A morte alheia e o milagre de Maria.
Num dia fechado qualquer de agosto, o céu sempre imenso e preguiçoso vestia cinza. Maria, pequena e ajustada, sentava-se presa à mesa com a família. Dominada que estava, toda branca, com essas cores que uma criança pinta-se sem querer - qualquer mínimo de atenção e todos a perceberiam de fato – ela era monte pálido de carne menor, uma criança de 12 anos, um traço de gente e dúvidas, a pensar: “O que eu quero da vida?”.
Os pratos fundos, cheios; os talheres dançavam pra cima e pra baixo, riscavam a profundidade dos pratos, provocando um quase gemido que só pratos e talheres fazem quando se encontram. As bocas rápidas consumiam com prazer, e Maria, habituada que vivia só em si, observava o momento da família mergulhada no grande mistério que era odiar e comer ao mesmo tempo: a mãe geniosa, seca de mais afetos, odiando o pai, que respeitava a família, mas não abria mão do jantar, nem largava o pernil; as duas tias, absurdamente desprezíveis, comiam ameaçadas, presas num transe (qualquer um que muito aprofundasse na observação nunca mais voltaria delas); as irmãs mais velhas arrastavam-se pelo mundo com uma beleza invencível, largadas, com uma arrogância deprimente, flácidas e fáceis: carne pra qualquer prato. Maria piscava os olhos, passeava com a consciência pela mesa tentando fotografar um novo detalhe que a salvasse, que a fizesse acreditar na família, ou seja: que o pai a amava, que a mãe nunca mais a chamaria de inútil outra vez, que as irmãs a convidariam para viver de verdade construindo uma casa na árvore, e que as tias seriam menos feias.
Mas como uma menina de 12 anos conquista o mundo?
O céu, que naquele dia era cinza, pareceu mais próximo, e em bondade, abriu-se para Maria; e o sol, parte dele apenas, o necessário, caiu sobre ela. Reluziu nos olhos, encontrou a passagem secreta de quem quer mudar de vida, ou família, fazendo-a imensa, de braços abertos e erguidos, com alegria dourada, a boca a absorver a verdade do sol, e ela respirava, enchia o pulmão de qualquer coisa que não fosse raiva, ou aquele ódio que ela aprendera. Era a interrupção do sofrimento, e Maria sentiu-se com força a interrupção, não mais sentindo sua raiva queimar aquele momento: a descoberta do novo amor refez-se num único golpe: Maria era feliz do seu jeito. Nunca mais o silêncio acomodar-se-ia entre eles como um terceiro ente, pois Maria partiria para o mundo, para encontrar o barulho desse mundo que alegra uma criança.
Aprontou o cabelo ainda sujo, arrumou no braço as fitas velhas de sempre – vermelha, amarela e preta – que ela achara largadas perto de casa, abandonadas por quem não quer mais tanto colorido no braço, segurou decidida a mochila de uma das irmãs, e sem dificuldades, como brisa que sopra assim leve e solta, desprendida, sem destino, Maria partiu. Nunca mais a inutilidade aparente daria notícias; ela poderia, sim, dizer “não” quando bem quisesse, sem mistérios: era só abrir a boca em calma e compaixão, deixar brilhar no coração o sol que ela deixara entrar antes, e ser guiada pela verdade. Verdade que brotaria obstinada, numa distração luminosa. Nesse momento, do sol no coração, da verdade dos lábios, da fuga, Maria inventaria a vida dos outros também. Não dos que viviam ainda, porque esses poderiam muito bem começar a viver.
Inventaria a vida dos mortos? Sim. O que seria arriscado para ela naquele momento? Talvez tirar essas pessoas de sua vida seria arriscado, visto que seria um ato de incompreensão. O pequeno milagre de Maria aconteceria então: “Afinal, quantos milagres as pessoas acham que uma menina de 12 anos é capaz de fazer?”.
Maria começou a morar em outro lugar. A 200 metros de casa. Noutra casa; na árvore. Praticamente um mundo novo, onde ela poderia ritualizar o momento de dar vida aos mortos do dia: Abria o jornal, fechava os olhos, abria a mão e a colocava sobre o papel velho, passeando a mão sobre o jornal esperava sentir a escolha certa, para então baixar o dedo indicador e apontar o falecido que teria outra vida com seu milagre: Antônio Mendes Pádua. 32 anos. Morrera de ataque cardíaco. Zelador de escola municipal.
Agora ele seria um homem importante, rico, bem rico, desses que pode quase comprar o mundo inteiro; dono de uma fábrica de jujubas-coração. Teria um casamento de 20 anos, com solidez.
A história de Antônio segundo Maria:
Conheceu a mulher da sua vida num dia qualquer, dizendo um “oi” normal, enquanto caminhava desconsolado, segurando, com a mão direita bem fechada, um bilhete que dizia “Prometo nunca deixar você morrer um pouquinho todo dia”, que ele entregou para a mulher mais linda que as esquinas da vida guardavam para um homem sem muitas perspectivas e com um sonho de casar e vender jujubas-coração. E ela, a mulher da vida e da esquina, chamava-se Tina, e disse, audaciosa, numa alegria sofrida: “Intenso isso de aceitar suas propostas assim tão rapidamente”. Depois, juntos, anos depois, eles escreveriam em bilhetes vivos, grudados nas paredes da casa, a cada data que celebrasse a união do que eles eram: “Qualquer esquina é digna do nosso amor”. E eles nunca morreriam. Nunca.
Maria, realizada, arrancava a folha do caderno, como que saciada, guiada por um mistério aos 12 anos de fazer viver tudo que morre, procurou o túmulo de Antônio Mendes Pádua. Depois da busca, o achado: o tesouro quieto da menina estava ali, a sete palmos, num cemitério abandonado pela beleza, onde o mato crescia sem propósito, sufocando Antônios, outras Marias, Ricardos, Amâncios, Penélopes, Romeros, Josés, Honórios, dobrando-se em reverência ao segredo que é morrer e viver em silêncio num lugar daqueles.
Maria ajoelhou-se; aprumou o corpo pequeno, continuando branca; sem desabar, perder a pose de quem tem a vida dos outros na palma da mão, Maria colocou o papel, com a história de Antônio, por cima do mato; afastou alguns insetos, pedindo respeito, e com os olhos vivos, o coração aonde nasce o sol, com a boca que planta a verdade, ela disse:
- Você vive a partir de agora... para sempre, e feliz.
Assina: Maria, a menina que você nunca ouviu falar.
Num dia fechado qualquer de agosto, o céu sempre imenso e preguiçoso vestia cinza. Maria, pequena e ajustada, sentava-se presa à mesa com a família. Dominada que estava, toda branca, com essas cores que uma criança pinta-se sem querer - qualquer mínimo de atenção e todos a perceberiam de fato – ela era monte pálido de carne menor, uma criança de 12 anos, um traço de gente e dúvidas, a pensar: “O que eu quero da vida?”.
Os pratos fundos, cheios; os talheres dançavam pra cima e pra baixo, riscavam a profundidade dos pratos, provocando um quase gemido que só pratos e talheres fazem quando se encontram. As bocas rápidas consumiam com prazer, e Maria, habituada que vivia só em si, observava o momento da família mergulhada no grande mistério que era odiar e comer ao mesmo tempo: a mãe geniosa, seca de mais afetos, odiando o pai, que respeitava a família, mas não abria mão do jantar, nem largava o pernil; as duas tias, absurdamente desprezíveis, comiam ameaçadas, presas num transe (qualquer um que muito aprofundasse na observação nunca mais voltaria delas); as irmãs mais velhas arrastavam-se pelo mundo com uma beleza invencível, largadas, com uma arrogância deprimente, flácidas e fáceis: carne pra qualquer prato. Maria piscava os olhos, passeava com a consciência pela mesa tentando fotografar um novo detalhe que a salvasse, que a fizesse acreditar na família, ou seja: que o pai a amava, que a mãe nunca mais a chamaria de inútil outra vez, que as irmãs a convidariam para viver de verdade construindo uma casa na árvore, e que as tias seriam menos feias.
Mas como uma menina de 12 anos conquista o mundo?
O céu, que naquele dia era cinza, pareceu mais próximo, e em bondade, abriu-se para Maria; e o sol, parte dele apenas, o necessário, caiu sobre ela. Reluziu nos olhos, encontrou a passagem secreta de quem quer mudar de vida, ou família, fazendo-a imensa, de braços abertos e erguidos, com alegria dourada, a boca a absorver a verdade do sol, e ela respirava, enchia o pulmão de qualquer coisa que não fosse raiva, ou aquele ódio que ela aprendera. Era a interrupção do sofrimento, e Maria sentiu-se com força a interrupção, não mais sentindo sua raiva queimar aquele momento: a descoberta do novo amor refez-se num único golpe: Maria era feliz do seu jeito. Nunca mais o silêncio acomodar-se-ia entre eles como um terceiro ente, pois Maria partiria para o mundo, para encontrar o barulho desse mundo que alegra uma criança.
Aprontou o cabelo ainda sujo, arrumou no braço as fitas velhas de sempre – vermelha, amarela e preta – que ela achara largadas perto de casa, abandonadas por quem não quer mais tanto colorido no braço, segurou decidida a mochila de uma das irmãs, e sem dificuldades, como brisa que sopra assim leve e solta, desprendida, sem destino, Maria partiu. Nunca mais a inutilidade aparente daria notícias; ela poderia, sim, dizer “não” quando bem quisesse, sem mistérios: era só abrir a boca em calma e compaixão, deixar brilhar no coração o sol que ela deixara entrar antes, e ser guiada pela verdade. Verdade que brotaria obstinada, numa distração luminosa. Nesse momento, do sol no coração, da verdade dos lábios, da fuga, Maria inventaria a vida dos outros também. Não dos que viviam ainda, porque esses poderiam muito bem começar a viver.
Inventaria a vida dos mortos? Sim. O que seria arriscado para ela naquele momento? Talvez tirar essas pessoas de sua vida seria arriscado, visto que seria um ato de incompreensão. O pequeno milagre de Maria aconteceria então: “Afinal, quantos milagres as pessoas acham que uma menina de 12 anos é capaz de fazer?”.
Maria começou a morar em outro lugar. A 200 metros de casa. Noutra casa; na árvore. Praticamente um mundo novo, onde ela poderia ritualizar o momento de dar vida aos mortos do dia: Abria o jornal, fechava os olhos, abria a mão e a colocava sobre o papel velho, passeando a mão sobre o jornal esperava sentir a escolha certa, para então baixar o dedo indicador e apontar o falecido que teria outra vida com seu milagre: Antônio Mendes Pádua. 32 anos. Morrera de ataque cardíaco. Zelador de escola municipal.
Agora ele seria um homem importante, rico, bem rico, desses que pode quase comprar o mundo inteiro; dono de uma fábrica de jujubas-coração. Teria um casamento de 20 anos, com solidez.
A história de Antônio segundo Maria:
Conheceu a mulher da sua vida num dia qualquer, dizendo um “oi” normal, enquanto caminhava desconsolado, segurando, com a mão direita bem fechada, um bilhete que dizia “Prometo nunca deixar você morrer um pouquinho todo dia”, que ele entregou para a mulher mais linda que as esquinas da vida guardavam para um homem sem muitas perspectivas e com um sonho de casar e vender jujubas-coração. E ela, a mulher da vida e da esquina, chamava-se Tina, e disse, audaciosa, numa alegria sofrida: “Intenso isso de aceitar suas propostas assim tão rapidamente”. Depois, juntos, anos depois, eles escreveriam em bilhetes vivos, grudados nas paredes da casa, a cada data que celebrasse a união do que eles eram: “Qualquer esquina é digna do nosso amor”. E eles nunca morreriam. Nunca.
Maria, realizada, arrancava a folha do caderno, como que saciada, guiada por um mistério aos 12 anos de fazer viver tudo que morre, procurou o túmulo de Antônio Mendes Pádua. Depois da busca, o achado: o tesouro quieto da menina estava ali, a sete palmos, num cemitério abandonado pela beleza, onde o mato crescia sem propósito, sufocando Antônios, outras Marias, Ricardos, Amâncios, Penélopes, Romeros, Josés, Honórios, dobrando-se em reverência ao segredo que é morrer e viver em silêncio num lugar daqueles.
Maria ajoelhou-se; aprumou o corpo pequeno, continuando branca; sem desabar, perder a pose de quem tem a vida dos outros na palma da mão, Maria colocou o papel, com a história de Antônio, por cima do mato; afastou alguns insetos, pedindo respeito, e com os olhos vivos, o coração aonde nasce o sol, com a boca que planta a verdade, ela disse:
- Você vive a partir de agora... para sempre, e feliz.
Assina: Maria, a menina que você nunca ouviu falar.


11 Comments:
me lembrou um pouco "Amélie"...
Sendo Maria mais nova e surreal...
hehehe
bela história....
Eu tenho uma filha de 12 anos, e esse seu conto me fez refletir sobre muitas coisas.
Mas meu principal pensamento foi o cuidado que devo ter com ela sempre...
Não apenas o carinho e o amor, mas o cuidado.
E o tenho...
Gosto de seu talento para escrever contos, esse não é o primeiro que leio aqui e sempre em ótimo nível literário.
Enriquecedor pra mim os ler.
Grande abraço.
Q lindo,Neto!
Poxa isso passou tanto coisa pra minha cabeça de borboleta!
Devo agradecer entao por juntar tantas belas frases, pra nois seus fies leitores!
Bjao Neto...
PARABENS TU MERECE!
No início da leitura lembrei-me um pouco de 'Laços de Família' da Clarice. Daquelas verdades familiares que queremos não ver ou que vemos de maneira embassada para não nos sentir como a Maria.
Reinventar a vida, partindo da sua própria, de uma morta-vida quase invisível entre tantos zumbis.
Quantos já não tentaram isso?
Mas, reinvitar o que por todos é tido como findo, isso é magnífico... não se deixar derrotar com o final.
“Prometo nunca deixar você morrer um pouquinho todo dia”
Nunca ouvi falar de Maria, talvez em outro nome, em outra moradia... mas conheço tantos que acham sempre um novo caminho, mesmo que tenham chegado à 'parede' final.
Excelente texto... sinto-me em casa aqui (se não for muita pretensão), pois de tudo conseguimos: risos (é eu ri bastante... obrigada por perceber), raivas,inquietações, reflexões... que lugar melhor a se estar?
Beijo
;o)
ai...ai...
eita é amnahã...
boa sorte!
BOA SORTE ENTÃO..NE JULIANA...PRA O NOSSO NETOOOO!
0//
Belíssimo texto... Maria está dentro de mim... Cuido dela... Cuido bem...
Estou boba na frente da tela. Boca aberta, coração querendo saltar por ela. Você me enche de orgulho. Tododia! Esse texto está maravilhoso!!! De uma singeleza que enche o peito.
Amo.
achei seu blog por acaso.
belo texto, gostei bastante.
Vim aqui....
Despretensiosamente declarar minhas saudades, requisitar visita...
E saio assim...
Muda.
Abismada.
Calada de Marias e Espantos.
PQP, menino, vc escreve muito.
Beijos, beijos
__Felícia__
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