Doze dias para o fim.
Dia 1: Qual o tamanho da dor de viver sozinho? Menor que o céu azul, maior que a preocupação do mindinho?
Dia 2: O amor devia começar aos poucos; um jardim de tamanho razoável que comportasse a intimidade de dois grandes universos, com rosas transparentes que se alegram durante a noite (quando os olhos focam a preocupação e a alegria inesperada de uma segunda-feira agitada) e um rio grave com nascente nas dores passadas, percorrendo a nova morada que abriga esse amor que se inicia.
Dia 3: Quanto tempo é preciso para se querer tanto alguém por muito tempo?, sentir a paixão soprar o pó do desgosto e do preconceito? Encher o pulmão de afinidades e coragem, fazer voar a areia da velha ampulheta que calcula o tempo necessário para nosso novo querer?
Dia 4: Quantos dias se passarão pra eu te convencer que minhas rugas são de vergonha e não de uma velhice ainda jovem? E que essas marcas fazem sombra no meu rosto pra esconder os detalhes que denunciam minha imaturidade?
Dia 5: Eu nunca soube acreditar no amor.
Dia 6: Eu sempre quis acorrentar meu coração na irreverência de um querer maior que eu.
Dia 7: Não tenho paciência para as tempestades e o céu negro do sexo descompromissado.
A expectativa me aproxima do desconhecido. O mistério que em mim reside se torna desabrigado; foge do conforto dos meus recantos e se revela uma espécie desprotegida de bicho inseguro, faminto de algum sentimento nobre, luminoso, disponível para a cumplicidade e para as torrentes do compromisso dependente.
Dia 8: E não é que seus confortáveis vinte e quatro anos te afastam da mediocridade tediosa da adolescência pseu-metropolitana de Teresina a qual sempre me vi tentado a aceitar, entender, querer muito, engolir, mastigar, e aprender a conviver com os prejuízos que causam aos dentes?
Dia 9: Senti-me embriagado de seus desejos revolucionários; sua gentileza precipitada ainda me confunde; é que penso que qualquer disponibilidade para a bondade é um ensaio para o amor; e eu, esforçando-me para lutar contra sua juventude de águas poderosas, acabo cedendo e me entregando ao cultivo da possibilidade do novo amor.
Dia 10: Meus vinte e seis anos não me capacitaram a racionalizar. Um cérebro de algodão-doce, e neurônios em calda como se tudo o que eu precisasse fosse um querer coberto de açúcar queimado e ma certeza infinitamente colorida.
Dia 11: Nunca entendi a entrega completa, mas sempre a quis. Vivo dolorosamente as renúncias das repetições de uma vida menor; mastigando os hábitos que me tornam distante. Sinto a vida com um corpo novo, uma reinvenção de mim, [Você já leu isso em algum lugar de um outro alguém? Sentimentos discretos, crocantes, e alguma revelação clichê, mas sempre esperada? – então encaras meu coração como um biscoito da sorte?], engolindo seus ensinamentos inacreditavelmente adultecidos, e corrompendo minhas decisões disfarçadamente adolescentes.
Dia 12: E que se repita a novidade a cada dia, com disposição para redimir nossas falhas; com fôlego para emergir a cada desgosto ou ir mais fundo no envolvimento. Voltar à superfície de ti só pra ter a certeza que vivo mesmo é desse quase amor úmido que me abastece. E que minhas palavras tornem-se as tuas, que tuas qualidades me cubram de bondade, que teus passos me levem à glória, que minha escrita sirva para teu futuro. E que o amor que inventamos nos torne únicos e inseparáveis. Até o próximo mergulho.

1 Comment:
Poxa, que delícia de texto, Neto. Li e fiquei aqui pensando muito, especialmente no teu dia 9. Esse dia 9, essa gentileza precipitada... essa coisa é realmente um problema.
Beijão! ;*
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