O rascunho de uma história de fuga, voos e amor de sobressaltos


Nós – Um breve passeio com asas mecânicas a um abismo

Um som calmo e profundo atravessou o quarto e nos dividiu em algumas partes.



Ele – A chegada

Você funcionando como um moço de dezoito anos que respeita a juventude com a conformação da velhice de uma avó rabugenta, mas precisa tatuar o corpo com rock e liberdade. E eu, sua tatuagem e seu voo, seu acesso ao que há de explicativo e simples no mundo, parado, esperando teu fim de dia me engolir.



Eu – A dependência excruciante

Seus dezoito anos e o perverso desejo de me tornar dependente, era isso, ou muito mais, o que habitava os olhos maduros dele. Na sua boca sempre orvalhava o sossego de ter por perto minhas necessidades. Porque eu não conseguia esquecer sua presença sempre inflamada perto de mim. Um metro e oitenta e dois de remota possibilidade de amor e segurança. E quando ausente outra inflamação de uma ordem superior à costumeira, aquela que é sempre maior que as infecções purulentas que só a paixão não correspondida causa na alma, me ocupava os vazios, como se tudo em mim se desligasse e apenas essa concentração dele em mim fizesse a doença do amor parecer grande e insubstituível, como se eu me perdesse estranhamente sem sua imaturidade.


Ele – A paixão insolente

Caminha com os olhos escravizados no horizonte, quase esmagando cachorros, crianças e bichos menores que interfiram no seu caminho. A decisão dos passos, pernas urgentes diante de qualquer compromisso que o faça sempre mais importante, a cada hora mais ensolarado. Seu sorriso não espera ninguém, brilha nos riscos do canto da boca numa alegria puramente debochada, ironizando o universo e o destino que lhe apresentam homens que se arrependerão da entrega, mas que não saberão evitá-la, que não se desviarão de sua postura incandescente, de suas decisões duras, de seu desdém colérico, seus dedos sem cautela, verbos errados, dentes metálicos, olhar raso, língua presa, orelhas-borboleta, seu coração enegrecido pelo abandono e pelo desespero de perder-se na vaidade de sua beleza compromissada com a conquista.



Eu – A Rejeição, O Veneno e o Afeto

A disponibilidade ártica de seu humor desinfetante funcionou como meu ponto de apoio para a desistência, foi o centro em torno do qual comecei a orbitar: as idiotices construídas pelo veneno de sua incompetência, a vagabundice tagarela que carrega na magreza de seus dezoito anos cortava o ar dos meus pulmões com destreza, tudo isso me ajudou a reagir contra aquela escuridão que consumia o esplendor da minha solteirice. Críticas nubladas sobre o que de errado e ineficaz eu era possuíam um quê inconsciente, que revelava as sombras dele e não meus fantasmas.


Ele - Monstruosidade

Antes eu entendia o estrabismo do olho esquerdo como um mistério importante em sua vida que caberia a mim, inundado de pretensa apreensão e paixão em brasa, compreender. Hoje, percebo que se tratava de um mero desvio, e me lanço, num processo de racionalização encharcado de autocomiseração, a divagar sobre interpretações para aquela anomalia. Quantas vezes aquele olho não precisou se desviar do amor e disfarçar para outros rumos, enganar o próprio caminho, o próprio coração?

Nós – O voo

Então, em dois minutos você se transformou num homem que tropeça em cartas de amor segurando balões coloridos e limpos com sorriso de palhaço burro, levanta da cama, espreguiça os pensamentos retorcendo a coluna, os braços, a alma e o fundo dos olhos, reclama do meu amor que canta sempre a mesma música, e com um movimento até então desconhecido para nós, abre a janela do apartamento, pede pra eu desistir e calar a boca, e liberta os balões.

E eu sigo, sem pedir pra voltar, entendendo que sou pesado para um homem que não suporta nas mãos a mansidão de um amor repetido.



Yann Tiersen – La Longue Route





Para o novo amor que chegou inesperado à meia noite de um dia maior que nós

Parou intenso no meio do mundo que não tem norte ou sul, e me esperou estacionar o coração.
Chegou recentemente com um querer inesperado. Já aprendeu a segurar meus dedos com sentimentos de primeiro encontro e com a incerteza dolorosa de que pode ser nosso último dia. Não disse seu nome. Disse duas ou três frases pesadas, com algo duro por dentro, e disse Me acho S.L. Assim, opaco, calmo, com cheiro de algo importante e bem cuidado, com uma intensidade cristã.

Soletrou seu interesse e falou de amor com uma brisa fina na boca, soprou todo o amor que nunca entendi como se fosse horizonte em fim de tarde chuvosa e morna, como se fosse sol poente, como se possuísse a extravagância aceitável e clara de um fenômeno natural e poderoso, como se fosse eternidade.

S.L. não é um código, não se veste com os mistérios que tem a seu alcance, nem se deixa abater por esse brilho de amor resumido que carrego no balançar de meu coração espantado, apenas é cheio de detalhes importantes. Entende que uso roupas para enfeitar minha alegria, não para esconder algum desespero. Carrega uma lua cheia nos olhos que possuem contornos duros e azulados.

Seus cuidados e atenção são do meu tamanho; alcançam as nuvens que nascem do ponto mais alto das minhas vontades. Os músculos avançados e febris colocam à prova minha capacidade de não querer o derretimento voluntário do livre arbítrio e de correr para o mar furioso que eu não gosto de observar; os mesmos músculos civilizados encostam sem abusar e parecem querer muito mais. Dá para sentir nossas almas dançarem iluminadas, agarradas por mãos imaginárias, passeando por casas grandes e simples, espaçosas a ponto de permitirem que os ecos de nossa paixão quase adquiram forma e posses e cor, o salão de festas para comemorarmos o começo de tudo, o quarto para acalmar nosso adoecimento, as bocas úmidas e entretidas com novos verbos, engrandecidos pela presença e satisfeitos pelas minúcias.

O céu agora é pequeno para nossas declarações. Não é possível chegar tão repentinamente e guardar seu coração com tanto cuidado no centro de si, ou nos cantos protegidos de seu presente que é quase um amanhã promissor, como também não é possível dispor-se tão completamente para mim, render-se, deixar que seu amor ajoelhe-se, mas sem suplicar, e apenas declarar firmezas e cumplicidade. É?

Bebi seus olhos com tanta sede e vontade de ontem, com tanto fôlego que tive que me reinventar para parecer outro bicho, uma coisa desinformada e cheia de desejo inaceitável e desmedido.

S.L. entende que falhas nos redimem, que elas nos tornam próximos, mas não os mesmos.

S.L. escreve suas declarações com impressões fortes no fundo dos meus olhos, tatuagens que não posso enxergar, as verdades que por pouco não parecem mínimas mentiras aceitáveis, sensações que por quase nada não estão reinventadas na carne frívola que não recebe carinho nem cuidados.

Suas palavras seguem o caminho mais longo até mim ao expor o quanto é importante entender minhas opções e possibilidades, tendo assim a oportunidade de perceber que estou entre o certo e o errado, digno e cheio de boas medidas.

S.L. me recebe na sua vida como se eu fosse um sonho, mas algo que ele pode tocar, ensaiar para uma vida cheia de nós dois, apreender minhas relevâncias sobre compromissos.

O dia interior se abre iluminado e com ventos amenizados dentro do sorriso de S., e ao desalinhar minhas urgências com sua atenção pacificada, me torna único dentre suas escolhas.

S.L. lê o que escrevo, mas, principalmente, o que não se revela escrito.

No dia em que não nos conhecemos ainda, porque S. chegou imaginado, mas tem carne e força para realizar o que ainda nem existe, ele leu em meus lábios algo que nem eu sentia como palavra ainda, depois me explicou que entendia os desejos soletrados, aqueles que não tive coragem de desenhar; leu em minha panturrilha uma frustração antiga que atualmente me energiza para correr doze quilômetros inventando sorridos doloridos. Diz que leu duas páginas inteiras de amor com tons de calamidade íntima em minhas costas, e ficou com sua respiração em sofreguidão, com pulmões perturbados de falta de amor e ar, como se a cada parágrafo uma nova montanha de desentendimentos e absurdos que não compreendo em mim se erguessem e ele tivesse que escalar aquilo tudo apenas para poder chegar até a página seguinte.

Palavras que eu não via.

Outro dia, antes de tudo que somos hoje realmente começar, ele leu em meus olhos: De todos os sonhos corrompidos e vazios de sentido, de todos os dias amontoados sobre mim, de todas as feridas que me fazem maior que a própria dor, você tem o poder, ainda que limitado, de tornar-se a dúvida amável que me faz inteiro.

Seu piscar de olhos funciona como vírgulas para minha paixão de língua solta, diz ele, com a boca cheia de mim.

E quando choro, é um mar de paixão prosaica que ele espera que o inunde. Sabe navegar dentro de mim como nenhum outro, consegue sem sofrimento completar todas as palavras que não sei mais escrever nas linhas do meu corpo, inventando sinônimos para os exageros e antônimos para as maldições de tudo que não tenho mais como explicar.

Quase a salvação de uma vida toda. Não fosse sempre o fim. Não fosse eu. Sem palavras.

S.L. é meu amor próprio. A certeza-outra recente que me torna minha maior dúvida: amar de novo?







Entre contos, erros, declarações, amigos e a felicidade!


Aquilo não era o começo. Parecia mais qualquer momento diferente de algo indefinível e reaproveitável depois que se degenera; duas notas repetidas, um tom monstruoso de fenômeno terrivelmente inesperado, prestes a irromper na nossa vida, que sempre sangrava quando o anúncio do café da manhã era cheiro de álcool ao invés de café mesmo, torradas, pão, manteiga e leite morno.

Ela fechava os olhos quando ria, quando me abraçava, ou quando deslizava os dedos moles na minha nuca, sentindo os lábios com arrepio de bicho sem vaidade percorrer meu alicerces, encostando o peito fundo do pé na minha perna meio torta meio aberta meio sem destino algum (procurando sempre o encaixe do amor perfeito), apertando meus dedos diante do terror que a tristeza alheia lhe despertava, enxugando o suor da minha calma aquecida por sua presença sempre surpreendente.

Os braços longos e de sangue novo se transformando em grandes asas de um anjo redentor a me ver desesperado e febril queriam me dizer o que no final de tudo?

Escrevinhando frases de amor inteiro no verso de sua mão prosaica e limpa, entendia cada vez menos de sentir muito com tão pouco oferecido. Não havia oferta digna, e ela carregava consigo um direito que era apenas dela, inventando.

Disse que optava pelo fim porque começar era repetitivo e cansativo.


E foi bom. E feliz. Teve muito azul quando era pra quase tudo ser da cor do que não era pra ser. Porque a vida só começa quando o amor termina.

E em todo ano novo e bom, as repetições são necessárias em alguns momentos, mas optar pelo começo da novidade é mais que experimentar uma peça nova, é vestir-se de felicidade para o dia seguinte, quando a vida pode ser outra. Mesmo que as razões sejam desnecessárias, e as luzes estiverem apagas, e as mãos que te sustentam estiverem um pouco suadas, ainda assim, tem gente por perto capaz de te ajudar na salvação, basta entregar um pouco de si.

Cometi erros nada absurdos, encontrei gente nova e burra, gente nova e interessante, experimentei dois quase amores absolutamente dispensáveis na minha vida, foi o ano que experimentei a traição vestida de púrpura e infantilidade, e me permiti o gosto satisfeito e cheio de dulcilidade de uma traição por justa causa, meu salário foi inacreditavelmente quintuplicado, recebi proposta para participar de dois projetos/livros importantes (conto e romance), descasquei meus sentimentos maiores e entendi que nosso mundo é feito daquela matéria: dos acertos imperceptíveis, dos quase amores mais infames, dos passos dados com delicadeza, dos corações que conhecemos que são cheios de infernos particulares e limitados em seus medos e declarações de querer resumido, e que mesmo quando tudo parece estar terminando, dilacerado, encharcado, é nesse momento que reside a importância de buscar em algum lugar, em alguém, em si mesmo, em alguma música, que te faça vivo, algum movimento, algum bom sentimento grande e particular, que nos faça imensos e prontos para o passo seguinte.

Porque a vida é assim: a droga da nossa vida idiota cheia de felicidade e descobertas!


Feliz 2010!



O livro da minha vida



Na página 29 ela parou. Os olhos continuaram vivos. O coração suplicando por continuação. O sol tentava resgatá-la daquele quarto, esconderijo de moça insegura, mas, como ele conseguiria chegar até lá: sala com dois sofás, uma mesa cheia de “afazeres”, depois um corredor para a esquerda, outro para a direita, e três portas a escolher; a porta que dava acesso a seu quarto, mas não a ela diretamente, era a da direita; só quem sabia era sua mãe, ela própria, uma ou duas amigas e algumas baratas e formigas.

A vida não começaria na página 29. A página 1, do seu “O livro da minha vida”, estava em branco, o que pra ela significava que se a vida não começa na primeira página porque começaria na página 29? Seu livro teria, sim, 365 páginas, e uma história de vida. Sabia, no entanto, que todas as histórias já foram contadas.

Ela poderia, quem sabe, falar de todos os amores, e somente deles. Nada mais. O que a tornaria repetitiva. Tentou começar, na página 29: É dele a minha vida. Foi por ele que quis escrever o Livro da Minha Vida. No meu corpo pus todos os verbos que, com esforço, aprendi a conjugar. Troquei as palavras de todos os dias pelas improbabilidades das conjugações impossíveis. Fiz do meu corpo o livro perfeito: minha boca repetiria a mesma declaração apenas por uma semana; depois tudo seria diferente. Para cada verbo novo, bem conjugado, uma mulher nova com um amor maior.

São dele os verbos que percorrem meu corpo, e o fazem parecer estrela nascida na terra; é por ele que meu corpo se aquece, e estremece em frêmitos sem escândalos; e, por ele, corre em mim, não mais sangue, mas o verbo Amar em todas as suas conjugações, inclusive no imperativo, e seus esforços. Por ele meu coração aprendeu a escrever, a ler, e a destruir qualquer silêncio que tente se impor; é quando eu acordo despida das vestes da prudência e exponho minha língua excessivamente afetada desse não medo: Meu engodo, meu jeito inteligente de querer ter, entre minhas posses doentias, o homem da minha vida. Por ele eu quis me sujar de amor, não importando o que ele tivesse para me oferecer.

Não era essa a sua história. Não era isso que queria escrever. Queria que os melhores escritores falassem por ela. Queria poder voltar no tempo e ser filha de Pinkouss e Mania Lispector e, aos 23 anos, publicar o melhor livro da sua vida, ou da vida inventada de alguém. O que não é possível: voltar no tempo, publicar um melhor livro escrito por ela e ser filha dos Lispector. Não era possível para uma mulher que, com 25 anos, não escrevia livros, e, sim, sabia apenas falar de amor em estado bruto de complicação.

Conversava consigo mesma. Limitava-se a tal atitude, visto que era uma maneira eficaz, mas não madura, de guardar segredos, ou não ser ridicularizada: Pensei em começar a página 1 assim: "Não há dúvida de que o Além existe. O problema é saber a quantos quilômetros fica do centro da cidade e até que horas fica aberto*.” “Foi você quem escreveu isso?” “Não”. “E que tal se eu escrevesse A história do amor ** ?” “Esse livro já existe e você já o leu três vezes!”. “Se minha personagem se chamasse Bernice *** ?” “Que nem a de Fitzgerald?”. “Eu só queria escrever bem, e continuar sendo comum.” “Mas isso tudo não é plágio?” “Não se trata de plágio, e sim da assimilação de influências de todas as latitudes que gera novas linguagens, algo que Oswald de Andrade desenvolveu com argúcia em seu ‘Manifesto Antropofágico’ **** “ “Isso é seu?” “Não, não é... é de Milton Hatoum!”

Todas as histórias já foram contadas.

E as melhores estão por vir; não escritas por ela.

Na página 30, ela quis ser Lúcio Cardoso. Antes de transcrever para o caderno todas as palavras que poderiam ter originalmente saído de suas idéias, pregou o retrato do Homem da sua vida no peito, sob a blusa, pois, só assim, ele estaria mais próximo de seu coração; isso seria o mais perto de “dentro do meu coração” que ele chegaria. Então escreveu (entenda-se transcreveu): “Como explicar a angústia que aquela atitude me causava, o modo repentino com que ela se afastara de mim, e mergulhava nessa distância que absorvia de um modo tão completo – vivendo que reminescência, que saudade, ou que imagem pungente que jamais lhe abandonava o coração... “

Todas as histórias já foram contadas:

De uma menina que escondia os sonhos nos papéis;

De uma Modelo que queria ser uma escritora famosa;

A história sobre uma decisão de um homem e o fim de milhões de sonhos;

O nascer de uma família;

A história do rapaz que parecia idiota, menos pelo que dizia que pelas roupas que vestia;

A maioria das histórias já foi contada:

A história da menina que queria escrever histórias, vencer na vida escrevendo histórias, enxugando assim todas as suas preocupações, aquelas que quase a afogaram durante toda a vida, e que de tanto tentar secar seus exageros, que, na verdade, faziam parte do que ela, aos 25 anos, ainda chamava de sensibilidade, descobriu que ser sentimental, ou exagerada, é quase afogar, também, quem chega por perto. E como ela não sabia produzir nada, objeto ou metáfora, que salvasse as pessoas do tal “afogamento sentimental”, resolveu, decidiu que:

Esconderia-se em si mesma: timidez

Não demonstraria seus afetos: gastrite

Um dia aprenderia que viver sozinha não deve ser pior do quer ser tímida e ter gastrite.


(Notas para o começo, ou para o fim do livro)

Porém, antes de qualquer página a mais, ou rasgada, ela sabia que sua vida não caberia em 365 páginas, nem terminaria com o fim de um livro. Só precisava começar, cedo ou tarde, mas não necessariamente na página primeira.

(Notas para qualquer página)
Meu nome é Guba.
“Menos importante que Macbeth, e mais poderoso. ” *****


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* Wood Allen. Sem Plumas. 1972.
** Nicole Krauss. A história do amor. 2006
***Fitzgerald. Bernice corta o cabelo. 1922
**** Milton Hatoun. Revista Entre Livros. 2007
*****Shakespeare, Macbeth. 1605



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Não há sacrifícios na terra em que os mortos reinam


Com seu amor cheio de amanhã, ela resolveu que buscaria uma entrega menor para o resto de sua vida.

Segurou com o pico dos dedos amantes suas convicções sobre o que era desamor, sobre querer a cada segundo um pouco menos. Colocou uma cordilheira de culpa sobre os ombros e vestiu seu manto de pálida indiferença. Sem ambição alguma mergulhou na incerteza, no descrédito, no fim de todas as prerrogativas, esquartejou seus começos sublimes, e sentiu sua esperança coagulada entupir-lhe o bom preparo para o futuro.

Suas paixões ofendiam sua vida.

Em chamas, pensava na cumplicidade em falta que lhe apertava com peso de monstro da infância seu coração, sentimentos esmigalhados que alguém não precisaria mastigar; seria apenas enfiar os dedos e levar aquele pouco a sério. Não apenas se sujar com o querer que ela sabia ter algum sabor, mas sem salvação.

Seu dia-a-dia um tanto ácido dentro dela, e o peso de tudo aquilo que ela não entendia a empurrando para o último homem que dizia ser seu amor de uma maturidade questionável e dessa natureza que finda quando o dela ousasse romper o peito e a vida e o passado.

Seria preciso percorrer distâncias e a aparente falta de sentido; necessário também destruir as barreiras do próprio corpo, lavar as feridas de todos os tempos com uma substância próxima à auto-compaixão, permitir que no olhar houvesse brisa, carinhos intensivos, algo sossegado que se não fosse compromisso que fosse uma porção de Sim alimentados com sensibilidade e destreza, noites bem dormidas, sonhos divididos, caixas de presentes cheias de abraços e uma vida a dois.

Pregava a memória dos anos de solidão convicta nos seus cantos escuros, porque já amara tantas escuridões e desentendimentos e faltas de coisas e de preparo para o amor que vem-vem-vem-e-nunca-chega que tudo o que sabia sobre amor florescente só fazia sentido quando escondido próximo dos erros, da vingança, da vaidade endurecida, de quase tudo que é dos outros e que ela não entende.

E a boca com a qual sonhava tocar permitir-lhe-ia o desencontro, e a faria pedir atônita Faz de mim a tua vida.

Fechou os olhos, olhos espessos, cheios de outros tantos que não eram ela.

Sabia que ele continuava ali em algum lugar dentro dela, mexendo em seus segredos, buscando desvencilhar-se da ousadia dos mistérios dela e que o impediam de ser mais livre. Ela apertava as mãos com força, com a esperança paralisada de quem sempre pode começar a viver outra vez apenas querendo, dando um passo talvez maior que a perna, protegendo o que de bom nascia ali, quando ele segurava firme seu coração com as mãos finas de quem sabe amar.

Tudo o que era dito pelos olhos dele a ajudava a despertar. Como se sua vida tivesse se movido inteirinha até a dele, seu continente arrastando o próprio céu e o mar que a cercava e os peixes coloridos e seus conteúdos abissais, para dentro da vida dele, e só ela, e só ele.

Os olhos parados num movimento que parecia ter se iniciado há anos. Talvez depois do nascimento, quando acordou para o mundo e se deparou com a beleza adoecida da mãe e os tons nobres que seu pai assumia. E já entendendo que seria diferente, o corpo resolveu que os olhos bem se acostumariam com a parcialidade, com a insegurança, com esconderijos, com o amor cheinho de condicionalidades. A alma apertada num reservatório inadequado.

Não vais conseguir chegar até mim. Terás que ter coragem de aguentar centos e muitos quilômetros angustiado esperando meu amor que sempre começa a terminar na festa seguinte, depois pular o precipício das nossas diferenças, das centenas e tantas outras braçadas num rio caudaloso e com a fúria de mil amantes mal comidas e traídas, escalar uma montanha gigantesca de insegurança e empecilhos repetidos com a força hercúlea de homem que não tem para onde ir, que não sabe continuar a vida sem minha palermice envelhecida, que pensa que não entender do tempo passado e do compromisso que se gasta é afogar-se na ilusão silenciosa de que hoje não é dia de se preparar para o amor. Mas só amanhã.

Amanhã estarei de volta.

De volta ao lugar que não ocupas mais.

No meu mais novo desencontro.


Coisas lindas de pessoas desconhecidas que ainda me fazem feliz!!!!


Recebi esse e-mail. Não sei de que parte do País. Só sei que foi algo que me fez derramar muito conteúdo bom, e me aliviar. Senti-me sem pesos ou culpas. Certo de que o que tenho aqui comigo é uma grande verdade que pode ser expressa, realizada, e entendida por quem estiver disposto, seja um parecido, seja um estranho, perto ou longe."


Então, P., você nem imagina como isso me fez possível, provável, enorme, e com cada vez mais vontade de escrever.


OBRIGADO. Muito Obrigado!


"Engraçado como tem coisas que acontecem na vida da gente que não esperamos....e mesmo mesmo sem esperar precisamos .Foi assim que aconteceu comigo guando li seu blog pela 1 vez me indentifiquei tanto ,particularmente se tornou meu mundo bebo suas palavras e ainda assim tenho sede...estava numa terra seca sem sentido e encontrei la tudo que preciso...me da forças nessa fase final da minha vida que nem eu sei guando termina ..aplaca minhas tristezas e desesperanças me entendo melhor guando a dor vem sem pedir ..acalma meus pensamentos e me faz voar alem do quarto e guando vou para o hospital viajo nos pensamentos que li e na paz que eles me dão obrigada por tudo ps: é meu balsamo para minhas feridas que ainda estão abertas e de modo algum querem cicatrizar..."

P. J.C






No sense, no fundo, no way, No-thing.



Os olhos ficam claros quando me sinto triste. E o amor me faz evaporar. Orvalho de verdade sob um amontoado de trapaças impregnadas nos cantos do corpo. Assumo-me flexível, sempre flexível, inacreditavelmente flexível.

Não trabalho em circo, e jamais seria capaz de tocar o posterior da cabeça com a ponta dos dedos dos pés. Nos cantos, em todos, aconteço empoeirado. O ar de mistério que me acompanha, como alma sem foco, e feixes de luz, e cores de sol, e mundos minúsculos , é poeira.

Nos olhos negros tenho risco de giz. Os verbos conjugados para a derrota, e uma tempestade de pó de giz sufoca os antigos olhos claros, negros faiscados; basta a tristeza,e o cheiro de giz velho.


Alguém já viu poeira de giz manchada de sangue, dentro de um olho escuro?

Quando choro, deixando os olhos endurecidos, inacreditavelmente endurecidos, massa de poucas oportunidades, o medo prospera, tornando-me uma estátua viva. Pesado. A consciência arrasta seus grilhões; incomoda-me entender tudo, calado, e receber explicações, precisando entender o amor cansado dos outros, a ousadia violenta de quem não quero mais por perto, a petulância ofendida de alguns amigos que nunca se avizinham à minha tristeza.

Tudo fora de mim compreende-se homogêneo, resolvido.

A alegria alheia condensa-se em nuvem de motivo secreto; as gargalhadas adoçam espaços; e as coisas entendem-se, os objetos são desejos, os homens tornam-se comuns, os animais parecem bibelôs, mulheres portam-se expandidas, bolhas de pensamentos escapando a cada vontade exclamativa daquelas bocas e olhos para quebrarem-se diante das formas e dos golpes de gesso ressecado que se lançam da minha liberdade monótona.

E a nuvem de motivos secretos oferece desentendimentos, misturando-se ao doce que há nas profundezas do amor aos objetos, animais, homens e mulheres, e transforma a desgraça estreita e pálida do dia em algodão-doce: nuvem doce sem serventia.

O dia termina daqui a vinte minutos. A noite fugirá de meus olhos para dominar o mundo; a sensação de ter luz nos olhos me capacita a inventar as estrelas e arremessá-las ao céu, como se a alegria fosse mágica e forte preparando-me para salvar quem realmente importa. E com os dedos erguidos submeto os avós aos milagres da eternidade, a mãe aos benefícios de uma mesa cheia, os amigos à lucidez de quem não errará nunca mais.

Mas não sou ninguém. Meu desejo é de papel usado, em caderno de parcas linhas. A vida tornou-se lápis sem destino, e não se pode apontar lápis sem amor e coragem. Não ser alguém me deixa faminto, no entanto. Saborear anonimamente pequenos outros mundos.

Com as lágrimas jorrando barulhentas, todo o meu papel se desfaz em massa úmida, e distante resolvo engolir o próprio desejo: engasgo-me com as palavras que não sou capaz de viver.

Já me disseram que pareço um fim de tarde nublado.

Pronto. Agora só preciso precipitar-me.



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Love is the End - Keane




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Para ANDRÉ MATOS, que chegou agora e já ajudou a me abrandar.

Em agradecimento!


O amor finito e o começo brando das escolhas dignas.

Como se gosta tanto de alguém - quando o sol do amor recente queimava pra valer o que era menor e fraco - e hoje, quando o outro está decidido do novo amor, simplesmente não se sente mais nada? Como é possível superar tanta dor em tão pouco tempo sem o estranhamento de ter que construir uma defesa intransponível que nos exclui de todas as outras possibilidades de nos fazer feliz em outros momentos?

A luz negra, que tornava tudo assombroso, branco e afetado, disfarçava a natureza dos homens que se entregavam ao desejo de ser outro, de ter outra coisa além de si, de possuir o controle da vida e da noite, de superar apegos fracassados que se calaram e engoliram a beleza de ter nas mãos dignidade e amor próprio.

O ex-atual do outro fazia da noite sua perseguição deprimente em minha direção, procurando meus olhos, minhas escolhas, talvez buscando entender por quê eu: ele é tão torto, de altura fingida, tão fácil, dispensável, de cabelos amargos, olhos obtusos, uma oleosidade alvoroçada que parece fulgor de mentira. E esqueceu-se de viver o respeito por si e por seu velho novo amor. Se ele soubesse que meu desejo nem morava mais ali naqueles olhos invertidos, nem naquele local.

Foi libertador observar de longe aquela procura perturbadora e o desespero insaciável dos quais eu me livrei, e que agora impregnavam os movimentos e o tamanho daquele outro homem. Cada vez menor, talvez ele tentasse justificar o início da nova velha relação, o recomeço seu de cada dia, a reconquista que não vai ser diferente, a luz oscilante em curto-circuito no final de um percurso sombrio que o outro faz questão de simular.

Também já havia andado como o outro. Passos curtos, tentando esconder a desmesura; também esperei que nossas mãos se encontrassem apaixonadas, que o frio não passasse de engano, que os cuidados chegassem repentinos, que os olhos e a boca falassem a mesma língua, que ele entendesse que minhas palavras não esmagavam sua sensibilidade calculada, que não tentasse mastigar mistérios que não existiam no meu corpo, na minha vida, na minha busca.

[Alterado pelas forças que só a compaixão recém descoberta é capaz de promover, com os cuidados de nublar quaisquer gestos idiotas ou que beirem a uma busca não resolvida, encarei o ex-atual para que ele se contaminasse com a audácia insolente que produzíamos, e que o tempo em suspensão nos tocasse, e ele buscasse uma resposta, ou tirasse suas conclusões de maneira mágica e como melhor lhe conviesse: EU NÃO PRECISO VIVER ALGO QUE TORNA DEGRADANTE O SIMPLES ATO DE BEM QUERER. Ele estava apaixonado outra vez pela incerteza que o tornava tolo.]

E meu amor não aconteceu outra vez, como algumas pessoas esperavam.

Esperei meu coração dizer Sim Sim Sim, e eu correria para a declaração ao infinito de que o amor não acaba assim, não se entrega tão facilmente, resiste bravamente, recupera-se das torrentes das ofensas e da vaidade. Mas não. Meu coração ficou rindo, gargalhando, agradecido pela liberdade que acabara de descobrir. Eu pedi Vamos, Coração, o que você sente? Quanto você ainda suporta?

A resposta veio num voo silencioso de compaixão e respeito, e eu entendi que a superação veio limpa, inteira, minha maré alta, meu pôr do sol sem medidas, minhas roseiras sem espinhos, o toque e o acalento, amar-me, o despropósito da raiva que me transformava na possibilidade de amar mais e outros e cada vez mais quem tivesse consistência em suas escolhas, que não fizesse da vida o apocalipse a cada tristeza ou desentendimento.

Estava faltando algo. Não eram os olhos luminosos de antes, que combatiam minha solidão, cheios de amor recíproco que eu esperava; aqueles que encontrei no início.

Eu nunca havia desistido de alguém como daquela vez.

Os toques não tinham mais energia, abandonavam a singularidade da sua diferença antes mesmo do suor sinalizar a ansiedade de estar em outro corpo. A alegria em escalas de cinza. Eu ensaiava minhas preferências, chamava-o de meu amor apenas com a memória, sem entender o que isso significava. Tentava recordar o começo, intensificar as necessidades, forçar o corpo, todas as células, a queimar de espontânea paixão. Como no início. Mas não se ressuscita um amor assim, estalando os dedos, tragando insegurança.

E nada aconteceu.

Meu coração sem amarras ou com insípida raiva saltou para as vontades seguintes. Superado.

[Aquela vontade insuficiente de me querer inteiramente (de aceitar minhas cobranças motivadas pelos resquícios de amor passado) foi condescendente com o término da relação em desgaste que se anunciava desde então. Nossa maneira saudável de se articular ardia a cada movimento: se eu dizia querer a proximidade para que os detalhes do amor se tornassem uma existência particular e suficiente era entendido que o que era por mim oferecido se tornaria algo monstruoso dali a alguns dias quando os abismos de ausência começassem a engolir o desejo de satisfazer sua vingança envaidecida. Tudo era grande e pesado. Como se meu amor fosse leviano.]

Recaídas são erros repetidos às vezes. E eu estava livre e inteiro. Feliz e satisfeito. Colorido, sem entre linhas, desarmado. Pela primeira escolha certa, por não ter acreditado desde o primeiro beijo com gosto de eternidade que não combinávamos que eu era o amor, e do outro lado a busca. Pela aposta no outro amor futuro que sempre está para chegar.

Nada mais.

O passado é cheio de infernos.

Fiquei recheado de medo. Frio. Um vento seco dizendo que a vida é mesmo cheia de gente estranha que não sabe o que quer.

Não sei ao certo o porquê do medo (de não estar me reconhecendo por ter esquecido tão rápido algo que era pra ter sido importante?), mas é como se eu tivesse temperado uma história que tendia ao fracasso desde a primeira entrega.

Como se eu fosse desses homens dissimulados, estreitos, que correm riscos sem acreditar nos próprios abismos. Como se tudo tivesse sido pouco e, comportando na palma da mão, pudesse ser desperdiçado ou jogado fora. Como se azul fosse palidez arrependida. Como se fosse um desdenhar alternativo das coisas que não faziam sentido, das nossas diferenças, dos erros, das desculpas, dos enganos.

Em todos os cantos que eu me instalava a atenção do ex-atual do outro estavam lá. Não entendia também. Uma fiscalização da própria insegurança, e não do amor que nascia pra eles.

Não, o amor não acaba. As nossas pessoas preferidas é que mudam, somem, fingem, fogem, são esquecidas, superadas, outras aparecem. Mas o amor não acaba dentro da gente, algumas pessoas é que morrem e se afogam nos defeitos que são revelados a cada ex namorado que sangra, a cada amigo que reconhece a idiotice arrogante de quem não saber o que quer, de quem não sabe o que é, de quem aumenta os precipícios do dia a dia com suas lágrimas de arrependimento, testemunhando calado o fim de suas possibilidades, pois de dez entre dez dos conhecidos que fingem compreensão suportam por piedade suas descompensações exageradas e mesquinhas.

E não existia mais a falta de antes, porque, quando mesmo de mãos coladas há uma ausência, o amor torna-se uma limitação e quando sentimentos extraordinários são cercados com limites, então o fim é o próximo gosto.

[Não era uma guerra, o nazismo, um muro, ou o fim do amor. Era só algo bom que não deu certo, que foi respeitado, entendido, e esquecido. Não houve armas, nem bombas. Só um fim, e o recomeço de uma vida]

E descubro que o amanhã é nosso melhor amor necessário.

Meu coração, hoje, sopra uma brisa fina, branda, em fim de tarde. Manso. Apaziguado. Observa o começo de tudo que ainda é realmente importante.

E agora eu não estou só.

Estou comigo.