo no envolvimento. Voltar à superfície de ti só pra ter a certeza que vivo mesmo é desse quase amor úmido que me abastece. E que minhas palavras tornem-se as tuas, que tuas qualidades me cubram de bondade, que teus passos me levem à glória, que minha escrita sirva para teu futuro. E que o amor que inventamos nos torne únicos e inseparáveis. Até o próximo mergulho.




15/05/2012

O fim não dirá o que nos tornamos, Teodoro


Fotografia:  Alex Stoddard




O primeiro pensamento de Teodoro após um segundo beijo é: não esperarei com a mesma expectativa arruinada pelo acolhimento dele daqui a um ano. O segundo: os olhos dele cabem dentro dos meus. E espera a ligação dos outros, sempre diferentes de todas as suas expectativas, tamborilando suas ideias de abandono através dos dedos músicos de encontro a qualquer superfície lisa. Teodoro entende qualquer abandono como algo ridículo e mesquinho, mas tão grande, perverso, aniquilador, que sente uma outra vida começando dentro da falta; a morte que auxilia o recomeço, ou o fim que ele entende como necessário e assustador. As coisas que não tem fim começam dentro de Teodoro, e morrem dentro dos outros. 


Como se faz para permanecer dentro da vida de alguém?, Teodoro dá um riso longo, guardado na rigidez da vergonha e se apressa em forçar o choro. Ele queria alguém que mastigasse sua tristeza, que a escondesse em qualquer passado cruel e não o deixasse sozinho.

Não gosta da sensação que se apodera dele, como um demônio em formação, nos últimos beijos, de que comporta quase perfeitamente nos detalhes exagerados das mãos daquele outro moço, do estranho, do que ainda é imperfeito e não se tornará nada mais que imperfeito. Ele sempre coubera em qualquer brecha de vida que olhe ofereciam; esgueirando-se quase sem fôlego ou espaço, ele tentava enxergar uma luz no final da passagem, para alcançar, mesmo com as pontas dos dedos, a não-espera do outro.

A palavra adequada não é espera - pensa Teodoro com todos os botões de pensamentos que ele nunca aprendeu a costurar em seus projetos de vida. Mas lembra de outras expressões como ausência continental; como soa quase um paradoxo, limita-se a acreditar que está esperando o que sempre, na sua vida, desiste de chegar. Seus afetos entram numa máquina de lavar íntima, e depois de todos os giros, da suposta limpeza a que submete sua desesperança, tudo encolhe e Teodoro não consegue mais vestir seus sentimentos, porque eles o sufocam. A menor peça é o amor. Não entra em sua cabeça e, se vence esse obstáculo, não chega ao meio do corpo.

Futuro. E se ele não gostar do nosso futuro? Parou cansado, e acelerou em seguida buscando o futuro: Não gosto muito mesmo.

Envia mensagens e sinais corporais ao que ele chama de O Estranho Conhecido, insinuando sua disponibilidade fantasiosa: os cílios batem asas inventadas permitindo que seu olhar voe até os detalhes do outro alimentando assim suas menores perspectivas com a grandeza do homem que Teodoro não possui.




- Quantas pessoas te amaram e ficaram na tua vida , Teodoro? Ele olha para os dedos das mãos. Espalma as mãos no vazio. Os dedos começam a se esconder dentro da palma, um por um, lentamente. Teodoro observa os dedos escondidos nos punhos fechados e não diz nada. No silêncio também mora a resposta dos que estão sozinhos.


Teodoro quer se comunicar. Aperta as mãos com os verbos que caem da boca. Esmaga alguns gestos, e inventa outros. Sente a escuridão com pontinhos vermelhos bailarinos atrás dos olhos tentar engoli-lo, e ela diz Não é tão seguro quanto você pensa abandonar o desejo de ser feliz ou desistir das pessoas quando tudo parece estar fora de controle. A escuridão dele é uma força estranha que usa o tom correto para a pessoa inadequada: Alguém que tentou amá-lo marcou dezesseis encontros de romantismo duvidoso, mas claramente sexuais, e esperou tanto que envelheceu uma geração inteira com rejeições marcantes e medos irreais.

Teodoro dá o passo seguinte sempre para trás. Não é tão fácil quanto desaparecer. Tem lá seu conforto afastar-se das pessoas, sumir de vista, estar do outro lado, ou pelo avesso, dizer Não; não esperar o melhor ou bondade, não amar eternamente qualquer objeto-homem, não querer, não-ser.

Ele não precisa mais assegurar que algumas pessoas fiquem até o dia seguinte em sua vida, pois entende que quando ele dá o passa para trás, eles estão indo adiante, e, na maioria das vezes, já têm partido. Fugido mesmo, disparados; animados pelo alívio de não terem se permitido conhecer o homem cuja estupidez é uma solene e hermética capacidade de permanecer na fantasia do amanhã, que trata a solidão como um santuário de deuses mortos, anjos vis, monstros que se portam adormecidos desde a infância. São procuras que funcionam em pólos opostos, a dele e a de todos Os Outros. Sabe amor do sul que procura encontros apaixonados com almas do norte? Caipiras nordestinos que sonham com moradores de Mountain View, na Califórnia?

Teodoro possui competência para fazer de qualquer paixão um acessório dispensável. Investe toda a sua energia mais em desistir do amor do que dele esperar algo secundário. O amor anda armado até os dentes e funciona, para Teodoro, como uma facção terrorista coexistindo na nação mais segura de um mundo imaginado. E o compromisso, um déspota metido a progressista que não compartilha com ninguém seus ideais de solidão imediata.

Para ele, dentro de seus angustiados significados, o amor é um mal-estar fatigado que ultrapassa a barreira dos três meses de relação, já tendo sido estabelecido a definição de quem é preferencial e/ou obrigatoriamente ativo e/ou passivo.

Teodoro cai de amores quase todos os dias. Um abismo profundo e muito estreito. E se não consegue erguer a cabeça é porque o espaço que existe quando ele chega ao fundo é tão inacreditavelmente extraordinário quanto duas luas cheias ao meio-dia.

Ele cai, mas as feridas não são apenas pelos duros golpes do destino, e, sim, pela dolorosa repetição das suas escolhas; golpes de misericórdia para quem já vê o coração afogando-se nos erros, como se um inimigo invisível, sorrateiro e destruidor estivesse em seu encalço. Irremediável.

Teodoro não é:

1. Um sol preguiçoso em constância crepuscular irradiando uma alegria mórbida vestida de catástrofes e eclipses.

2. Uma flor da noite esquecida, fechada em seu broto, no mundo esquisito que sua família o ensinou a inventar.

3. O depósito de expectativas penetrantes de seus pais, que aguardam um relacionamento do filho com uma mulher que saiba enfeitar a dignidade de um sobrenome com boas maneiras, servidão abençoada e consumo desenfreado.

4. Apenas aquilo.


Teodoro apenas está cheio de futuro e inferno dentro do peito.

E para a pergunta Quem é você?, sua resposta: Nada do que você espera.

Antes de tudo terminar, Teodoro escreveu na última linha da vida:

Minhas histórias são repetições de desistência. Eles chegam, enxergam a dignidade do amor que persiste, sufocam-se e (me) partem (ao meio).



Terceira pessoa: quando eles se confundem.



Danny Schwarz & Guy Robinson by Bruce Weber



O coração sofria morno quando ele veio lançar-lhe sua desmesura: Encontrei em você o que eu estava procurando. Com os olhos fechados arriscou-se então, e as palavras vieram renovadas de seu último relacionamento, apuradas pelo desejo por uma semelhança, seu oásis em tempos desérticos, um acalento, uma angústia corada que o fizesse querer sempre mais, nunca menos.

O mesmo coração que recebera a declaração, agora fritando em esperança, deslocou-se afoito rumo ao juízo, a fim de desorientá-lo, provocá-lo para o sim: Quero, devo, preciso entregar-me da superfície do que desentendo até o fim, e se doer que seja o dia todo; se sangrar, que a madrugada ansiosa do meu exagero urgente esconda o horror das minhas expressões de paixão descoberta.

Ele foi prático quanto aos discursos sobre seu amor, plástico nas frases de efeito; descobriu a possibilidade de um sofrimento sem cortes profundos. Revelou para a família seu agrado, carregou carinho recente para que os amigos conhecessem o que o tornava outra vez devidamente dedicado: O que ele tem de melhor é o que eu esperava. O compromisso firmou-se no toque; sem enormidades o interesse derramava-se com voracidade, aplacando o que era para aplacar, pronunciando tudo o que era vontade, mas quase insuportável.

As palavras davam-se as mãos, e de minuto a minuto se abraçavam: É tão bom conversar contigo, sabia? Explanavam sobre livros, autores que os aproximavam de conteúdos assustadores, autores que os libertavam para a procura, cineastas que acentuavam a intensidade. Seus planos também enroscaram alguns dedos, lamberam-se um pouco, quase submissos e higiênicos: Vou levar você comigo.

O outro transparecia sentimentos rubros e austeridade: Alguém já disse que você é pra casar?. Um questionamento estreito, rápido, estrangeiro, que fez aquele outro cair mil vezes dentro da mesma certeza rutilante de quando se viram pela primeira vez: Eu não conseguia ouvir nada; o barulho de uma criatura de centenas de bocas em escândalo impedia tuas revelações. Só pude agarrar-me a teus olhos me pedindo pra voltar, ficar, confiar nas tuas explicações, nos teus atos investigativos sobre meu passado, meus interesses, minhas poéticas ridicularias virtuais.

Iniciou-se a ostentação feliz de um atual envolvimento. O outro esteve com os olhos graves, evitando a ofensiva desrespeitosa dos bichos ariscos que se assemelhavam a homens de dentes cáusticos.

Quase por vergonha o outro deixou de dizer sim. De abraçar sem pudor, de permitir também quase incrédulo o sentimento nunca experimentado, aquela brasa emergente, tudo que se firmava concreto e pungente nele tornou-se de outra natureza. O que vinha do homem o intoxicou irremediavelmente: Tão parecidos, como pode? Estamos na mesma frequência e vibrando. O que pode acontecer além de dar errado? Sinto o gosto da expectativa ferida. Escreva no meu corpo seu dia-a-dia. Acho que não aguentaria quinze dias sem segurar teu coração limpo de traição e maldade nas mãos. Posso visitar teu cotidiano quando a tristeza estiver me engolindo?

Mas o outro se revelou irresponsavelmente. Os olhos do homem derretiam angustiados; o receio de não suportar. Os problemas do outro enchiam a boca dele de areia fina. Faltava o sol se pondo, convidando estrelas para detalhar o começo de um novo encontro, e a brisa extrema e suave, um afago da vida, e a imensidão alargada de um mar feliz. Mas o outro não sabia criar pequenos universos assim. Não escondia seu interesse, e não sabia inventar a paixão.

Talvez não fosse mesmo um início prudente e ameno; talvez houvesse algo mais a se buscar, que poderia ser encontrado em outro homem, um passado que voltasse e o abraçasse com carinhos acostumados e um desassossego cheio de muito sentido, ou um futuro realmente surpreendente. Porque o novo outro, que o habitava agora, não era mais surpresa, e o seu brilho morreu assim: pa-puf.

O outro era como todos os outros. Como quase todos os outros. Afinidades inventadas, com aquele querer que faz sombra e não queima as relevâncias. O homem queria as tempestades solares do amor repetido de uma vida toda, que um dia viveu. O outro não sabia como fazer pra cuspir fogo, encher a boca de álcool e apimentar a relação com desconfiança e a chama do ciúme.

Seus corpos dialogavam cheios de aproximações, falando quase a mesma língua; partes acrômicas de si quando precisam ser discretos. As dores do outro espalhadas pelo plexo solar e lobo frontal. Já o homem descascava quando pequenas ameaças surgiam para comprometer seu bom futuro.

O homem vivia a injúria escarlate de quem está perdendo o controle. O corpo com pedaços encarnados, enciumado de ter outro por perto capaz de atenção suficiente e um querer ajustável. Porque ciúme é isso: querer mais do que se tem. Camadas delgadas, aspectos avermelhados, róseos ou acerejados -lindamente translúcidos e doces como cereja em caldas (o corpo de um deles se confundia com cor e sabor) - de algo crônico que apresenta recidivas, erupções de um conteúdo que só poderia ser imenso, comprometedor, importante, um rubor congestivo que só precisava de honestidade e bons tratos para desaparecer por uns tempos.

E enquanto o outro se arrepiava, os pelos hasteando a bandeira da intenção revelada, o corpo psoríaco do homem mostrava seu enrubescimento impetuoso que precisava de cuidados: Eu, que nunca esperei acompanhar o florescer de uma cerejeira, entusiasmava-me com a presença fragrante daquele surgimento rosicler, esperando o flanar pacificado das pétalas que desistiriam da beleza rosácea e orgânica daquele homem do qual, dali alguns dias, eu colheria arrebatado os frutos cálidos da entrega sublime.

Seu corpo se dedicava em porções, do máximo ao mínimo, e o outro poderia ter percebido o fenômeno antes, ter avançado em direção aos níveis do homem, um a um, antes do fim, arrancando todas as suas coberturas, até chegar próximo a algum conteúdo que garantisse algo duradouro; o núcleo de segurança, desistências, aquela verdade de cada dia, que se transforma e se adequa; entender que medo o perturbava, qual pedaço de si pacificaria a escolha do homem. O outro deveria tê-lo desmanchado por completo até ter nas mãos a certeza que hoje possui assustado: que findaria antes do começo.

A potência sem escrúpulos da iniciativa do outro deveria ter demolido a firmeza das dúvidas do homem. Ele parecia tão engolido pela certeza de que desistiria no décimo terceiro dia – abandonando a novidade do outro – que não teria forças para abrir a boca gigante do monstro do passado que o mastigava, afastar as presas extravagantes, tomar fôlego e pensar mais um pouco. Não passava por sua cabeça que seria tão simples esquecer o envolvimento inaugural, os carinhos dedicados, o compromisso assumido apressadamente: foi como estalar os dedos, piscar os olhos, calçar sapatos, o rebentar de uma pipoca, como lavar o cabelo, ensaboar o corpo nacarado, odiar um filme sobre zumbis, ajustar os ponteiros do relógio, como um gole de vodka, como um cumprimento furtivo, um Oi nas festas seguintes, foi como respirar. Como tentar esquecer um amor aborrecido, uma experiência de tantos anos com alegrias cheias de hematomas, como organizar na agenda da vida lembretes desafiadores e que jamais serão esquecidos: Não posso esquecer de lembrar sempre dele. Como se a novidade fosse um contratempo.

Disfarçou sua incerteza secretamente, num estilo pop-cult, de quem não quer marido pobre, sem dois turnos de labuta excessiva e com o corpo sem modelações de academia. Vivia suspenso nas lembranças, que poderia tudo agora ser diferente. E teve raiva, uma cólera burra tomava conta do homem, porque poderia ter sido diferente, bem que poderia ter dado certo, quatro anos de afagos e de um amor sem manual de sobrevivência na selva das traições que não se esquece. Entendia-se ainda plural. Duas vezes o mesmo amor antigo. Duas vezes o outro primeiro que o satisfez. Aquele outro que o arrastara para longe dele, que o acorrentou à impossibilidade de querer amar outra vez, aos poucos, lentamente, desabrochando um querer qualquer.

E agora apareceu esse outro homem bom, que era só bom. No entanto, esse sentimento impraticável não chegava a ser uma renovação, não o aproximaria dele mesmo, do outro corpo, nem esmagaria seu passado, não o ajudaria a enxugar os excessos de suas memórias. Não havia prazer em descosturar tais reminiscências, desfazer o sentido de tudo, estender a mão e acolher a nova tentativa, e ceder, ceder, ceder. Para que o impulso adiantasse o amor.

Mas o outro, dos tempos da paixão incurável, lançou-se primeiro no desafio da superação, para curar o corpo que vivia dormente e acostumado: o passado agora se satisfaz com um novo presente.

Alguém não teve tempo de chorar até esvaziar o corpo. Alguém não se explicou com suficiência. Alguém fechou os olhos antes da aproximação. Alguém disse as palavras inadequadas. Alguém está sem entender até o momento. Alguém não vai voltar. Alguém dançou como idiota. Alguém entregou o jogo. Alguém partiu antes do fim.

O final foi pintado com exasperação, como se superar o desejo de treze dias fosse a grande conquista da nova vida livre, aberta e tranquila do homem: Estou bem sozinho, calmo; sair com os amigos, encher minhas convicções de sabores etílicos, sumir de mim por algumas horas, e não justificar a ausência, não explicar meus caminhos: 
Você chegou ontem. Mas pode ir hoje se quiser.

E o outro foi. Assim, com o querer recente latejando nas mãos.


Foi sem entender, sem mais nem menos.


Assim mesmo: pa-puf.





Calamidade íntima



FOTOGRAFIA: LI WEI (AQUI)


- Quer ficar comigo até o dia seguinte quando tudo parece perfeito e não poderá ser namoro?

- Ah! Não acredito! Você quer dizer que é capaz de querer me avisar sobre seu amor pelo menos seis vezes ao dia, encostar suas ideias preocupadas no meu ombro aquecido e sentir as dificuldades do seu dia evaporarem, hidratar sua insegurança com minhas lágrimas de súplicas de permanência; descansar suas pernas fadigadas de caminhar sempre na direção do que não volta em minhas mãos que sustentam corpos de homens que não duram à distância, resistir bravamente inteiro e plácido sempre me buscando por palavras, sinais de fumaça, transmissão de pensamentos sobre o fim que não nos perturbará, cheiros impregnados dentro das almofadas que vivem saturadas de sonhos que vazaram da sua noite, ligações estranhas que acordam meus delírios, objetos que caem e, destruídos, se parecem comigo; escrever nas minhas faltas ou ausência de perspectiva todos os seus ideais de amor que só existem para homens que moram no mesmo bairro, cidade, país, e afirmando afiado que dois homens só realizam o amor se ocuparem suas carências com proximidade territorial, como se amor fosse questão geográfica. É isso que você quer, namorar comigo?

- Não, não! Não falei em namoro, muito menos em um desastre.

- Ah tá! Entendi! Entendi mesmo. (E quando o abandono não é apenas imaginário? Estou do tamanho de um grão de esperança perdido nos sonhos e na vida de um homem para quem eu não existo mais.)

É que tem dias que você só quer um abraço redentor. Mais que isso seria amor.


(Escrito em 22.08.2010)

13/05/2012

Para o próximo amor que me afastará de mim


Fotografia de Li Hui



A paragem que enxergo de longe – animada e cintilante pela chuva que alegra também meu futuro – é meu coração esperando as mensagens tímidas de sua nova vontade. Hipnotiza-me a espera; o barulho da falta; o desassossego da insegurança; esse animal de véspera que arranha e abre chagas na minha carne íntegra. Quando encaro a entrega, sou pura derrota. O cheiro de terra úmida e aquecida é o amor discreto da natureza que presencio – o amor rotineiro, calmo e especial na medida certa que espero de ti.


Antes da bonança, das brisas sem exigências, houve raio em tua tempestade, que abriu clareiras nas minhas convicções, arrancando as raízes profundas de verdades que só inventei para assegurar meu bom-senso. É que o amor me torna substância liquefeita, e qualquer paixão extrema doma minhas formas com fogo e me contém em partículas, meu querer planando em tuas proximidades, mas ainda atencioso e inevitável.

Não sou mais capaz de recusar nada que venha de ti. Deixo que ocupes todo o nosso diálogo; teus problemas são dádivas que me salvam de mim. Permito que teus pés enormes se refugiem na planta dos meus, e tuas unhas procurem a carne minha que te faz mais humano.

Ouço-te ressonar e declarar pesadelos.

Aceito teus sons abusados e teu caminhar encantado. Teus modos de tomar banho e lavar as impurezas de modo frenético; os medos que sustentas intactos desde a infância. Teu piscar inconstante causa um rio de admiração em meus olhos. Estou entregue. Em cada célula de minha estrutura desejante há um momento de entrega: tua escova de dente jogada com descuido, teus metros roubando-me o sossego da cama, teu conhecimento em inglês que me corta a língua ignorante de raiz caipira, teu vício na busca inconsciente e desagradavelmente secreta por um homem que não tenha uma existência simultânea à tua.


Costumas me dizer teus desejos com o toque das mãos e o roçar dos lábios nos olhos que te vigiam. Tua beleza me desperta para o equívoco. Despenco diariamente em tuas linhas cuidadas; não consigo seguir convicto nos detalhes ricos de teus percursos. A cada alegria a que te submetes, sinto-me jogado em um precipício teu; quando teu corpo se enche de surpresa e esperança, seduz-me a idéia de te deixar antes que descubras que meu lugar é ao teu lado. Minha vida, que se inteirou com o mundo através de ti, é feita de detalhes repetidos em tua magnificência.

Nunca percebes minhas lágrimas. Sou sujo e dou descargas no próprio corpo para ter as incertezas levadas para longe da tua vista. Toda a minha tristeza guardada na rigidez do corpo; sofrer enrijece minha alma, e a ela foi reservado o poder de se exteriorizar em formas variadas, com desfaçatez. Simulo felicidade para não perder espaço na tua vida, e fazer parte de tudo que em ti existe e que parece esgotar-se todos os dias. Eu sou tu quando o sol risca nosso universo.


Só há lucidez na tua solteirice. Hoje procuras amor tateando nosso cotidiano com cegueira recente.

Deixei a insegurança nublar-me a vida a teu lado; te vi navegar para longe, perdido na névoa de tudo o que fora dito. Inventei minhas fugas; escondi-me dos teus braços e dos teus olhos suplicantes. Por que tive dúvidas que fosse amor essa presença que me acordava, nascendo dos teus sussurros e do teu coração que vive a aflição da primeira conquista


Estou no limite das boas intenções, calculando o quanto ainda poderia ser mais eu. O que precisava ser dito? Que eu não queria viver sozinho pelo começo dos últimos dias de minha vida? Que era uma alma neurótica vestida de sombras? Que eu nunca mais encontraria alguém com tanto encanto como tu?


Exigi para mim provas do amor que me sufocava. Quis tatuar minhas explicações elaboradas para o meu apego a ti; talvez, pensei, um desenho que representasse a dor e a exaustão de minh’alma ao te sentir minimante distante, ou distraindo-se com o luxo que eu não consegui adquirir, ou perdido nas amenidades sem conforto a que estavas habituado.


Mas nunca explicitei meu amor; não pintei nosso afeto com as cores possíveis de uma vida provável. Não tatuei a busca ou o encontro; nenhum rabisco em mim que revelasse as respostas que teus olhos glaucos pudessem entender. Teu sono agitado era uma súplica. Uma floresta densa surgindo no meio da noite, e eu não tinha forças para esperar o amanhecer; e então, diluía-me com as águas noturnas choradas do teu corpo; guardei-me na escuridão dos rochedos de meus preconceitos para proteger-me da entrega necessária. Jamais seria teu o amor que aflorava enquanto eu não me possuísse inteiramente.

E, assim, quando acordavas, admirado de minha presença em teus sonhos, eu estava preso em ti, diminuído e feliz por nunca ter apresentado meu amor, como simples resposta a tuas declarações explícitas: tuas ondas violentas lavaram meu corpo oleoso; teus barulhos, que nunca decifrei, queriam me acordar da prisão dos preconceitos, e tuas palavras ensinavam-me a aceitar que apenas dezoito anos de terra e luz confere virtudes e boas intenções a alguns homens. Se fosse um erro amar-te em demasia, estaria reordenando uma vida que nunca mudou enquanto sustentava-se no equívoco de alguns acertos.

Meu erro foi não me perder, e não encontrar na minha idiotice vulnerável a certeza que eu desconhecia.


Não te tenho mais a meu lado. Meu medo enfraqueceu teu amor sereno recém-inventado. Perdi teu amor, sem me encontrar.


Hoje vivo o desabor de uma existência suspensa, sem tocar o chão do teu mundo que não me comporta mais.



Meu amor é o fim do mundo





Sou guiado por um estrela escura, escondida e impossível, no céu da tua boca. (Tudo em ti ainda é noite.)

Sou o suor que sentes salgado escolher tuas extremidades, despencando em teus desfiladeiros, seguindo o caminho sem volta de teus interiores, aguando o mundo sem chão que aprendeste a imaginar. As gotas que se acumulam em tuas roupas são minhas.

Sou a fruta seca que guardas das sobras de tudo aquilo que comes. Sou os cacos de todos os momentos que não conseguiste juntar quando a dor chegou impiedosa e desfez a forma cristalina de teus sonhos.

Sou teu passado escrito em linhas preenchidas de virtuosismo nos papéis antigos que não te preocupas em resgatar. Sou teus toques que alteram as profundezas da minha angústia encarnada onde não há traços de sangue ou resíduos de amores que não deixaram o travo amargo da falta de perspectiva.

Sou a vida-a-dois sonhada sozinha.

Sou tuas lágrimas de vidro.

Sou a escolha enervada do que te falta.

Sou teu coração em frangalhos pelo homem que não se apropriou de todos os começos de teus dias sem glória.

Sou teus monstros e a escuridão que te faz acordar para a eternidade.

Sou os nós na linha da tua vida que parece não se esgotar. Sou o final de tuas mordidas, a dor última que lacera todo o corpo que se despede.

Sou a liberdade que não ousa te abandonar.

Sou a tua solidão em dois momentos:

Quando me tens. E quando me deixas ir.

Sou tu.


09/05/2012

É preciso ausência para que o futuro apareça



Joel Robson







Que pedaço de mim você esqueceu de ler?




02/05/2012

Dignidade é um prato cheio de mim pedindo tua fome



Minha fotografia



Porque ainda me resta um fiapo de dignidade, acho que entendo quando parar e costurar o olhar para frente, para o próximo.