Fiordes: quando da aproximação dos estreitos.

Com o desejo virtuoso de ler um livro, animar-se simplesmente, Ana entrou numa loja qualquer, sem saber que o destino lhe reservava mais amor e menos livros. Empurrou a porta de vidro com apenas dois dedos e concentrou os olhos na última prateleira; nem conhecia o lugar e já tinha preferências. Sala fria, com um homem a respirar as letras guardadas em centenas de livros. Com a cabeça decidida a livros Ana parou por um instante, e sem se perceber estava frente a frente com Daniel. Comprimiram-se: o peito, ou os olhos, ou as pernas, ou as mãos. Uma luz que escurece ao contrário, que absorve sensatez, numa tontura apreciável como se outro mundo se lhes fosse apresentado.

A música de fundo, Francisco Alves, engordou a consciência dos dois, envelhecendo-os por um momento, uma idade cruel acrescentou-se, algo que exigiria sacrifícios, e que, talvez começasse a esboçar-se como possível quando eles se movessem um em direção ao outro: um dedo, apenas um dedo. Sabiam, num movimento consciente, mútuo, limpo, encantamento doce, que todas as pessoas são esquecíveis, e a vida pode ser saborosamente um mar de trocas. Dali em diante ninguém do passado precisaria voltar e fazer parte de suas vidas, pois eles se substituiriam.

Comportaram-se como dois labirintos. Seria possível perscrutarem-se, invadir um ao outro, bastaria um movimento. Um dedo apenas. Mas, nenhum movimento a tornava mais humana, nenhuma iniciativa a expectava, talvez a deixasse misteriosa, visto que estava ali com os olhos de gasolina, claros, mergulháveis, agora alimentados pela música de Fernando Alves, bem nutrido-se; ela que sempre, sempre se satisfizera, equivocadamente, com parca comida, agora teria uma refeição respeitável e completa chamada arbitrariamente de “Meu homem completamente desconhecido”.

Nenhum movimento, porém.

A vida reiniciou-se nos pés frios, que sutilmente pareceram humanizados. Um coração, que só os dedos dos pés entendiam que existia, começou a bater, vibrar, e a vida, esta que deixa uma mulher absoluta, estabelecida, saciada de si, subia em golpes lentos, pela perna, depois pelo resto de suas indecências, e atingia os lábios duros, nariz detido em cheiro novo, as orelhas surdas de tanta discrição.

Por fora do instante, de seus conteúdos súbitos, o vento, com mesura, mexia, não em vão, alguns fios de cabelo de Ana. O cabelo animado movimentava-se em mechas encorpadas, autóctones até, posto que eram tudo que Ana era, viviam no espaço da moça; estabeleceram-se, as mechas, no meio do rosto dela, as fronteiras de um mesmo lugar, separando ela dela mesma. Agora, o que os afastava era mais banal que um mero receio livre de amar um desconhecido: uma nova oportunidade que flutuava leve, ordem superior para que Daniel, e só ele, afastasse os cabelos para as origens altas da cabeça de Ana, ou na boa colocação de compridas mechas, atrás das orelhas, iniciando-se assim o que era para ser a realidade deles:

- Você estava assanhada.

Ela entenderia. Perfeitamente. Mas, nada. Nem um dedinho rápido movera-se.

Pareciam reflexo um do outro: braços magros, sem definições encantadoras, movimentos sempre os mesmos, olhos acinzentados, esclerótica espalhada deixando o olho pura brancura, e um pescoço de encaixe excelente que asseguraria carinhos comedidos por uma noite inteira.. E eles não se iniciaram, por assim dizer.

Os dedos dela tamborilavam na coxa, na sua coxa, experimentando maciez, saboreando a si própria, num amor engraçado, já que era dela por ela, sem mais e outros desapontamentos.

Estátuas. Dois humanos num mistério, não novo, apenas honesto, bravo até; uma Medusa dos tempos de hoje e sempre, endurecendo dois seres sem pioneirismos, seduzindo-os, enrijecendo qualquer iniciativa que salvasse o dia de amanhã. Sabiam que se precisariam qualquer dia desses. Um dedo que se movesse e eles bonificariam o futuro um do outro.

Ana havia pago o preço justo pelo livro. Pagava tudo com justeza.

Daniel, antes de enxergá-la de verdade, apenas entendia que qualquer homem, sem esforço, deixa cair-se de bom querer por uma mulher como Ana, que presenteia amigos queridos e, com dedicatória diligente, escreve com letras redondas e anunciativas: “Faça-me existir e correr de vento em popa!”. Nenhum erro a mais na vida, seria essa sua promessa firme. Bem sabia que chegaria em casa queimando de tanto querer mais amor, colocaria o que fosse preciso na mesa (novas flores, velhos livros, cadernos encapados, revistas passadas, perfume barato, algum aparelho moderno que o abismasse), abriria as janelas, deixando o interior da casa respirar de novo, permitindo a intrusão do sol de fim de tarde anunciando noite recente, e manteria o coração no lugar, deixando-o bater pelo seu máximo e pelo seu mínimo. E se ela quisesse ver seu sossego, ele revelaria; ou sua cara lavada, seu modo de rio agitado, com fogo existindo em erupções em algum lugar no fundo: o absurdo ali tão próximo dela.

Não poderiam deixar os olhares perderem a força.

Nenhum dedo se movia. Eles correriam sempre que possível um para o outro algum dia - era de entendimento secreto e mútuo - sempre que achassem que o abandono umedece de tristeza os olhos. E quando a vida estivesse resolvida dormiriam tarde, acordariam cedo, carregariam pelo resto do dia o sono, o cansaço, areia nos olhos, desregulariam todos os relógios de suas vidas, deixando o futuro pra depois: a filosofia de um amor vagabundo.

Assustados, quando o primeiro brilho recíproco de seus olhos quase os acordara daquele momento encoberto, pensaram que tudo era silêncio entre eles, ou simplesmente concentração. Não era. As feridas poderiam romper-se, derramar qualquer líquido grosso, e ainda assim estariam mergulhados um no outro. Um amor delambido; uma agonia certa; um receio de que outrem, cheio de absurdos e incoveniências, mesmo que só quisesse saborear um livro como ela, entrasse e quebrasse o instante mencionando o que para eles era perceptível mas amedrontador: “É amor isso que vejo estampado aí?”.

E a idéia do amor possível, enquanto eles não se nomeavam ainda, os rejuvenesceria daquele momento primeiro, ligaria o relógio da vida real, estalaria os dedos num som de agora, acordando-os um do outro, revivendo-os.

A música de Francisco Alves, havia terminado, o amor decifrado como amor, a dúvida embranquecida pelos nomes certos e cumprimentos, enfim, iniciados, tornando-se entendidos, necessários, indispensavelmente “Minha Ana” e “Meu Daniel”.

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Sobre Francisco Alves: AQUI

Músicas de Francisco Alves: AQUI - 2

7 Comments:

€aµ said...

Ok! Ok! ainda envolvida nas letras... sonho... lembrança... (Meu Deus o que será isso? risos)
Descrição perfeita, como um instantâneo fotográfico... pude realmente ver a cena. (Talvez algo mais cinematográfico - câmeras pela direita, esquerda... do alto... registrando o momento... e que momento... uma eternidade em um instante).
Mui belo texto.

"E a idéia do amor possível, enquanto eles não se nomeavam ainda, os rejuvenesceria daquele momento primeiro"

P.S.: O cantor não é Francisco Alves? Será que trocaram a música ou o cantor? risossss (3º e 18º parágrafos)

Beijo
;o)

Dri said...

Li seu conto num só fôlego...rs. Me senti absorvida a cada palavra.

Beijo

camila said...

o cantor é francisco alves ou fernando alves? 8)
texto ótimo... está salvando minha sexta-feira a noit em ksa =)
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Marcelo said...

Nunca é tarde pra amar.
E o amor se apresenta, muitas vezes, nos lugares mais impossíveis e nos momentos mais inesperados.
Isso já aconteceu comigo mais de uma vez, mas a música nunca foi a de Francisco Alvez.

Um belo conto ese que escreveu.
Talentoso o rapaz...

Grande abraço.

Erika said...

A gente se perde no meio das imagens que suas letras provocam... e vive o conto como se estivéssemos lá.

Parabéns, maravilhosas letrinhas.

Beijos

Sagá said...

Meu amor, fico muito feliz em saber que te inspirei! Se quiser conversar sobre possíveis mudanças, sabe o e-mail...

Às vezes é difícil escolher entre trabalhar para ganhar dinheiro e deixar as paixões para serem hobby. Mas tenho a sorte de poder ganhar dinheiro com minhas paixões, pelo menos espero! Mas é sempre muito difícil tomar a decisão.

Beijos,
Adoro vc

Edson Marques said...

A Márcia e o acaso me trouxeram aqui. Deliciosamente..

Adorei o "engordar a consciência"!


Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.

Abraços, flores, estrelas..