"Eu vejo a verdadeira vocação do escritor em sua atividade ininterrupta, em seu contato com pessoas dos mais diferentes tipos, acima de tudo e especialmente, com pessoas que menos atenção despertam - , que não se deixa mutilar ou atrofiar por nenhum sistema".
A vocação do escritor, 1976
Elias Canett (1904-1994)


Então: Pernas, pra que te quero!
Ou mãos à obra!
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Fonte: Revista Entre Livros, n° 23 - março/07.
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Porém: Deixo com a palavra o Prof. Pasquele Cipro Neto, explicando a tal de "Pernas, pra que te quero!":

O dicionário dá várias expressões da língua em que entra essa palavra: "perna de pau", "bater pernas", "desenferrujar as pernas" etc. O "Aurélio" dá também, é claro, a conhecidíssima "Pernas, para que te quero!", com a seguinte definição: "Fam. Exclamação (gramaticalmente incorreta) que indica a ação de fugir correndo ante um perigo.". O "fam." significa "familiar", ou seja, indica que o uso da expressão é da linguagem familiar, cotidiana. No "Manual de Redação e Estilo", escrito pelo querido amigo Eduardo Martins, também se encontra observação semelhante: "Mesmo gramaticalmente incorreta, é essa a forma da locução popular". Na verdade, Martins registra "...pra (e não "para") que...", o que torna a expressão mais próxima do padrão popular.

Por que "gramaticalmente incorreta"? Por uma razão muito simples: "pernas" é plural; "te", singular. O falante dirige-se às pernas, "conversa" com elas, mas lhes dá forma de tratamento do singular ("te"). Aí entra a observação, no mínimo hilariante, do dicionário de Caldas Aulete: "A expressão 'Pernas, para que vos quero!', que seria gramaticalmente correta, não tem uso". Já pensou? Um baita tumulto, ladrão de arma em punho, e alguém grita: "Pernas, para que vos quero!".

É claro que no lugar de "vos" seria possível usar "as": "Pernas, para que as quero!". Que tal? É como imaginar que alguém que acaba de ter a carteira surripiada saia atrás do ladrão gritando "Peguem-no! Peguem-no!". Vai gritar mesmo é "Pega ele! Pega ele!".



9 Comments:

Yonara said...

Gostei do "dois em um", viu?!
E a explicação da expressão é hilária!
Beijos.

Marcelo said...

Cara, me vi nessa frase de Elias Canett.
Não se trata de vocação, talvez. O fato é que não vivo sem escrever e conhecer novos estilos de escrita.
Acho enriquecedor pra mim.Adorei isso que postou.
Muito bom, moço.
E adoro o Professor aí, hehehe.

Abração.

Guto Melo said...

E se as pernas forem as do ladrão?

€aµ said...

Boa reflexão sobre a tal vocação. Não é minha certamente, já que vivo de 'transbordamentos' e não acho que carrego em mim o 'tal' dom dos que conseguem transpor em palavras o que carregamos na alma, de qualquer um.
Mas é bom saber que se tem o caminho e que é possível ao menos traçá-lo, nem que seja pelo 'acostamento'. risos
Sobre as pernas... realmente gostei das 'possibilidades', mas que seria hilário o us da mais nobre forma culta... ah! seria, caro colega.

P.S.: E se fossem as pernas do ladrão? risossss

Beijo

;oP

Rodka said...

Primorosa curiosidade! Concordo com o comentário da Yonara: ótimo post duplo.
Já tinha lido isso há tempos, mas não copiei e nem lembro onde vi.
Agradeço pela nova fonte.

denyberrg said...

eu vo ler agora todo dia

jannaguba said...

Interessantíssimo!
Eu adoro isso.
Um beijo.

Erika said...

rsrsrs.. outro dia ví numa reportagem a explicação de um monte de ditos populares como este, muito legal.. tem uns que a gente nem imagina que a explicação fora aquela..

Eu concordo com o contato com pessoas.. prá poder escrever.. é isso que faço todos os dias, através dos blogs que visito e que me dão inspiração.

beijos

Frodo said...

Cara, seu blog é muito bom...Essa das pernas foi um tremendo achado!
Abraços.