Contextura

Era a pressa, não o amor, que a fazia correr daquele jeito. Desatenta. Olhos sem voltar-se para outros detalhes, nada que não parecesse com Jorge a faria recolher-se na sua significância, e ela continuaria firme atrás dele.

Bem que ele podia, de uma mágica coincidente, um suspiro de decisão, luz em fagulha dentro do homem, entrar na mesma loja que ela, e talvez assim a distância de trinta passos que os separava diminuísse.

Qualquer um que olhasse para Fábiah diria que aquilo que impregnava seu caminhar, sua decisão de pernas, era ferocidade, não amor; pressa, não afeto.

Descuidada que era, Fábiah foi detida, sem perceber, quando a cabeça olha pra trás, divagando, e quando retorna tudo o que tinha de acontecer aconteceu: uma porta, coberta e recheada de ferro, maciçamente segura, abriu-se, permitindo que os homens da transportadora libertassem os produtos; foi aquela porta aberta que interrompeu a perseguição da moça. Uma porta é apenas uma porta, quando bem manuseada; num acidente, porém, uma porta pode rachar uma cabeça. Primeiro o olho esquerdo fora inundado, depois todo o líquido grosso lavava o corpo trôpego, intensamente, um rio que corria da cabeça a ponta dos pés, o naufrágio de seu amor apressado num mar de sangue. Nem sabia mais onde pisar : “Jorge? Que Jorge? Tonta. Barata tonta. Barata, eu? Meus pés... cadê?... meus cadernos... a carta... morri?”; e os pés leves, o corpo mole, a vida fácil, transida, calma, filha única, emancipada: tudo em denúncia ao descuido de quem não sabe abrir portas pesadas.

Fábiah perdeu o ritmo, e seus líquidos molhavam os pés dos curiosos que vinham sem ajudas ou cuidados nas mãos; tudo era uma acusação: a denúncia de um amor desatento, de passos despreparados. Perdeu o fio da meada. Era o fim da linha. Ou apagava-se ali um traço qualquer de possibilidades.

Jorge nunca receberia a carta que a moça acidentada escrevera, falando de tempo, de amor, narrando-se:

Querido,

Bem sei que você sabe que meu querer é antigo, que junta poeira aqui dentro há quatro anos. O tempo vai passar mais ainda. Eu vou descobrir minha significância no amor de outro alguém. Algumas aranhas tecerão o que é preciso na nossa casa que nunca vai existir, e elaborarão suas teias para enfeitar nosso amor desacontecido.
E você não vem.
Não vem pra me dizer que seu futuro também é o meu, mas nunca vice-versa.
Não vem para que inventemos nossa brincadeira, nossas graças, de sábado: sumir do mundo e acontecer em dois.
Mas, você não veio.
Não vem.

E o amor, que vivia pelas bandas de cá, envelheceu; desenvolveu um Alzheimer misterioso e filha-da-mãe, que me faz, nessa agonia cinzenta, tentar lembrar porque um dia eu te quis tanto.

Sua Fábiah,

Que viverá para sempre!”


Até que uma porta os separe.


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Fonte: Cinema com Rapadura
Filme: The Science of Sleep, 2006
Gênero: Comédia - Drama - Fantasia
Duração: 105 min
Origem: França
Estréia - EUA: 22 de Setembro de 2006
Estúdio: Warner Independent Pictures
Direção: Michel Gondry
Roteiro: Michel Gondry

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8 Comments:

Dri said...

Às vezes não pensar para fazer o que quer tem suas vantagens não é mesmo?

Imaginando esta carta guardada cheia de sentimentos. Poxa!

Interessante o meu post de hj fala sobre previsões. A Fábiah bem que poderia ter dado uma olhadinha no dela. rs

Bem...bom passar por aqui e saudades de vc lá no Deserto.

Tenha um ótimo find!

Beijos

Marcelo said...

Sabe um detalhe que me chama muito a atenção nesse texto e em outros que escreveu?
Algumas palavras que usa e que são absolutamente precisas e raras (pelo menos em minha pobre literatura) "trôpego", "ferocidade","desacontecido", etc...
Um texto belíssimo, triste e muito rico.

Parabéns pelo seu talento, você não publica rápido mas publica bem =)

Abração.

Mel said...

E tem frase mais forte e fraca do que essa? "Eu vou descobrir minha significância no amor de outro alguém."?
Tem certas coisas que tocam nossos sentidos assim, tão imediatamente como essa frase...
Obrigada pela visita!
Um beijo!

€aµ said...

Oi mocinho...
Tenho andada cheia de sentimentos, o que incluiu muitos textos. Mas você não se atrasou. Digamos que pegou os sentimentos em 'meio caminho de arrumação'.
Sabe, sempre me deparo com esse sentimento do 'que havia de ser dito', mas não o foi. Por isso nunca deixo de dizer.
Algumas vezes não fazemos idéia do que a distância e o tempo pode fazer a uma palavra não dita, um sentimento não revelado.
O orgulho dos passos 'firmes' não deveria deixar que nós, mortais ignóbeis, deixássemos de dizer tudo o que tem que ser dito, mesmo que pareçamos 'rídiculos' (aos olhos frios).
Ridículo seja quem deixa o tempo passar levando junto sua vida, suas palavras e seus sentimentos.
Você conseguiu inundar-me de mais um sentimento hoje.
Beijo

Guto Melo said...

Lembrei do meu pai, que diz: estúpida como uma porta.

Erika said...

ahhhhhhhh que as palavras voem no vento e encontrem os corações corajosos que não têm medo de morrer e ressuscitar de amor.

beijos

gustavo said...

belíssimo...
"Até que uma porta os separe" !!!

Lubi said...

ó/

Tsc.

Você me faz pensar. E isso é bom, já disse?