"Poucos fotógrafos tem uma obra tão consistente e permanente quanto a americana Mary Ellen Mark. Suas imagens transitam entre o puro documentário e o momento autoral, muitas vezes numa fusão das duas posturas, ambas com excelente resultado. Tal afirmação pode ser vista neste seu último livro "Exposure", que reúne de maneira impecável o melhor de sua vasta produção.

Mary Ellen Mark nasceu em 1940, na Philadelphia e fez suas primeiras imagens na Turquia, quando era bolsista pela Fulbright Fellowship, em meados da década de 1960. Em 1964 se formou em pintura e história da arte, mas, dois anos depois fez seu mestrado em jornalismo. Seu trabalho começa a aparecer nas páginas das revistas mais importantes. Igualmente para os livros, já em 1981, com a publicação "Falkland Road", retratando os bordéis de Bombaim, que fez no fim de 1970.
Também estão reunidos em "Exposure", imagens de outras publicações pelas quais a fotógrafa foi mais que aclamada nestes 40 anos de profissão. As fotografias de "Indian Circus" por exemplo. É uma edição fascinante onde o retrato é elevado ao maior status, trabalhado de maneira singular tanto na técnica quanto na composição, transitando do formato pequeno ao grande.

Ao percorrer os diversos circos da Índia, num projeto patrocinado pela Kodak, Ellen Mark e seu marido, o diretor de cinema Martin Bell, convidaram o escritor John Irving para escrever um roteiro. Irving ficou tão impressionado com os personagens reunidos por ela, que estendeu sua permanecia. O resultado foi um romance divertidíssimo chamado "A son of the circus" (Ballantine,1994). Quem tiver a chance de ler sua obra, e também ver as imagens dela, com certeza não se arrependerá.

O casal não parou por aí, e também fez o filme "Streetwise". Seu livro homônimo, de 1984, baseado em uma reportagem que produziu em 1981 para revista Life Magazine, onde documentou a vida de adolescentes de rua em Seattle, numa narrativa extraordinariamente humana, sua marca registrada.
A fotógrafa tem a capacidade de extrair as mais profundas emoções de seus fotografados, com distância saudável da excentricidade e da pieguice. Weston Naef, curador do J.Paul Getty Museum, de Los Angeles desde 1984, escreve que "Sem literalidade, mas completas de compaixão, suas fotografias traduzem o trágico, o engraçado e o inigmático, e as vezes, as três coisas junto". O livro também contém imagens do premiado "Ward 81" de1979. Por dois meses, a fotógrafa viveu na ala das pacientes femininas, num hospital psiquiátrico de segurança máxima no Oregon. Mais do que comovente, o livro é uma celebração a vida. A idéia do livro e documentário, surgiu quando ela fez as fotos de still para o filme 'One Flew Over the Cuckoo's Nest', de 1973, que no Brasil teve o título "Um estranho no ninho". O envolvimento da fotógrafa com o cinema foi sempre presente. Fotografou até filmes do grande cineasta Federico Fellini. Um de seus stills para o diretor italiano está em Exposure e também foi publicado no Livro "Magnum Cinema". Ela é membro da famosa agência há anos. De seu trabalho humanitário com Madre Tereza de Calcutá, suas celebradas imagens dos homeless americanos, seu registro permanente dos personagens exóticos americanos, seus documentários sobre os desardados justificam seu lugar no topo da lista dos melhores documentaristas contemporâneos e dão a Exposure lugar de destaque em qualquer biblioteca que se preze."




Site: Mary Ellen Mark


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Fonte: fotosite.terra.com.br

Juan Esteves: fotógrafo e crítico de fotografia
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Como soletrar "Meu mundo preferido está morrendo" ou "Loucura não se apaga"

Eu não sou louca. Fui diagnosticada como tal, e posso dizer que ficou estampado na minha cara para o resto da minha vida, como dois vezes dois são quatro, e ficar de quatro é tomar na bunda.

- Seu doutor, eu só acordei achando que podia fazer alguém feliz.

Num dia imenso, impregnado de mim, um dia qualquer, portanto, acendi a ponta do dedo indicador e fiz mágica modesta: qualquer amor simples poderia fazer parte da minha vida, num desenho de luz, que ganhava forma em qualquer parede. Com o mesmo dedo, num operação inusitada, meu peito, sem derramamentos, sem perder-se, foi colocado na mesa, pura e simplesmente; um bichinho vivo, sem uma palavra a declarar, batendo, batendo, com sua qualidade de bom operador, quatro aberturas, entradas e saídas, vermelho de falta de ação para a vida, deixando de dividir o espaço do peito com alguns infortúnios. Meu primeiro grande ato.

Se é de família meu mal? Que mal? Olhe, seu doutor, mamãe, que vivia cedendo em empréstimos o verde dos olhos para outros olhos menos apreciáveis que o dela - olhos castanhos e pretos, por isso tristes, segundo ela - nunca estranhou meu dedo erguido, brilhando feito estrela inventada de sonho de criança a operar meu animal de carne viva. Ela sempre passava ligeira declarando amor eterno e trancava-se no quarto. Dizia que não queria se comprometer com aquela doidice toda. Meu pai? Era um labrego escroto, que nem sabia apreciar os sonhos que tinha; morreu quando eu era criança ainda ao me ouvir dizer "Pai, tem umas vozes me dizendo que o senhor não vale uma Cibalena vencida!". Desgosto. O senhor, seu doutor, já morreu de desgosto? Nem eu.

- Isso é grave, seu doutor?
- Psicose, filha. Tá no CID-10!
- Doutor, esse Doutor Cid sempre tem certeza das coisas? Não há possibilidade de equívoco?

Equívoco. A palavras mais madura e bonita do vocabulário que me foi apresentada quando eu ainda era pingo de gente. Não pelo que expressa; é só pelo som, pois foram os sons que primeiro amoleceram os meus domínios.

Ah, se meu coração pudesse explicar pr'aquele doutor que não é maluquice inventar a própria vida ou um amor saudável, que eu não tenho medo, de vez ou outra, falar sozinha, fazer coração de papel com anúncios de "Procura-se alguém que brilhe a ponta do dedo indicador direito", ou gritar com os olhos de dentro daquela cela.

- Você ouve vozes?
- Ora, doutor, quem não ouve? Nem sou surda.
- Não, minha filha! Você ouve vozes na sua cabeça, dentro dela, sons que vem de dentro, quando mais ninguém está por perto, vozes desconhecidas.
- Sim, isso sim. Na verdade, e desculpe minha estupidez, mas isso chamo de pensar as vozes que ouço... acho que penso as vozes.

Doutor, deixa eu te contar. Posso dizer assim "Te contar", né? Afinal, somos tão chegados um do outro, e nem se preocupe que ninguém vai saber o que se passa nessa sua cabecinha que eu leio há cinco anos. Mas, hoje, amanheci querendo ser o melhor sushi do planeta mergulhado num molho-de-amor-shoyu. Você já virou sushi por um dia?. Garanto que é bem melhor que estar morta, porque é assim que eu vivo: como comida animada na boca de quem eu amo. Nenhum problema nisso. Nenhum. Nem parece que sou mulher de comer coisas desse tipo ou amar um homem, não é?

Porém, é a tristeza que nunca mais me deixou gritar; uma tristeza importada, com nome farmacêutico, que fez abrandar tudo enquanto era luz nos meus milhões de poros. Sabe por que? Enfiram algum medicamento no meu rabo, sabia? Fizeram todos aqueles meus sonhos morrerem um pouco; um pouco a cada dia, a cada dose, uma morte por dose. Logo no dia que eu ia ser Hittler vestido de branco e assumir todos os meus erros.

Já fui o sonho das pessoas do mundo todo, menos o de quem eu sempre quis. Não digo o nome dele, doutor. É que se eu pronunciar acontece mágica na certa: Ele desisti de si e vai viver inteiramente pra mim; e detesto homem fácil. mas era naquele mundo que vivia uma mulher saudável, que perdeu a sanidade quanto teve que engolir medicamentos, humilhações, falta de respeito, e minhas verdades: Tudo sem gostinho de novo carinho e bons tratos.

O agravante dessa situação, portanto, digo-lhe sem receio, pois o diagnóstico me condena desde sempre, é que sinto, com leveza e precisão, os toques de um homem; um toque fino, conformado, de um amor sem escândalos, de cores modestas, que faz uma chama morna vibrar em cada poro. E pode até parecer exagero - o que me importa, já que é loucura o que me habita! - mas parece que em cada poro sinto uma fagulha de amor, um pontinho de bom sentimento, que se propaga, se alarga, como cheiro bom; se no meu corpo existem um milhão de poros, confirmo ao senhor que acontece, um milhão de vezes, o nascimento de um querer sem explicações. Não é só o toque, a ponta dos dedos em sabor concentrado, que me faz saber que tudo é provável naquela minha realidade, mas também o som que aquele toque ocasiona, um riscar de lápis solerte em papel virgem, um rangido fino de acordar para a vida, música de letra única, melodia de amor eterno; chega a ser doce, se não fosse maluquice ser tão cinestésica. Se me assusta isso tudo? Não. O que me assusta é a sua incompreensão.

Não me julgue pelos risos debochados, doutor; vou fazer o quê, senão rir desse mundo que me foi impedido saborear, soletrar... o senhor já tentou soletrar "Meu mundo preferido está morrendo"?

Sim. Eu ouço vozes; sinto doce e salgado quando meu julgamento tende para "bom" ou "ruim", respectivamente. Já fui homem e mulher, transei comigo mesmo, comigo mesma, empreei de meu próprio desejo, fiz brotar dos olhos o repúdio pelos que me condenam, e cuspi seus medicamentos como quem saliva fogo no auge da raiva acumulada: Filha abastada de mim.

Como eu me sinto, hoje?


Morta. Mortinha da Silva. Mortinha da Silva Sauro. Dinossaura, eu? Por que não? Milhares de anos aqui explicando pro senhor o que eu sou. Só não me diga que sou verde e que meu rabo é grande. Grande mesmo é a loucura - agora sim eu sei - que nasce da certeza de querer fazer um homem feliz. Feliz apenas. Eu escandalizo, às vezes, só pra mostrar que há vida no fundo do que resta de mim; e isso não é feio. Ridículo mesmo é não querer ouvir o que tenho pra dizer. Agora, com vossa licença, partirei para a luta pois me aguardam os medicamentos, e o homem da minha vida também me espera, para ser querido e me fazer menos louca, se possível. É isso que o senhor quer ouvir, não é?

Só vocês aí do outro lado não vêem. Mas, ele vem. E sou boazinha-da-Silva-Sauro da cabeça.




Isso siiiiim merece um COF-COF-COF:

http://www.cocacola.com.br/cokering/ganhadores.jsp


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Quando passar a euforia coloco um texto decente!
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Discurso?

Se eu soubesse fazer...

Eu pareço pretensioso se digo que me dou bem com as palavras, mas é que elas estão mais vivas em mim que qualquer outra coisa. Foi assim, e por isso, que resolvi criar o blog, e participar desse concurso.
Claro que entrei pelo prêmio, afinal uma câmera digital é UMA CÂMERA DIGITAL (Estúdio Fotográfico portátil HP Photosmart & Câmera Digital HP Photosmart M425... COF-COF-COF).
Não posso dizer que estive aqui sozinho... sempre teve muuuita gente fazendo esse blog ganhar vida, e é tanta gente, tanta gente, que é melhor nem arriscar colocar nomes(eu, sinceramente, não dou muitos créditos à minha memória, jamais!).

Quem entrou sem saber, quem entrou e gostou, quem entrou só pra reclamar e se achar superior e se perguntar "Se ele consegue por que não eu? Ahhhhhhhh-ah... por que não euuuuuu?", pra quem votou, e encheu o saco dos amigos fazendo a propaganda do blog no orkut: O PRÊMIO É NOSSO. Mas vamos com calma; vou listar as pessoas, e elencar a ordem de quem vai usar a máquina. MENTIRAAAAAAAAAAA: Ela é toda minha!

Brincadeira.

Nem sei como tive tanto saco... sem pc em casa ficava difícil ter que atualizar tudo no trabalho ou em lan house, mas quem tem amigo precisa mais do que? EXATAMENTE... De uma Câmera Digital.

Promero continuar com meus textos... pra quem gosta!

E agora com fotos! Raaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!



E fotos, pra que te quero!



Contextura

Era a pressa, não o amor, que a fazia correr daquele jeito. Desatenta. Olhos sem voltar-se para outros detalhes, nada que não parecesse com Jorge a faria recolher-se na sua significância, e ela continuaria firme atrás dele.

Bem que ele podia, de uma mágica coincidente, um suspiro de decisão, luz em fagulha dentro do homem, entrar na mesma loja que ela, e talvez assim a distância de trinta passos que os separava diminuísse.

Qualquer um que olhasse para Fábiah diria que aquilo que impregnava seu caminhar, sua decisão de pernas, era ferocidade, não amor; pressa, não afeto.

Descuidada que era, Fábiah foi detida, sem perceber, quando a cabeça olha pra trás, divagando, e quando retorna tudo o que tinha de acontecer aconteceu: uma porta, coberta e recheada de ferro, maciçamente segura, abriu-se, permitindo que os homens da transportadora libertassem os produtos; foi aquela porta aberta que interrompeu a perseguição da moça. Uma porta é apenas uma porta, quando bem manuseada; num acidente, porém, uma porta pode rachar uma cabeça. Primeiro o olho esquerdo fora inundado, depois todo o líquido grosso lavava o corpo trôpego, intensamente, um rio que corria da cabeça a ponta dos pés, o naufrágio de seu amor apressado num mar de sangue. Nem sabia mais onde pisar : “Jorge? Que Jorge? Tonta. Barata tonta. Barata, eu? Meus pés... cadê?... meus cadernos... a carta... morri?”; e os pés leves, o corpo mole, a vida fácil, transida, calma, filha única, emancipada: tudo em denúncia ao descuido de quem não sabe abrir portas pesadas.

Fábiah perdeu o ritmo, e seus líquidos molhavam os pés dos curiosos que vinham sem ajudas ou cuidados nas mãos; tudo era uma acusação: a denúncia de um amor desatento, de passos despreparados. Perdeu o fio da meada. Era o fim da linha. Ou apagava-se ali um traço qualquer de possibilidades.

Jorge nunca receberia a carta que a moça acidentada escrevera, falando de tempo, de amor, narrando-se:

Querido,

Bem sei que você sabe que meu querer é antigo, que junta poeira aqui dentro há quatro anos. O tempo vai passar mais ainda. Eu vou descobrir minha significância no amor de outro alguém. Algumas aranhas tecerão o que é preciso na nossa casa que nunca vai existir, e elaborarão suas teias para enfeitar nosso amor desacontecido.
E você não vem.
Não vem pra me dizer que seu futuro também é o meu, mas nunca vice-versa.
Não vem para que inventemos nossa brincadeira, nossas graças, de sábado: sumir do mundo e acontecer em dois.
Mas, você não veio.
Não vem.

E o amor, que vivia pelas bandas de cá, envelheceu; desenvolveu um Alzheimer misterioso e filha-da-mãe, que me faz, nessa agonia cinzenta, tentar lembrar porque um dia eu te quis tanto.

Sua Fábiah,

Que viverá para sempre!”


Até que uma porta os separe.


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Fonte: Cinema com Rapadura
Filme: The Science of Sleep, 2006
Gênero: Comédia - Drama - Fantasia
Duração: 105 min
Origem: França
Estréia - EUA: 22 de Setembro de 2006
Estúdio: Warner Independent Pictures
Direção: Michel Gondry
Roteiro: Michel Gondry

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Enquanto a inspiração não vem,

os outros falam por mim:



Jonathan Safran Foer





que diz:

"Não estava na minha mente - falando sobre seu novo livro Extremamente alto e Incrivelmente perto, seu segundo livro, que trata sobre o 11 de setembro. Nada do que escrevo é algo que estava na minha mente antes. Eu sempre escrevo para descobrir o que está na minha cabeça. Nunca tive um plano, um esboço ou argumentos. Eu apenas me sento e através do processo, as idéias vêm. W.H. Auden dizia: 'Vejo o que escrevo para saber o que penso'. Eu prefiro desta maneira, porque se você tem idéias e as escreve não é nada muito especial. Mas através da escrita você pode descobrir sobre o que está pensando.

(Entrevista cedida ao Portal Literal, em 24 / 08 / 2006, quando o autor veio ao Brasil participar da FLIP.)



A morte alheia e o milagre de Maria.

Num dia fechado qualquer de agosto, o céu sempre imenso e preguiçoso vestia cinza. Maria, pequena e ajustada, sentava-se presa à mesa com a família. Dominada que estava, toda branca, com essas cores que uma criança pinta-se sem querer - qualquer mínimo de atenção e todos a perceberiam de fato – ela era monte pálido de carne menor, uma criança de 12 anos, um traço de gente e dúvidas, a pensar: “O que eu quero da vida?”.

Os pratos fundos, cheios; os talheres dançavam pra cima e pra baixo, riscavam a profundidade dos pratos, provocando um quase gemido que só pratos e talheres fazem quando se encontram. As bocas rápidas consumiam com prazer, e Maria, habituada que vivia só em si, observava o momento da família mergulhada no grande mistério que era odiar e comer ao mesmo tempo: a mãe geniosa, seca de mais afetos, odiando o pai, que respeitava a família, mas não abria mão do jantar, nem largava o pernil; as duas tias, absurdamente desprezíveis, comiam ameaçadas, presas num transe (qualquer um que muito aprofundasse na observação nunca mais voltaria delas); as irmãs mais velhas arrastavam-se pelo mundo com uma beleza invencível, largadas, com uma arrogância deprimente, flácidas e fáceis: carne pra qualquer prato. Maria piscava os olhos, passeava com a consciência pela mesa tentando fotografar um novo detalhe que a salvasse, que a fizesse acreditar na família, ou seja: que o pai a amava, que a mãe nunca mais a chamaria de inútil outra vez, que as irmãs a convidariam para viver de verdade construindo uma casa na árvore, e que as tias seriam menos feias.

Mas como uma menina de 12 anos conquista o mundo?

O céu, que naquele dia era cinza, pareceu mais próximo, e em bondade, abriu-se para Maria; e o sol, parte dele apenas, o necessário, caiu sobre ela. Reluziu nos olhos, encontrou a passagem secreta de quem quer mudar de vida, ou família, fazendo-a imensa, de braços abertos e erguidos, com alegria dourada, a boca a absorver a verdade do sol, e ela respirava, enchia o pulmão de qualquer coisa que não fosse raiva, ou aquele ódio que ela aprendera. Era a interrupção do sofrimento, e Maria sentiu-se com força a interrupção, não mais sentindo sua raiva queimar aquele momento: a descoberta do novo amor refez-se num único golpe: Maria era feliz do seu jeito. Nunca mais o silêncio acomodar-se-ia entre eles como um terceiro ente, pois Maria partiria para o mundo, para encontrar o barulho desse mundo que alegra uma criança.

Aprontou o cabelo ainda sujo, arrumou no braço as fitas velhas de sempre – vermelha, amarela e preta – que ela achara largadas perto de casa, abandonadas por quem não quer mais tanto colorido no braço, segurou decidida a mochila de uma das irmãs, e sem dificuldades, como brisa que sopra assim leve e solta, desprendida, sem destino, Maria partiu. Nunca mais a inutilidade aparente daria notícias; ela poderia, sim, dizer “não” quando bem quisesse, sem mistérios: era só abrir a boca em calma e compaixão, deixar brilhar no coração o sol que ela deixara entrar antes, e ser guiada pela verdade. Verdade que brotaria obstinada, numa distração luminosa. Nesse momento, do sol no coração, da verdade dos lábios, da fuga, Maria inventaria a vida dos outros também. Não dos que viviam ainda, porque esses poderiam muito bem começar a viver.
Inventaria a vida dos mortos? Sim. O que seria arriscado para ela naquele momento? Talvez tirar essas pessoas de sua vida seria arriscado, visto que seria um ato de incompreensão. O pequeno milagre de Maria aconteceria então: “Afinal, quantos milagres as pessoas acham que uma menina de 12 anos é capaz de fazer?”.

Maria começou a morar em outro lugar. A 200 metros de casa. Noutra casa; na árvore. Praticamente um mundo novo, onde ela poderia ritualizar o momento de dar vida aos mortos do dia: Abria o jornal, fechava os olhos, abria a mão e a colocava sobre o papel velho, passeando a mão sobre o jornal esperava sentir a escolha certa, para então baixar o dedo indicador e apontar o falecido que teria outra vida com seu milagre: Antônio Mendes Pádua. 32 anos. Morrera de ataque cardíaco. Zelador de escola municipal.

Agora ele seria um homem importante, rico, bem rico, desses que pode quase comprar o mundo inteiro; dono de uma fábrica de jujubas-coração. Teria um casamento de 20 anos, com solidez.
A história de Antônio segundo Maria:
Conheceu a mulher da sua vida num dia qualquer, dizendo um “oi” normal, enquanto caminhava desconsolado, segurando, com a mão direita bem fechada, um bilhete que dizia “Prometo nunca deixar você morrer um pouquinho todo dia”, que ele entregou para a mulher mais linda que as esquinas da vida guardavam para um homem sem muitas perspectivas e com um sonho de casar e vender jujubas-coração. E ela, a mulher da vida e da esquina, chamava-se Tina, e disse, audaciosa, numa alegria sofrida: “Intenso isso de aceitar suas propostas assim tão rapidamente”. Depois, juntos, anos depois, eles escreveriam em bilhetes vivos, grudados nas paredes da casa, a cada data que celebrasse a união do que eles eram: “Qualquer esquina é digna do nosso amor”. E eles nunca morreriam. Nunca.

Maria, realizada, arrancava a folha do caderno, como que saciada, guiada por um mistério aos 12 anos de fazer viver tudo que morre, procurou o túmulo de Antônio Mendes Pádua. Depois da busca, o achado: o tesouro quieto da menina estava ali, a sete palmos, num cemitério abandonado pela beleza, onde o mato crescia sem propósito, sufocando Antônios, outras Marias, Ricardos, Amâncios, Penélopes, Romeros, Josés, Honórios, dobrando-se em reverência ao segredo que é morrer e viver em silêncio num lugar daqueles.

Maria ajoelhou-se; aprumou o corpo pequeno, continuando branca; sem desabar, perder a pose de quem tem a vida dos outros na palma da mão, Maria colocou o papel, com a história de Antônio, por cima do mato; afastou alguns insetos, pedindo respeito, e com os olhos vivos, o coração aonde nasce o sol, com a boca que planta a verdade, ela disse:
- Você vive a partir de agora... para sempre, e feliz.

Assina: Maria, a menina que você nunca ouviu falar.

Para sorrir e desapaixonar!

Boas risadas... pra quebrar o clima de pseudo-contos, pseudo-arte, pseudo-cultura, pseudo-intelectualidade, deste humilde Coke Master...cof-cof-cof ... digo "blog"!

___________ Notas para desconsiderar até o próximo texto_____________

Para quebrar o clima de paixão e desespero, e esse querer amar sempre presente - como nada mais na vida importasse, inclusive meu emprego e minha saúde - apresento-lhes Mohammed Rafi e seus "dançarinos" adestrados.
Não que os seus comparsas sejam exímios dançarinos; é que tem a gorotinha que se destaca. A moça vestida em um lindííííííííssimo vestido dourado, cheia de babados e outros excessos, que vocês, se bem observarem, saberão do que falo: ela não se dobra, ou tem flexibilidade como as dançarinas de verdade tem; atentem para os movimentos dessa reluzente pessoa a partir dos 2:21 min do primeiro tempo até o seu ápice coreográfico aos 3:27 min, quando ela deixa de ser simplesmente "bonitinha" e sofre um ataque epilético ou um orgasmo super-valorizado ou um gozo máximo e transcedental: é uma tremedeira, os braços rijos, dobrados, em movimentos compulsivos, que deixam de ser engraçados e metem medo.

Talvez ela seja a sobrinha do Mohammed que não deu certo na vida; talvez o nome dela seja Ana Bela Insha-lá; mas, talvez, ela só queira se divertir.

Excelente fim de semana!

Este tem uma participação por demais "significativa" no filme Ghost World. (Ótimo)


E com vocês ANA BELA INSHA-LÁ!

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"Eu vejo a verdadeira vocação do escritor em sua atividade ininterrupta, em seu contato com pessoas dos mais diferentes tipos, acima de tudo e especialmente, com pessoas que menos atenção despertam - , que não se deixa mutilar ou atrofiar por nenhum sistema".
A vocação do escritor, 1976
Elias Canett (1904-1994)


Então: Pernas, pra que te quero!
Ou mãos à obra!
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Fonte: Revista Entre Livros, n° 23 - março/07.
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Porém: Deixo com a palavra o Prof. Pasquele Cipro Neto, explicando a tal de "Pernas, pra que te quero!":

O dicionário dá várias expressões da língua em que entra essa palavra: "perna de pau", "bater pernas", "desenferrujar as pernas" etc. O "Aurélio" dá também, é claro, a conhecidíssima "Pernas, para que te quero!", com a seguinte definição: "Fam. Exclamação (gramaticalmente incorreta) que indica a ação de fugir correndo ante um perigo.". O "fam." significa "familiar", ou seja, indica que o uso da expressão é da linguagem familiar, cotidiana. No "Manual de Redação e Estilo", escrito pelo querido amigo Eduardo Martins, também se encontra observação semelhante: "Mesmo gramaticalmente incorreta, é essa a forma da locução popular". Na verdade, Martins registra "...pra (e não "para") que...", o que torna a expressão mais próxima do padrão popular.

Por que "gramaticalmente incorreta"? Por uma razão muito simples: "pernas" é plural; "te", singular. O falante dirige-se às pernas, "conversa" com elas, mas lhes dá forma de tratamento do singular ("te"). Aí entra a observação, no mínimo hilariante, do dicionário de Caldas Aulete: "A expressão 'Pernas, para que vos quero!', que seria gramaticalmente correta, não tem uso". Já pensou? Um baita tumulto, ladrão de arma em punho, e alguém grita: "Pernas, para que vos quero!".

É claro que no lugar de "vos" seria possível usar "as": "Pernas, para que as quero!". Que tal? É como imaginar que alguém que acaba de ter a carteira surripiada saia atrás do ladrão gritando "Peguem-no! Peguem-no!". Vai gritar mesmo é "Pega ele! Pega ele!".











Curto e grosso (mais grosso do que curto)


Esse seu sorriso meia boca brilhou feito sol de meio dia. E foi dele que tentei fugir: desse seu amor recente.
Isso é o que eu chamo de tapar o sol com a peneira.







"Sim, sim, precisava de uma vida secreta para poder existir"

Clarice Lispector, O Lustre




Flor de Amor-Perfeito

Você vem em cor e flor, balançando de qualquer jeito, para qualquer lado, por qualquer pessoa vento-homem. Até brisa lenta e calma faz você pender para qualquer lugar. Você abre seus botões-de-amor, à noite, e quando o sol aparece corajoso, pela manhã, você esconde-se em flor, mas permanece com olhos vivos, arregalados, desejando jardineiros fortes, burros, que reguem suas qualidades.

Qualquer hora você deixa de ser flor em verde vivo e transforma-se em pelúcia, cheia de diminutivos; agora, forte. E quando a noite volta, você cresce, flor-de-sexo-forte, com botões para qualquer um. Quando veste vermelho vira rosa, quando tem fome vira planta carnívora, quando acompanha a luz dos outros vira girassol decidido, quando não me quer vira margarida improvisada; prende-se às terras alheias nos jardins secretos de homens importantes, que te oferecem jarros caros com adubo importado.

Venha, então, com ou sem paixão, deixe-me ser flor; abrace-me com seus ramos e pinte minha pele clara com o sangue que escorre de seus espinhos perversos. Aperte qualquer parte minha e quebre os ossos podres e os sentimentos antigos, deixe que tudo isso vire pó e adube o que nós passaremos a ser a partir disso: uma flor chamada Amor-Perfeito.

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Fiordes: quando da aproximação dos estreitos.

Com o desejo virtuoso de ler um livro, animar-se simplesmente, Ana entrou numa loja qualquer, sem saber que o destino lhe reservava mais amor e menos livros. Empurrou a porta de vidro com apenas dois dedos e concentrou os olhos na última prateleira; nem conhecia o lugar e já tinha preferências. Sala fria, com um homem a respirar as letras guardadas em centenas de livros. Com a cabeça decidida a livros Ana parou por um instante, e sem se perceber estava frente a frente com Daniel. Comprimiram-se: o peito, ou os olhos, ou as pernas, ou as mãos. Uma luz que escurece ao contrário, que absorve sensatez, numa tontura apreciável como se outro mundo se lhes fosse apresentado.

A música de fundo, Francisco Alves, engordou a consciência dos dois, envelhecendo-os por um momento, uma idade cruel acrescentou-se, algo que exigiria sacrifícios, e que, talvez começasse a esboçar-se como possível quando eles se movessem um em direção ao outro: um dedo, apenas um dedo. Sabiam, num movimento consciente, mútuo, limpo, encantamento doce, que todas as pessoas são esquecíveis, e a vida pode ser saborosamente um mar de trocas. Dali em diante ninguém do passado precisaria voltar e fazer parte de suas vidas, pois eles se substituiriam.

Comportaram-se como dois labirintos. Seria possível perscrutarem-se, invadir um ao outro, bastaria um movimento. Um dedo apenas. Mas, nenhum movimento a tornava mais humana, nenhuma iniciativa a expectava, talvez a deixasse misteriosa, visto que estava ali com os olhos de gasolina, claros, mergulháveis, agora alimentados pela música de Fernando Alves, bem nutrido-se; ela que sempre, sempre se satisfizera, equivocadamente, com parca comida, agora teria uma refeição respeitável e completa chamada arbitrariamente de “Meu homem completamente desconhecido”.

Nenhum movimento, porém.

A vida reiniciou-se nos pés frios, que sutilmente pareceram humanizados. Um coração, que só os dedos dos pés entendiam que existia, começou a bater, vibrar, e a vida, esta que deixa uma mulher absoluta, estabelecida, saciada de si, subia em golpes lentos, pela perna, depois pelo resto de suas indecências, e atingia os lábios duros, nariz detido em cheiro novo, as orelhas surdas de tanta discrição.

Por fora do instante, de seus conteúdos súbitos, o vento, com mesura, mexia, não em vão, alguns fios de cabelo de Ana. O cabelo animado movimentava-se em mechas encorpadas, autóctones até, posto que eram tudo que Ana era, viviam no espaço da moça; estabeleceram-se, as mechas, no meio do rosto dela, as fronteiras de um mesmo lugar, separando ela dela mesma. Agora, o que os afastava era mais banal que um mero receio livre de amar um desconhecido: uma nova oportunidade que flutuava leve, ordem superior para que Daniel, e só ele, afastasse os cabelos para as origens altas da cabeça de Ana, ou na boa colocação de compridas mechas, atrás das orelhas, iniciando-se assim o que era para ser a realidade deles:

- Você estava assanhada.

Ela entenderia. Perfeitamente. Mas, nada. Nem um dedinho rápido movera-se.

Pareciam reflexo um do outro: braços magros, sem definições encantadoras, movimentos sempre os mesmos, olhos acinzentados, esclerótica espalhada deixando o olho pura brancura, e um pescoço de encaixe excelente que asseguraria carinhos comedidos por uma noite inteira.. E eles não se iniciaram, por assim dizer.

Os dedos dela tamborilavam na coxa, na sua coxa, experimentando maciez, saboreando a si própria, num amor engraçado, já que era dela por ela, sem mais e outros desapontamentos.

Estátuas. Dois humanos num mistério, não novo, apenas honesto, bravo até; uma Medusa dos tempos de hoje e sempre, endurecendo dois seres sem pioneirismos, seduzindo-os, enrijecendo qualquer iniciativa que salvasse o dia de amanhã. Sabiam que se precisariam qualquer dia desses. Um dedo que se movesse e eles bonificariam o futuro um do outro.

Ana havia pago o preço justo pelo livro. Pagava tudo com justeza.

Daniel, antes de enxergá-la de verdade, apenas entendia que qualquer homem, sem esforço, deixa cair-se de bom querer por uma mulher como Ana, que presenteia amigos queridos e, com dedicatória diligente, escreve com letras redondas e anunciativas: “Faça-me existir e correr de vento em popa!”. Nenhum erro a mais na vida, seria essa sua promessa firme. Bem sabia que chegaria em casa queimando de tanto querer mais amor, colocaria o que fosse preciso na mesa (novas flores, velhos livros, cadernos encapados, revistas passadas, perfume barato, algum aparelho moderno que o abismasse), abriria as janelas, deixando o interior da casa respirar de novo, permitindo a intrusão do sol de fim de tarde anunciando noite recente, e manteria o coração no lugar, deixando-o bater pelo seu máximo e pelo seu mínimo. E se ela quisesse ver seu sossego, ele revelaria; ou sua cara lavada, seu modo de rio agitado, com fogo existindo em erupções em algum lugar no fundo: o absurdo ali tão próximo dela.

Não poderiam deixar os olhares perderem a força.

Nenhum dedo se movia. Eles correriam sempre que possível um para o outro algum dia - era de entendimento secreto e mútuo - sempre que achassem que o abandono umedece de tristeza os olhos. E quando a vida estivesse resolvida dormiriam tarde, acordariam cedo, carregariam pelo resto do dia o sono, o cansaço, areia nos olhos, desregulariam todos os relógios de suas vidas, deixando o futuro pra depois: a filosofia de um amor vagabundo.

Assustados, quando o primeiro brilho recíproco de seus olhos quase os acordara daquele momento encoberto, pensaram que tudo era silêncio entre eles, ou simplesmente concentração. Não era. As feridas poderiam romper-se, derramar qualquer líquido grosso, e ainda assim estariam mergulhados um no outro. Um amor delambido; uma agonia certa; um receio de que outrem, cheio de absurdos e incoveniências, mesmo que só quisesse saborear um livro como ela, entrasse e quebrasse o instante mencionando o que para eles era perceptível mas amedrontador: “É amor isso que vejo estampado aí?”.

E a idéia do amor possível, enquanto eles não se nomeavam ainda, os rejuvenesceria daquele momento primeiro, ligaria o relógio da vida real, estalaria os dedos num som de agora, acordando-os um do outro, revivendo-os.

A música de Francisco Alves, havia terminado, o amor decifrado como amor, a dúvida embranquecida pelos nomes certos e cumprimentos, enfim, iniciados, tornando-se entendidos, necessários, indispensavelmente “Minha Ana” e “Meu Daniel”.

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Sobre Francisco Alves: AQUI

Músicas de Francisco Alves: AQUI - 2

Para todas as mulheres que nunca quiseram ser homem

eu dedico:



Hilda Hilst

Orides Fontela



E não se trata de exaltar uma literatura feminina ( que talvez nem exista de fato). É só uma menção. Nada mais.



E música de REGINA SPEKTOR


Fidelity
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Amor em preto e branco


Eu não era outra coisa senão a busca de mim pelo amor. Eu poderia ter você em qualquer instante dentro daquelas horas, com qualquer toque, bastava minha disposição cínica para que você acreditasse no meu interesse. Preferi não arriscar.
A tarde ainda estava presa, como se o tempo do mundo inteiro fosse ordenado pelo que meu coração acreditava: o final de semana duraria toda uma vida se, pelo menos daquela vez, eu arriscasse amar, passaria rápido e alegre, sem remorsos, se você me surpreendesse. Sem tic-tac. Sem alarmes ou sustos. Preto e branco.
E como era bom ter o tempo por dentro.
O silêncio foi um acordo velado. Sua descoberta calma de que possuia maturidade suficiente para me superar num futuro relacionamento foi sua vitória honesta, que a tornaria melhor do que eu. Mas queria me ouvir dizer novidades inteligentes, cruas, despertas, sobre tudo, sobre mim, sobre o filme que assistíamos. Enquanto eu pesava as idéias, tentando descobrir no que poderia me transformar, enquanto pensava que não era possível definir alguns filmes, você explorava meu tempo, meus olhos complacentes, minhas acomodações, e divagava sobre seu relacionamento de 6 meses, da sua fuga para a Venezuela, de suas roupas caras mesmo estando em promoção.
Eu tentava me agarrar à realidade, aos detalhes de nossas vidas, aos seus motivos para não querer seguir para onde o destino a carregava. Eu me achei em você, é fato; sem amor dos grandes, um mergulho corajoso no desconhecido, ouvindo você declarar abusivamente que suas coxas e panturrilhas merecem atenção considerável pelo esforço que é feito, porque você entende o que é gostar de si.
As mãos eram cúmplices, de toques delicados, de veias grossas que carregavam nossas vidas em momentos diferentes. Eu poderia ter deixado tudo em mim correr em oposto, voltar apenas, retroceder, que nem assim o tempo seria outro. O beijo, sem susto, apenas arrepio. Duas frases em quatro horas. Arrepios por nada para um querer tão verde quanto o meu.
Eu não precisaria mais achar que estava morto, todo dia.
Nem precisaria esperar notícias minhas pela sua boca sem forças ou pelo olhar de quem nem existe na minha vida.
Da sua carne meus mistérios não surgiriam; seu bocejo quase me fez parecer insuportável; seu tempo claro me tornaria inoportuno, se você fosse minha escolha mais voraz.
Esperei você dizer alguma verdade espontânea e tornar-se minha flor-do-dia: uma descoberta fixa, humor comedido, para durar até antes do sol dormir, e quando anoitecesse, mais descobertas de um mundo, onde se é livre da dor, não surgiriam, e ninguém chegaria oferecendo amor para sempre, ou só por aquela noite. Fadado ao velho, à aspirações primevas, à explicações torpes, meus mistérios, morreram, e com eles meu jardim-de-outras-chances.

Estávamos distantes 26 livros por ano, 26 conteúdos, e milhares de palavras novas, mais limpas e vivas que seu “Caraaaaaaca!”. Eu preferia livros, e você suas coxas, o que me deixava satisfeito, em termos, porque eu também as queria por mais uns dias. Porém, estávamos separados. Mesmo beijados. Éramos outros. Se amor era sugestão, toda aquela paixão, então, precisava de concisas reconsiderações: Enquanto o amor não vinha a gente brincava de ser feliz.







Locação:


Aluga-se: Coração comum, cheio de lugares iguais, possuidor de corpo estabelecido, olhos cheios, orelhas surdas de tão quietas, cheio de buracos - inclusivo os buracos sujos.
Depois do negócio fechado, eu prometo:
falar a verdade até quando estiver mentindo.


Formas de pagamento:

Pensamentos de Clarice, impressos, em forma de livro.

Pensamentos de: Andréa del Fuego, João Paulo Cuenca, Daniel Galera, Márcia do Valle. Todos presos num livro.



Notas para o fim do anúncio:

Quem é Andréa del Fuego?
Umas das melhores novas escritoras.

Entrevista (aqui) no Entre Linhas - TV Cultura (às quartas, 22h40. Reapresentação: Domingo, 13h00)