Às vezes, acho que sempre escrevo as mesmas coisas com os sentimentos mais comuns, os que tomam conta de mim a cada minuto; as palavras renovam-se, sim, relativamente, para, logo em seguida, continuarem tendo proximidades com as anteriores, como o sangue que me faz vivo, e que corre, corre quase fazendo da minha vida um mistério duro, de dúvidas sólidas que não ajudaram a erguer a morada do bom compromisso.
As palavras me fazem acontecer, me permitem ter um lugar no mundo que construo, com sangue e força, tentando acreditar que vivo essa vida também para alguém especial.
E me perdoo, algumas vezes, nesses intervalos de piedade, no meu tempo de homem comum, porque sei que o Mundo Todo é uma grande e angustiosa repetição; que os mitos ganham formas novas a cada nascimento, em cada família que se cria, em cada herói que se aventura, em cada drama que se permite acontecer: Édipos soltos, a cegar e morrer de profecia e amor; os Homeros e seus heroísmos, os amores impossíveis, antigamente de Romeu e Julieta, e que, hoje, revivem em outros corpos, outras vidas, outros sexos, outras crenças, outras (im) possibilidades.
[Justificada a minha repetição?]
Foram dezenas e dezenas de chamadas no celular, entre atendidas e não-atendidas, entre um coração que grita por novidades, mas sabe que tudo que acontece sem muita convicção tem tempo (quase pouco tempo) pra acabar.
Meus sentimentos eram “finais” de onda; ondas que vinham com força e decisão, rompendo e quebrando meus limites, virando bicho, deixando de ser água, e transformando-se em coragem e imposição, deixando de ser volúvel e repetida, no meio do mar, para tocar, molhar, lamber meu dia-a-dia, e apenas chegar perto do que eu sou de verdade, e depois voltar com susto e confusão: comecei decidido, certo de alguns sentimentos.
Você achou que sua angústia acalentaria a minha, ou vice-versa, e que por essas, e outras coincidências, nós nos satisfaríamos,e formaríamos um casal, uma relação de tristeza e complicações, que se encontrariam a cada sete dias, por horas felizes e incomuns que era evitadas. Você preteria a minha alegria para alimentar sua vaidade vingativa.
Mas, às vezes, o “tentar” de um é o “levar a sério” de outro.
Olhei controlado para o fundo de seus olhos brincalhões pedindo que parassem de piscar; queria ver sua verdade; você torcia o canto da boca tentando me fazer sorrir, com um jeito de quem queria me dizer que nosso futuro era mais que fumaça clara que nasce de fogo intenso.
Meu coração parou de acreditar nessa possibilidade; eu era pura tentativa; coloquei rédeas no meu cavalo-coração e fiz questão de parecer domável; não era mentira: você me fez estremecer nessas poucas horas de contato, de olhares e sussurros. Mas ficava imaginando até que ponto eu poderia me interessar por alguém enquanto estava com você. E me vinham, pérfida e apaixonadamente, me fazendo enquanto sentir corrupto, perigoso, desprotegido, mil imagens e mil vontades. Acho que era um tipo de traição, porque eu queria tanto e muito, mas entendia que nossos momentos eram diferentes. Eu não sabia pedir, você não sabia se doar. E querer tanto assim me faz vivo e necessário. E para evitar o abandono que faz sofrer, e traições que não suporto, resolvi colocar pingo nos I’s, ponto final ao invés dessas reticências sentimentais: nós, desde o começo, tínhamos jeito de ex namorados.
Não pensei em fotos de nossos pés bonitos, um do lado do outro, como se fossem gente; não imagino querer você pra sempre, ou até você me deixar por qualquer outro homem melhor que eu; meus vazios ainda estavam lá, inteiros (vazios inteiros?), grandes, como minhas tardes de sábado, com meus livros e meus personagens inventados; meus vazios continuaram abertos, alimentados por todas as estórias que eu reescrevia, a cada dor nova que nascia; enquanto você desistia de mim.
Nunca quis acreditar que seu jeito de sorrir fosse acreditando em relacionamentos duradouros, porque meu jeito de parecer interessado era verdadeiro, bom, mas quase no final foi por respeito.
Eu quis gostar menos de você. Quis não trovejar. Não afogar você. Mas minhas tempestades precisam de um continente inteiro e inabitado. Você está de mudança. Estava desde o começo; deixou apenas as malas arrumadas pra viagem, mas não me avisou que partiria tão de repente, o seu querer menor que nós.
E mais uma vez tudo se repetiu. Eu disse “não”; fiquei em dúvida; pensei em dizer “vem agora”, se você dissesse que não me queria pra sempre; pensei em dizer “não quero mais”, mas querendo que dissesse que me queria pra sempre; voltei a ser bicho, sem pudor, homem sem rancor, depois que tomei minhas decisões.
[Seu coração acelerado, que vale mais que mil palavras, não se contentaria de ter tão pouco; quereria palavras, por causa do meu silêncio, quereria sentimentos grandes. Eu quis querer tanto você que quase esqueci de me querer.]

