Antes de ler é preciso:


Ver o vídeo.
Sentir a música.
Depois, ler o texto ouvindo a música.
No fim, uma suposta tradução da canção... e do que eu sinto. A quem interessar.


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Aimee Mann/

Wise Up/

Filme: Magnólia

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Catástrofes começam por dentro

Eu estava decidido – decisões tímidas que nos submetemos quando sentimos que certas catástrofes começam por dentro - : eu contaria meus passos, e quando chegassem a mil, seria o fim. O fim das experiências passadas, do perigo de quase morrer a cada dia um pouco. Bateria nas portas, dali a mil passos, e tentaria um amor diferente, ou quem sabe apenas outra vida. Sentiria como meu bom-humor é vulnerável, ao contrário do que eu penso; portanto, precisaria de motivos decentes: casa nova, outros ares, outras águas, olhos mais atenciosos, um mistério fora da rotina, algo que deixasse meu coração aceso, nobre, incorrompível. Tentaria escrever mais, descrevendo o que vejo por dentro, que é o que eu sinto: que os sorrisos das pessoas tristes são calmos e amarelados, que as lágrimas de minha mãe são grossas, e escorrem caudalosas, em busca de um mar qualquer que pudesse existir onde moramos, que o nosso amor talvez possa nos salvar dessa falta de recursos para recomeçar. Era o que eu vivia. E nada se completa; nenhum recomeço significativo em 7 anos, desde que nós dois resolvemos não morrer.
Precisaria de algo mais concreto pra percorrer esses mil passos. Nós precisávamos não pensar mais “Esse amor, essa esperança não vai pagar nossas contas, vai?”. Já não arrumava mais meu cabelo, nem escrevia para fazer mágica, não quis aprender inglês pra entender o que é wise up, e todos os meus pequenos gestos pareciam apenas... pequenos gestos. Sentia a vida cada vez mais encardida, como se só precisasse de um banho. Mas éramos dois, que nunca se somavam.
Pus-me diante de um deserto imenso de falta disposição; e as cortinas de fogo se abriram para que o espetáculo de existir tivesse início. Eu suportaria o calor, a poeira que subia pelas narinas, misturando-se com minhas parcas idéias, determinando um novo fim. O sol não me arrastaria dali, e quando a lua chegasse tudo já estaria acabado: eu teria simplesmente desistido. Não era o fim. Talvez existisse outro lugar para nós, mas soluções que viessem depois não me serviriam de consolo.
Abri os olhos: saí do deserto, que sempre visito ao fechar os olhos. A vida ainda era irremediável. Segurei, então, a caneta, e rezei – eu ainda conseguia – para que todas as respostas saíssem como milagre. Talvez um acordo com o destino. Ou um roteiro imprevisivelmente digno. Ou apenas um contrato de vida calma. Ou o Livro da minha vida. E nada. Não era raiva que eu sentia, era como se aqui dentro todas as células que acreditavam na minha vida estivessem desistindo também, uma a uma, como se a vida de dentro não chegasse mais à superfície, e eu precisasse apenas descansar. Por fora eu sabia que era outro: mais uma ruga no canto dos olhos, o mesmo desconcerto com os braços, a mesma impaciência nas pernas, e a falta de iniciativa ainda era clara e reconhecível quando eu piscava os olhos e expirava e inspirava “calma ... 1... 2... 3... calma!”.
A caneta esperava minhas ordens. Entra a loucura e o amor, entre a falta de novas palavras e os clichês desgastados, entre a dor de começar de novo e o fim das experiências difíceis, comecei a escrever no corpo, dizendo “Enquanto houver tinta, enquanto houver tinta”:

“It's not.. what you thought...
When you first... began it.
You got... what you want...
Now you can hardly stand it, though,
By now you know, it's not going to stop...
It's not going to stop...It's not going to stop,
Till you wise up.” *

Não alcançava as minhas costas, e lá havia espaço, mesmo que ninguém nunca mais me visse nu, quando começasse a caminhar meus mil passos. Mamãe chegou confusa, com os olhos de quem precisa entender mais o filho, segurou a caneta e recomeçou:

“You're sure... there's a cure...
And you have finally found it.
You think... one drink...
Will shrink you to... your underground
And living down, but it's not going to stop...
It's not going to stop...It's not going to stop,
Till you wise up.”*

Não era a música que saía de nós, era um desejo imperioso de reverter tudo, de que a vida fosse mais limpa, de que nossa alegria brilhasse tanto que todos ao redor sentissem fome de nós dois, de querer entender como alguém consegue ser tão absurdamente satisfeito. Parecia que a música sempre fez parte daquele quadro; se alguém entrasse ali, talvez nem percebesse, durante uma conversa sem pretensão, enquanto mamãe escrevia em mim aquelas palavras, que nós cantávamos sossegadamente, com um meio sorriso, por uma meia vida. Não havia cheiro, não havia cor, nós nos dirigíamos para a neutralidade; só havia música, a mesma música, em todo lugar, e agora no corpo, meu corpo, que já estava em carne viva, e a voz apropriada de mamãe me dizendo que estava acabando, e a música entrando e saindo.

Nosso olhar era de fim de grades tentativas; como se tudo fosse só música; olhos hipnotizados, o amor que se tornou mecânico, e o sofrer que se tornou natural, até parecia, tudo acontecendo daquele jeito, que na vida todo mundo nasce com uma flor-de-sofrer no peito, esperando a primeira derrota, a primeira lágrima, a decepção reveladora, para que a flor, então, pétala por pétala, mostrasse a cada um o que é a vida.
No resto do corpo as palavras continuavam, deslizando:

“Prepare a list for what you need,
Before you sign away the deed,
'Cause it's not going to stop...
It's not going to stop...
It's not going to stop,
Till you wise up.” *

Não dei o primeiro passo. O coração estava como sempre, no mesmo lugar, e sem vontade de ganhar nada. As mãos não escreveriam como antes. E ainda precisava de um banho. Sem metáforas, só um banho, ou um movimento que não assustasse, que me tornasse menos apavorado, que me devolvesse a música, ou o prazer de entender todas as frases que um dia escrevi.
Na palma da mão esquerda, as últimas palavras daquela música, que paralizara nós dois, eu e mamãe:

“No, it's not going to stop,
Till you wise up.
No, it's not going to stop,
So just give up.” *

E por fim, sem entender quase nada, somente, talvez, de não viver, eu fui dormir sujo de tinta, ouvindo a mesma canção; foi assim que mergulhei em busca de uma vida mais digna, de um mundo em que eu e mamãe coubéssemos, onde pudéssemos cantar juntos e nunca mais pensar em simplesmente desistir.
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Tradução

Se tocar
Não é o que você pensou
Quando você começou isso
Você conseguiu o que queria
Agora você mal consegue suportar,
embora agora você saiba, isso não vai parar
Isso não vai pararIsso não vai parar
Até você se tocar
Você está certo de que existe uma cura
E que você finalmente a encontrou.
Você pensa que um drinque
Vai encolher você, até você quase desaparecer
E estar no chão, mas isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar
Prepare uma lista do que você precisa
Antes que a morte venha te buscar
Porque isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar
Não, isso não vai parar
Até você se tocar
Não, isso não vai parar
Então simplesmente desista




Tu, Eu, os Beatles e o fim do carnaval


E o amor parece que morreu na Quarta-feira de Cinzas. Depois que todos explodiram com todas as suas inesgotáveis e alucinadas verdades, depois que o mundo fechou as portas, depois que eu precisei de água nova, quando seu grito virou palhaçada, quando minha escrita se esgotou foi que tudo começou do nada: Meus olhos cresceram; entenderam de possibilidades e engoliram você, que não estava lá. A carapuça serviu: fui um canibal por 6 dias; entendi de sonhos dos outros; apossei-me do bom gosto alheio, e esqueci como se escreve “Eu preciso de amor”. Aí, quando a pretensão deixou vestígios, quando aquele mundo pareceu minha pior decepção, o Carnaval de Lá me deixou burro: o homem que se diverte, que não é príncipe, nem sapo, que tem nos olhos compreensão, mas é acostumado a gritar “I need somebody”, mesmo sem entender que os Beatles são os melhores do mundo.
Eu tentei inventar todo mundo. Tentei não me repetir. Quebrei modos antigos. Coloquei meus protocolos de outrora abaixo das minhas novas iniciativas. Arranquei da boca as inconveniências. Conveci pernilongos de que a vida de inseto só é desagradável quando se vive naquela casa de paredes sujas, de gente alegre sem sangue : “É preciso alçar novos vôos!”. Tentei cruzar as pernas como homem, sorrir como adulto, conversar com decisão, ser alegre como é preciso. No fim, das tentativas, tudo foi dispensável, pois do nada a verdade manteve-se a mesma: os olhos encantados farejando – sim, farejando – a essência daquilo que eu tinha ao lado, do que eu não era. A iniciativa mais doentia desses meus olhos masculinos; olhos que quiseram mudar de ângulo, de opinião: Eu vi meu futuro, numa mágica quase improvável: Invenções inapropriadas, num dia de chuva fina, de sol relutante, poucos ventos, eu acompanhado, lado a lado, o coração calejado, seu dedo corajoso chegando junto a mim, como se fosse um corpo inteiro me fazendo entender de pequenos gestos; repetindo o ato, repetindo a frase “Você não precisa mais ensaiar o amor. I’m here.” Num inglês sem brilhantismo, com essa boca dura, os cabelos em acordo com o resto da beleza do universo, você risca na minha testa os detalhes dos seus segredos, diz que o amor é assim Sei lá, diz que me quer recomposto; é quando esqueço que detalhes de um grande amor é o que eu sempre quis, e me refaço, então, inteiro; rememoro, então, todas as vezes em que fui ridículo, aos pulos, que mergulhei na descrença, aos berros, as vezes em que deixei o amor virar cinzas que eram carregadas pelos meus últimos suspiros. Seus dedos comuns que fizeram cartas de amor numa máquina velha, em papel amarelado, esperavam, eu sabia, pelos meus dedos grossos que apuravam boas idéias nas suas pontas, como se eu sempre tivesse uma questão para expor: Minha mão direita cheia de complicações, esperando a sua esquerda audaciosa, de hábitos gentis; ambos à beira das profundezas de sentimentos latentes, de boas idéias, de alegrias de carnavais passados e vividos: Nossa quarta-feira virou cinzas; minha fantasia de Eu, e tua fantasia de Tu, não serão mais usadas, e ninguém nos verá desse jeito, tão possíveis, porque estaremos longe de Lá, vivendo o inenarrável amor de 20 carnavais.




Dos filhos das estrelas e seus sonhos


Para quem nasceu dia 13 e 15 de fevereiro: poderia ser meu melhor texto para minhas melhores amizades. Mas não é. Não é.

Nascemos em dias diferentes, sem conspiração dos deuses, porque não éramos especiais, mas nos tornamos amigos por força do destino. Pelo menos, foi assim comigo e Pehta. Eu acreditava, em tempos idos, nas datas antigas, quando na minha cabeça fada era fada, sonho era sonho, que éramos também invencíveis. Éramos crianças comuns, filhos de Mulheres-Maravilha do Interior. Tínhamos a mesma cor, embora os olhos de Pehta fossem mais vivos que os meus; ela sempre soube usar melhor o que tem por trás do olhos; sempre usou melhor a cabeça, e sempre soube usar melhor minha amizade: sempre me teve na palma da mão; e não abria pra ninguém: “Ele é meu.”

Fui dela por décadas, duas. Inventamos nossa amizade, de um jeito egoísta e exageradamente sentimental. Era engraçado quando nos permitíamos certas perdas: eu nos olhos dela, ela na minha cabeça; eu no quarto dela a vendo escrever sobre a vida, sobre mim, sobre o futuro.

Éramos uma dupla. O que não foi contado ainda é que antes, de tudo, do nascer dos filhos preferidos, primogênitos, nada especiais, existia Guba. Guba e Pehta eram da mesma idade. Eram tão parecidas que, elas sim, pareciam ter nascido da mesma estrela: tinha o mesmo brilho, e explodiam, contagiando de existência, as pessoas duras de coração ou difíceis de conquistar. Eu só fiz parte do “grupo” anos depois, quando elas já eram íntimas, inteligentes, confidentes, parecidas. Eu tive quer ler muito, encontrar sensibilidade no mundo ao redor, entender de assuntos variados e me fazer bonito por dentro; um esforço enorme pra alguém tão sem perspectivas.

Naturalmente nos tornamos amigos. Nossas perguntas eram diferentes a cada dia. Nossas dores aumentavam com as perguntas, com o passar do tempo, com o crescer de cabelo delas, com minha perda de peso e crescimento do meu nariz que parecia realizar uma disputa estranha e sem significado com tudo que tinha mais de 3 centímetros: eu me tornaria narigudo, seria sempre mais novo, menos interessante, mas apaixonado por Guba e Pehta. Meu nome? Aiala. Desse jeito. E eu que queria me chamar Raimundo. Normal. Comum. Perfeito pra combinar com tudo que eu era e pensava. Guba queria se chamar Janaína, mas com dois N's "Pode ser sim no começo!"; dizia que parecia nome de rainha; ou, pelo menos, nome que não lembrasse comida; é que ela cismava que seu nome parecia nome de um prato de comida especial. Pehta queria ter um nome eterno, que durasse tempos e tempos, sob sol e lua, que não fosse esquecido nunca. Como esse nome não existia, ela quis mesmo escrever um livro “É o melhor modo de tornar meu nome uma excelência eterna”. E se ela se chamasse Perpétua? Não gostava dessa idéia; eu, sinceramente, achava uma idéia considerável: Raimundo, Jannaína e Perpétua.

Guba foi a primeira que viajou pra longe, aprendeu a ser diferente, a brilhar mais, a cozinhar com dignidade, a escrever com outras letras outras histórias; foi a primeira a ter novos amigos e amores grandes. Enquanto eu e Pehta continuávamos no feijão com arroz, com o mesmo corte de cabelo, e repetidos nas divagações sobre livros, paixonites e datas de retorno da melhor amiga. Quando voltava para as férias, Guba era recebida com pompa, por todos os meninos da cidade, que a idolatravam, enquanto nós ficávamos nos cantos esperando que toda aquela euforia passasse para que ela nos ensinasse a existir como ela. Ela até que tentou; nós tentamos; mas já estávamos mudando. O mundo era outro e nós não éramos mais crianças. Nunca mais conseguiríamos brincar de trocar sonhos: “Tu quer meu sonho, Aiala?” “Qual é teu sonho hoje?” “Escrever um livro, sobre nós três” “Eu posso ser alguém importante?” “Ahhhhhhhhhhh, não, meu filho, esse papel é meu”. Não discutíamos muito; deixávamos que tudo se resolvesse. O tempo passou e resolveu por nós, de certa forma. Eu resolvi escrever sobre nós três, a Guba quis ser rainha e Pehta encarou o mundo do jeito dela: Mudei de nome, Guba desespera-se vez ou outra porque acha que está sozinha e Pehta diz que é feliz do jeito dela.

Aprendi a ser parecido com elas, menos os cabelos compridos, por causa da fadiga que me causa ver coisas grandes, largas: imensão que não seja em interiores. Chegou um momento, no entanto, que eu queria mesmo era adimirá-las e ficar por fora; era menos perigoso, exigia menos do que eu era; no fundo eu queria mudar de vida, como elas, mas assim como são as pessoas são suas estruturas: Guba foi a primeira a usar cabelo channel, enquanto as outras meninas usavam cabelos comuns, sujos e sem respeito à feminilidade daquele tempo; foi a primeira a entender de horóscopo, descobrindo que as conjunturas dos astros não estavam a nosso favor, mas se esperássemos mais alguns anos, quando marte, timidamente, chegasse até vênus, tentando entender de diferenças, e plutão declarasse seu amor ao sol, também pela diferença, aí, sim, estaríamos pronto pra sermos parecidos, ou um grupo, ou únicos e preferidos de todos.

Derrotamos nossa amizade; sempre acreditamos no amor entre amigos; e não foi por falta de crença nos bons sentimentos que nossa amizade desandou; foi o mundo que mudou, os sonhos se inverteram; viramos do avesso, procurando ser perfeitos uns para os outros; ficamos presos a nós mesmo; viajamos pra dentro, pra fora; gastamos nossos créditos criando imagens infrutíferas, cheias de afetações, de momentos de sorrisos calculados, de passos tontos, de frases soltas perdidas nas mentiras.

Depois de um tempo nem falávamos mais a verdade. Sabíamos que havia fingimento, e a dor vinha disso: nós que trocávamos de sonhos, não passávamos de mentira no fim de nossa vida.

De fato, na realidade, no mundo do faz e acontece, nós nunca nos separamos. Sabe aquela história de “unidos pelo coração”? Falamos a mesma língua.

É assim: nossos nomes são outros, nosso futuro é indefinido, nossos sonhos estão se reconstituindo, e nossa amizade não vai morrer assim em 20 anos.


Fantasias e carnaval


Nesse carnaval, vou me fantasiar de José Saramago,
escrever um livro cheio de excelências,
com outras fantasias descritas e narradas,
mas cheio de verdades.

Porque é preciso falar a verdade até quando se está mentindo.









Um velho estilo de querer o mundo



Quero Clarice. Saindo da minha boca como novidade; como se ser original ainda fosse possível. Quero ser Clarice, numa versão masculina e moderna, sem sotaques, mas com todos os dramas reinventados. Quero a vida escorrendo pelos cantos da boca; que essa vida desça, molhe todos os meus papéis, para que todos os outros, homens e mulheres da minha vida, descubram, depois da minha morte, o que eu era enquanto vivo: quando eu não era ninguém.
Esse querer Clarice, é querer cor nova. É usar sempre um ponto final. Como se parte da vida terminasse em casa frase. Como se cada frase tivesse em si o fim de tudo. O fim da história. Como se qualquer história não precisasse mais se estender até cansar um bom leitor. Como se a vida, uma frase, qualquer história e um bom leitor, coubessem na mesma oração. Então, eu quero a cor nova que não surge de repente, mas existe a partir de agora, quando o sol não nasce, quando o dia se arrasta como namorado preguiçoso que acha que não morre mais de amor pela namorada bem quista de outrora.
O ponto. Fez minha escrita pretensiosa parar. Alguns minutos que me fizeram consciente da derrota que é querer ser outro. Minha pele cansada; os contornos gastos; o hálito pesado; as pernas inquietas; e os verbos pregados na ponta dos dedos. As mãos expostas, e na palma da mão as reticências que eu sempre uso quando não tenho respostas pra tudo. Na palma da mão, meu universo cheio de repetições, cheio de um não amar que tem ecos monstruosos. É isso: esse ponto final é meu monstro de hoje. Mais do que meu reflexo de cada dia. Mais do que você não me querer, e eu nunca conseguir acreditar que você dentro de mim não tem fim.
Quero Clarice. Quero outra cor. Ver você vestir-se de cobre, quando o pôr-do-sol, enfim, dura alguns minutos, me cansou. Você é a derrota de hoje; o cobre enferrujado que um dia eu pensei ser o tesouro perdido. No fundo dos meus olhos eu escrevi você; por trás do meu olhar, feito mágica, eu gravei nossa história. Sua cor era cobre, com amor dourado e um dia-a-dia prateado. No entanto, nosso amor foi derrotado, porque eu quis Clarice, e nunca mais escreveria você ou eu no meu velho estilo. Porque eu quis cor nova. Do fundo dos olhos, eu arranquei você; a ferida aberta; e o sangue não fugiu de mim, pois, depois de todo esse tempo, a única impureza que se esvai, e sai de mim, dessa ferida, é você numa forma já conhecida, e que me tornava sujo, visto que era loucura querer tanto alguém que quase não existe de fato.
Eu quero tudo o que é novo. Quero me ver nos papéis, com outras palavras. Quero Clarice nesses papéis. E você fora do meu resto de vida. Pois, para a vida começar é preciso sempre a escolha certa: ponto final ou reticências.
Digo “não” pra você: o “sim” de outra vida. Portanto. Você. Acabou. Pra. Mim.

Clarice não morreu
PARTE - II

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Clarice não morreu

PARTE I

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“O mundo, quase todo em inteiros, não em partes, acontecera sob meus pés. Eu era planta murcha, o que não me impedia de fazer nascer uma flor, mesmo pequena, um fruto mesmo verde. Minha raízes vinham contrárias, buscando sol claro. Ninguém entenderia que uma planta aprender a viver quieta, recebendo pouca atenção que seja, e parecendo que o orvalho que vem de fora é dela, produzido no seu interior. O coração de uma planta, talvez, seja o fruto: arrancado de suas preciosidades, em certos períodos, por estranhos, ou velhos conhecidos incovenientes; e pra isso ela não precisa de perguntas, nem de elogios. Ela só precisa ser planta, e ter chão macio. O mistério da planta é produzir aquilo que as plantas produzem, por séculos e séculos, sempre a mesma história, sempre a mesma vida, assim como o mistério do ovo é a galinha, ou, quem sabe, o contrário. A vida estava nascendo em mim, e isso eu não poderia perder; os frutos são insossos, porque, para o que brota em mim ser aproveitado, eu preciso de poucas perguntas alheias, pois as minhas já me bastam: quantos banhos um homem precisa pra se sentir digno?”

Essas foram as últimas palavras de Romão, escritas à carvão nas paredes de um mundo sem dono, onde ele não gostava de morar. Homem comum, com seus 30 anos vividos, mas de pele e osso e rugas e desgosto vestia-se de 60 anos. Mãos sujas, dedos grossos, pés sempre descalços, quase em carne viva, como seu coração. Não carregava mais o mundo nas costas, mas como um homem sempre precisa carregar algo nos ombros, ou na cabeça, que seja pesado e que o faça dizer “Merda” toda vez que descobre é o lugar dos desacertos. Romão preferia colocar nas costas um saco velho cheio de garrafas usadas, livros de não leitores desinteressados, roupas rasgadas. Só carregava. Se o mistério do ovo era a galinha, o de Romão era seu saco, o de cima. Era como se seus sonhos estivessem sendo guardados, como se possível carregar todos os amigos de outrora, aqueles que, como ele, não venceram, que se sentem gastos como madeiras velhas e sem serventia, como plantas que não dão flor, nem querem ter frutos, porque se uma planta não precisa da flor, vai precisar da fruta? Radical, era isso. Ele não precisava ter sido tão radical, com todos, com os amigos que ele não pode colocar dentro do saco; e seria até mais fácil encher aquele saco de lembranças, mesmo que fosse a dos outros, do que encher seu coração de esperança de ter tudo o que perdera: tempo, amigos e futuro.

Sabia ler, escrever, era justo com os animais, adorava Caio Fernando Abreu. Nada disso o salvou de si mesmo. Não gostava da sua vida. E quem gostaria? Comer tudo que é resto dos outros. O único resto que o deixaria satisfeito por uns dias de vida nova seria restinho de carinho. Mas ele era sujo, com a pele encardida, e carregava um saco nas costas que assustava até ele mesmo. Não tomava mais banho. Preferia o fedor e a angústia de sentir-se imundo todo dia do que lavar-se com água suja; e era, sim, exigente ainda: “Radical, pra ser exato”!

Antes de morrer, asfixiado pelo saco de restos de lembranças, Romão escreveu, embaixo do viaduto onde morava: “Quantos banhos um homem precisa pra se sentir digno?”. E morreu sujo, sem esperança que lhe lavasse a alma e o fim da vida.

O livro da minha vida



Na página 29 ela parou. Os olhos continuaram vivos. O coração suplicando por continuação. O sol tentava resgatá-la daquele quarto, esconderijo de moça insegura, mas, como ele conseguiria chegar até lá: sala com dois sofás, uma mesa cheia de “afazeres”, depois um corredor para a esquerda, outro para a direita, e três portas a escolher; a porta que dava acesso a seu quarto, mas não a ela diretamente, era a da direita; só quem sabia era sua mãe, ela própria, uma ou duas amigas e algumas baratas e formigas.
A vida não começaria na página 29. A página 1, do seu “O livro da minha vida”, estava em branco, o que pra ela significava que se a vida não começa na primeira página porque começaria na página 29? Seu livro teria, sim, 365 páginas, e uma história de vida. Sabia, no entanto, que todas as histórias já foram contadas.
Ela poderia, quem sabe, falar de todos os amores, e somente deles. Nada mais. O que a tornaria repetitiva. Tentou começar, na página 29: “É dele a minha vida. Foi por ele que quis escrever o Livro da Minha Vida. No meu corpo pus todos os verbos que, com esforço, aprendi a conjugar. Troquei as palavras de todos os dias pelas improbabilidades das conjugações impossíveis. Fiz do meu corpo o livro perfeito: minha boca repetiria a mesma declaração apenas por uma semana; depois tudo seria diferente. Para cada verbo novo, bem conjugado, uma mulher nova com um amor maior. É dele os verbos que percorrem meu corpo, e o fazem parecer estrela nascida na terra; é por ele que meu corpo se aquece, e estremece em frêmitos sem escândalos; e, por ele, corre em mim, não mais sangue, mas o verbo Amar em todas as suas conjugações, inclusive no imperativo, e seus esforços. Por ele meu coração aprendeu a escrever, a ler, e a destruir qualquer silêncio que tente se impor; é quando eu acordo despida das vestes da prudência e exponho minha língua excessivamente afetada desse não medo: Meu engodo, meu jeito inteligente de querer ter, entre minhas posses doentias, o homem da minha vida. Por ele eu quis me sujar de amor, não importando o que ele tivesse para me oferecer.”
Não era essa a sua história. Não era isso que queria escrever. Queria que os melhores escritores falassem por ela. Queria poder voltar no tempo e ser filha de Pinkouss e Mania Lispector e, aos 23 anos, publicar o melhor livro da sua vida, ou da vida inventada de alguém. O que não é possível: voltar no tempo, publicar um melhor livro escrito por ela e ser filha dos Lispector. Não era possível para uma mulher que, com 25 anos, não escrevia livros, e, sim, sabia apenas falar de amor em estado bruto de complicação.
Conversava consigo mesma. Limitava-se a tal atitude, visto que era uma maneira eficaz, mas não madura, de guardar segredos, ou não ser ridicularizada: “Pensei em começar a página 1 assim: ‘Não há dúvida de que o Além existe. O problema é saber a quantos quilômetros fica do centro da cidade e até que horas fica aberto*.” “Foi você quem escreveu isso?” “Não”. “E que tal se eu escrevesse A história do amor ** ?” “Esse livro já existe e você já o leu três vezes!”. “Se minha personagem se chamasse Bernice *** ?” “Que nem a de Fitzgerald?”. “Eu só queria escrever bem, e continuar sendo comum.” “Mas, isso tudo não é plágio?” “Não se trata de plágio, e sim da assimilação de influências de todas as latitudes que gera novas linguagens, algo que Oswald de Andrade desenvolveu com argúcia em seu ‘Manifesto Antropofágico’ **** “ “Isso é seu?” “Não, não é... é de Milton Hatoum!”

Todas as histórias já foram contadas.
E as melhores estão por vir; não escritas por ela.

Na página 30, ela quis ser Lúcio Cardoso. Antes de transcrever para o caderno todas as palavras que poderiam ter originalmente saído de suas idéias, pregou o retrato do Homem da sua vida no peito, sob a blusa, pois, só assim, ele estaria mais próximo de seu coração; isso seria o mais perto de “dentro do meu coração” que ele chegaria. Então escreveu (entenda-se transcreveu): “Como explicar a angústia que aquela atitude me causava, o modo repentino com que ela se afastara de mim, e mergulhava nessa distância que absorvia de um modo tão completo – vivendo que reminescência, que saudade, ou que imagem pungente que jamais lhe abandonava o coração... “

Todas as histórias já foram contadas:
De uma menina que escondia os sonhos nos papéis;
De uma Modelo que queria ser uma escritora famosa;
A história sobre uma decisão de um homem e o fim de milhões de sonhos;
O nascer de uma família;
A história do rapaz que parecia idiota, menos pelo que dizia que pelas roupas que vestia;

A maioria das histórias já foi contada:
A história da menina que queria escrever histórias, vencer na vida escrevendo histórias, enxugando assim todas as suas preocupações, aquelas que quase a afogaram durante toda a vida, e que de tanto tentar secar seus exageros, que, na verdade, faziam parte do que ela, aos 25 anos, ainda chamava de sensibilidade, descobriu que ser sentimental, ou exagerada, é quase afogar, também, quem chega por perto. E como ela não sabia produzir nada, objeto ou metáfora, que salvasse as pessoas do tal “afogamento sentimental”, resolveu, decidiu que:
Esconderia-se em si mesma: timidez
Não demonstraria seus afetos: gastrite
Um dia aprenderia que viver sozinha não deve ser pior do quer ser tímida e ter gastrite.

(Notas para o começo, ou para o fim do livro)

Porém, antes de qualquer página a mais, ou rasgada, ela sabia que sua vida não caberia em 365 páginas, nem terminaria com o fim de um livro. Só precisava começar, cedo ou tarde, mas não necessariamente na página primeira.

(Notas para qualquer página)
Meu nome é Guba.
“Menos importante que Macbeth, e mais poderoso. ” *****

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* Wood Allen. Sem Plumas. 1972.
** Nicole Krauss. A história do amor. 2006
***Fitzgerald. Bernice corta o cabelo. 1922
**** Milton Hatoun. Revista Entre Livros. 2007
*****Shakespeare, Macbeth. 1605

Enquanto o amor não vem a gente brinca de ser feliz assim:


Em São Paulo as terças são insanas porque eles, da Terça Insana, são exceletentes; aqui a gente se conforma com os vídeos

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Dona Edith



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Betina Botox



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Maura Emília



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Sheila



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Irmã Selma



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Leila



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Xanaína



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Cinderela



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"É toda minha!" (20/06/06)

Fui chegando com olhar de esguelha; costumava olhar para tudo, fosse mais ou menos interessante; assim, sem nenhum interesse grandioso de querer tornar momentos curtos por um tempo incalculável. Entrei dobrado na sala de aula catando os pensamentos que me escapuliam nos resmungos de rapaz indecifrável.Sentei-me estranho, quase anulado diante de pessoas que me pareciam mais gigantes agressivos, que gritavam suas alegrias despreocupadas como se o mundo fosse resumo de tudo o que era dito. Clareei a vista quando olhei insistente para aquela que passaria a ser dona de meus clichês: menina mediana, que deixava escapar sua euforia de quem acredita em alguma coisa maior do que si mesma.
Um homem deseja o possível, e o impossível; arde em algum lugar de suas certezas aquilo que precisa ser satisfeito, saciado, devorado com furor e/ou pressa. O desejo se renova; transforma-se com o tempo, com as diversas experiências; o desejo propicia experiências; permite o bem; torna possível alegrias incalculáveis. Sorrisos explodem; faíscam os corações; verdades tornam-se eternas, e tudo parece um fato explicável: desejou e conseguiu.Tentei realizar o que desejava. Fiz de mim o que nunca fôra. Resgatei, inexperiente, minhas posições másculas, dignas de menino que pode um dia chegar a ser adulto. Resolvi não colocar o coração aonde não pudesse ver; nada de grandes distâncias; além do mais os 20 minutos que me separavam dela nada significavam. Não virei meu olhar concentrado para mais ninguém, para nenhum outro lugar qualquer. Fiquei parado; sem sentido piscava os olhos marejados; nunca conseguiria explicar minhas maluquices espontâneas. Engolia o choro como quem engole qualquer coisa que faz bem. Sorri por 2 anos de forma condescendente mas sem paixão declarada. Erámos duas particularidades: um absurdo querendo alguém diferente de tudo que já tinha visto.Ela fez-se de desentendida pelos dias que convivemos; abriu as portas de suas feminices para homens especiais, obedientes e interessados. Eu enganava-me no que poderia restar das escolhas dela; às vezes achava que passaria o resto da vida sendo a escolha dos outros, nunca as minhas.Como achar-se, irremediavelmente, tão pouco e pequeno, e construir a imagem de alguém que se quer de uma forma tão perfeita e intransigente?Um homem vive de faltas; precisa preenchê-las; recheá-las com suas vontades que borbulham; desejos de corpo, de platonismos; de universos inteiros, de detalhes comuns; de razões sórdidas; de sabores particulares; do que gostaria de ser; do que não é.Eu sabia que certas coisas na vida eram inatingíveis; não era propriamente pessimista mas sabia portar-me no mundo com dignidade; e nunca diria, consciente e certo: "É toda minha!"