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Ludovico Einaudi's Melodia Africana III
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Antônio
veio guardado num sossego curto, suspirando, soltando gemidos que pareciam uma
imitação comovente de uma velha senhora cansada de seu casamento de cinquenta. Estávamos prestar a cair dentro um do outro. Fugíamos do tempo
nublado que se fechada dentro de nós. Chovi em Antônio, mas quem morreu afogado
fui eu. O apartamento não comportava mais o nosso constrangimento; uma onda
dilacerante, mal cheirosa até, de desconforto nos arrastou para fora de nossa
vida como casal que concordava em tudo, que se assumia realizado. A pouca
beleza que morava dentro do quarto estava desapontada com nossas gargalhadas deficientes,
capengas.
Fui
sincero dentro das minhas medidas. Antônio preferiu a desmesura, a boca larga e
apavorante das palavras fugidias. Soava como verdade, uma impressão reluzente
num anteparo escurecido. Quem nunca sabe o que realmente quer desentende seus
próprios começos, Antônio.
Apresentei explicações sussurradas que se perderam
nos bocejos dele. Não havia amor que superasse a esperança de Antônio em
encontrar alguém melhor que eu.
Ele
não possui a força de escolha alguma, são quebradiças suas maneiras de durar;
uma perdição aparentemente atenta forjou suas decisões até o último momento
antes da partida. Os amigos são ausentes. A única presença que o consola é uma
sombra insatisfeita que atua como a extensão de seus anseios embolorados. A
satisfação é confusa. Tudo que nele deveria ser vida perdeu-se no caminho do
amor arrependido. Quem no mundo possui apenas um amigo? E quando acabam seus
recursos para salvar o dia, esse único amigo só é capaz de ajudar com outra
prisão? Existe alguma liberdade na amizade que consome tua segurança?
Antônio
ainda é uma criança de dez anos escondida em seus medos, na espera ansiosa do
dia em que sua mãe abandonará a loucura e contemplará seu futuro com uma
felicidade emancipada. O desejo do filho agora é uma extensão dos
desregramentos da mãe. Antônio cresceu dentro da ausência. A mãe viajando para
longe de si, agarrada a imagens distorcidas; o pai optou pela fuga. Ninguém lhe
ofertava abraços; Antônio, que não sabia mais em quem acreditar, ficou sozinho
dentro de casa, dentro dos pais, sozinho dentro dos outros.
Descobriu
a insuficiência em suas ofertas ao começar romances com homens e mulheres precocemente.
Todo assustado, fugia para o quintal da casa das tias quando as primas ofendiam
sua ainda primitiva dignidade masculina: Veadinho! A palavra o destruía. Ele
cresceu na pretensão de ser uma ofensa à família. Resolveu cobrir o desejo
maior dentro do coração com sexo voraz e comportamentos cheios de displicência
e promiscuidade. Antônio encheu sua vida de derrotas repetidas com cheiro de
glória e cor de conquista. Antônio não é feliz.
Somente
uma pessoa o faz acreditar que ele é melhor que todos, que tudo vai ficar bem,
que não precisará se submeter ao amor de um homem e que não é necessário abrir
mão de sua vaidade: A sua sombra. Ela o ensinou a ser ninguém. Antônio e sua
sombra amiga, a imitação de suas vontades esfarrapadas, sua cobiça desfiada.
Aquela que é a inconsequência de Antônio e que não sabe ser alguém também. Ela
precisa da luz de Antônio para continuar como uma presença suspeita numa
relação adoecida, duas tristezas que se arrebentam.
A
solução encontrada por Antônio, na confusão da sua sexualidade e insegurança,
foi invadir a intimidade de homens e mulheres que por ele se interessavam. A
solidão insatisfeita de Antônio fodeu a paixão dos outros. O abandono que
sangra ocupando o amor dos que acreditam nos deslizes afetivos de Antônio. Ele
entra e sai da vida dos outros visando o gozo precário, não a completude. Ele
permanecerá mutilado, certo apenas de sua vaidade extasiada.
Antônio
descobriu que há nele uma fome de inseguranças e homens potencialmente
abandonáveis. Ele mastiga o amor e oferece as sobras à sombra que o acompanha.
E fica por fora dos outros por muito tempo, na fantasia de que o mundo só existe
na próxima vontade. Elabora embustes para não sacrificar seus modos também
fingidos, exagerados, afetados de permanecer. Não são mentiras no início. É que
ele acredita que o amor pode começar também no caos.
Ele
me contou que sua mãe saía de casa para tirar a roupa na rua. Sozinho, Antônio
experimentava o cuidado de vizinhas com cheiro de naftalina, primas mais
velhas, empregadas oleosas. A maioria delas tocou a intimidade dele com
firmeza. Elas abriram a ferida do deleite adolescente. Chuparam, morderam e
ensinaram-lhe a penetrar a sensatez alheia. Dos oito aos vinte e tantos anos,
Antônio foi uma máquina de sexo aquecida, vazia, automática, decrépita. Antônio
deixara de lado sentimentos e como um arremedo da mãe ausente, experimentou a
luxúria pecaminosa de uma carne sempre triste.
Sua
mãe ausentava-se por semanas inteiras; retornava cheia de reservas, uma timidez
selvagem, ternura que se perdeu. Parecia não reconhecer os filhos, quatro. E
Antônio, o mais velho, foi forçado a ensaiar uma fuga de qualquer verdade organizada
com a mesma destreza instruída de quem cuida do futuro do lar. Ele
arremessava-se para fora de casa, urgente, para cair no abismo da própria discórdia.
Deixou-se preencher pela sombra que se manifesta nele. Um corpo sem alma agora,
sem esperança, aturdido, que continua indeciso, mordendo as escolhas
lamentáveis, com um sorriso aterrorizado, num ensaio de felicidade plena que
não passa de estranheza e desespero.
Ele
prefere as pessoas que o dispersam, que mutilam seu sossego, o sexo rápido que
sufoca o presente. Viveu fora dos abraços da mãe, dos cuidados do pai, esteve
durante anos fugindo da crítica ácida das primas e da mágoa fanática das irmãs;
foi como se estivesse num quarto em chamas, e a única saída fosse uma janela no
vigésimo andar.
(E
o destino, veio-lhe apresentar a sombra que não o deixa ser outra coisa, uma
paixão escondida no apoio incondicional.)
Antônio
não acreditou em nenhuma das minhas palavras; ouvia todas as minhas declarações
como se estivesse ouvindo uma estória lúdica sobre monstros de mentira, ou
presenciando um golpe bem calculado.
Quando
avista o fim da relação se aproximando, estende suas mentiras como o desenrolar
de um glamoroso tapete vermelho e deixa desfilar sobre ele a majestade de suas
intenções forçadas. Antônio, ao entender que o fim se aproxima, sofre e elabora
uma ilusão impregnada de declarações de amor entediadas.
Convivi
com as mentiras assanhadas dele, com a postura mansa ao preparar o jantar, o
sorriso distanciado como se estivesse elaborando uma ideia brilhante que me
tornaria rendido. Ao explicar seu passado, algo em Antônio fechava-se quase
completamente, talvez o núcleo da presença, para então fugir novamente. Pensei
que poderia entendê-lo com o passar dos meses. Eu teria muito tempo para compreender
as perdas que ele insistia em dizer que estavam superadas. Ele torcia o canto
da boca, dava um nó em seu sorriso e me deixava sozinho, com o fascínio
inescrupuloso de pertencer mais a ele que a mim.
Antônio,
Dentro
da noite, as lembranças dos teus beijos aquecidos de sossego e cuidado são
realizações plenas, uma presença quase física que me enternece. Basta cerrar os
olhos para experimentar a tua saliva a hidratar meu desespero. Uma concentração
apaziguadora do que sempre esperei que você se tornasse em minha vida. As
partículas de solidão delirante que compunham minha desesperança foram
engolidas pela tua necessidade de estar comigo. Você disse: Não sei mais estar
longe de ti. E disse também: Não sei mais viver sem te ver sorrindo abobalhado.
E repetia: Não consigo uma gota de concentração ao pensar em ti que salve o meu
futuro. E agora, nada.
Minha
boca ensaia uma declaração de permanência, mas vacila quando o medo de
tornar-me patético mais uma vez solidifica-se grosso nas carnes da língua.
Abraço-te, e penso nas próclises, nos arrepios gramaticais que forjo para
assegurar inteligência. Lembro do sol inteiro no teu sorriso de gigante. E
seguro teu abraço com meu silêncio.
Eu não te amo, mas faz parte do meu deserto
acreditar na imensidão encharcada do teu amor repentino.
Acredito
em ti, duvido mesmo é de mim: Se saberei não desistir do que quero.
Só
renuncio ao que me faz maior que meus desastres íntimos.









