Ver o vídeo.
Sentir a música.
Depois, ler o texto ouvindo a música.
No fim, uma suposta tradução da canção... e do que eu sinto. A quem interessar.
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Aimee Mann/
Wise Up/
Filme: Magnólia
Catástrofes começam por dentro
Precisaria de algo mais concreto pra percorrer esses mil passos. Nós precisávamos não pensar mais “Esse amor, essa esperança não vai pagar nossas contas, vai?”. Já não arrumava mais meu cabelo, nem escrevia para fazer mágica, não quis aprender inglês pra entender o que é wise up, e todos os meus pequenos gestos pareciam apenas... pequenos gestos. Sentia a vida cada vez mais encardida, como se só precisasse de um banho. Mas éramos dois, que nunca se somavam.
Pus-me diante de um deserto imenso de falta disposição; e as cortinas de fogo se abriram para que o espetáculo de existir tivesse início. Eu suportaria o calor, a poeira que subia pelas narinas, misturando-se com minhas parcas idéias, determinando um novo fim. O sol não me arrastaria dali, e quando a lua chegasse tudo já estaria acabado: eu teria simplesmente desistido. Não era o fim. Talvez existisse outro lugar para nós, mas soluções que viessem depois não me serviriam de consolo.
Abri os olhos: saí do deserto, que sempre visito ao fechar os olhos. A vida ainda era irremediável. Segurei, então, a caneta, e rezei – eu ainda conseguia – para que todas as respostas saíssem como milagre. Talvez um acordo com o destino. Ou um roteiro imprevisivelmente digno. Ou apenas um contrato de vida calma. Ou o Livro da minha vida. E nada. Não era raiva que eu sentia, era como se aqui dentro todas as células que acreditavam na minha vida estivessem desistindo também, uma a uma, como se a vida de dentro não chegasse mais à superfície, e eu precisasse apenas descansar. Por fora eu sabia que era outro: mais uma ruga no canto dos olhos, o mesmo desconcerto com os braços, a mesma impaciência nas pernas, e a falta de iniciativa ainda era clara e reconhecível quando eu piscava os olhos e expirava e inspirava “calma ... 1... 2... 3... calma!”.
A caneta esperava minhas ordens. Entra a loucura e o amor, entre a falta de novas palavras e os clichês desgastados, entre a dor de começar de novo e o fim das experiências difíceis, comecei a escrever no corpo, dizendo “Enquanto houver tinta, enquanto houver tinta”:
“It's not.. what you thought...
Não alcançava as minhas costas, e lá havia espaço, mesmo que ninguém nunca mais me visse nu, quando começasse a caminhar meus mil passos. Mamãe chegou confusa, com os olhos de quem precisa entender mais o filho, segurou a caneta e recomeçou:
“You're sure... there's a cure...
Não era a música que saía de nós, era um desejo imperioso de reverter tudo, de que a vida fosse mais limpa, de que nossa alegria brilhasse tanto que todos ao redor sentissem fome de nós dois, de querer entender como alguém consegue ser tão absurdamente satisfeito. Parecia que a música sempre fez parte daquele quadro; se alguém entrasse ali, talvez nem percebesse, durante uma conversa sem pretensão, enquanto mamãe escrevia em mim aquelas palavras, que nós cantávamos sossegadamente, com um meio sorriso, por uma meia vida. Não havia cheiro, não havia cor, nós nos dirigíamos para a neutralidade; só havia música, a mesma música, em todo lugar, e agora no corpo, meu corpo, que já estava em carne viva, e a voz apropriada de mamãe me dizendo que estava acabando, e a música entrando e saindo.
Nosso olhar era de fim de grades tentativas; como se tudo fosse só música; olhos hipnotizados, o amor que se tornou mecânico, e o sofrer que se tornou natural, até parecia, tudo acontecendo daquele jeito, que na vida todo mundo nasce com uma flor-de-sofrer no peito, esperando a primeira derrota, a primeira lágrima, a decepção reveladora, para que a flor, então, pétala por pétala, mostrasse a cada um o que é a vida.
No resto do corpo as palavras continuavam, deslizando:
“Prepare a list for what you need,
Não dei o primeiro passo. O coração estava como sempre, no mesmo lugar, e sem vontade de ganhar nada. As mãos não escreveriam como antes. E ainda precisava de um banho. Sem metáforas, só um banho, ou um movimento que não assustasse, que me tornasse menos apavorado, que me devolvesse a música, ou o prazer de entender todas as frases que um dia escrevi.
Na palma da mão esquerda, as últimas palavras daquela música, que paralizara nós dois, eu e mamãe:
“No, it's not going to stop,
E por fim, sem entender quase nada, somente, talvez, de não viver, eu fui dormir sujo de tinta, ouvindo a mesma canção; foi assim que mergulhei em busca de uma vida mais digna, de um mundo em que eu e mamãe coubéssemos, onde pudéssemos cantar juntos e nunca mais pensar em simplesmente desistir.
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Tradução
Se tocar






