Despedida em Las Vegas, 1995 (Foto:AdoroCinema)Raimundo também é passado.
- E aí, cadê o Raimundo?
- Não sei! Acho que está em casa.
- Mas vocês não estão mais juntos?
- Não, não. Não deu certo. Nunca estivemos de fato.
- Mas os olhos de vocês andavam tão cheios de compromisso, uma luz dele te puxava para um centro que, embora eu já conhecesse, parecia mais agradável.
- Isso tudo? Pra mim a impressão foi singular: dias interessantes, sem a grandiosidade que ele inventou. Ahhhhhh!, só não deu certo.
- Como assim? Não deu certo pra ti ou pra ele?
- Ele é um cara bom. Mas sei lá... quero liberdade. Quero pertencer a essa sensação de estar constantemente buscando. Quero o desejo. E não é o momento. Já estou muito escaldado.
- Já ouviu falar naquele papo de que o desejo é um buraco sem fim, que nada que se coloca nele chega ao fundo, ou se sustenta?
- Ora, não é o fim do mundo. Eu só não quis o Raimundo por mais de 12 dias.
- Mas não foi você quem falou em namoro, um compromisso?
- Eu sei. Acho que fui precipitado. Uma empolgação natural, talvez. Mas ele também é cheio de rolo com a família, no trabalho... fala com excesso em alguns dramas que aprendi a superar.
Possui olhos presos no amor.
Uns movimentos exagerados para um caminho que conheço e que não busco agora.
Uma disposição quase subserviente para carinhos que não livram do mal.
Os dedos mostram-se dispostos para cuidar das partes do corpo que adoecem diariamente, que sentem o mundo desabando.
O problema é que ele está preso à doação quase completa: quase enfrenta a mãe para poder acreditar um pouco mais nas próprias escolhas, e reage com inacreditável deslumbramento a qualquer indício de desconfiança: ele diz sim quando a gente só quer que ele fique quieto: sem ligar, sem mandar torpedos, sem escolher filmes sem sentido, sem parecer coisa pequena.
Acho que não estou preparado. Não consigo navegar nas tormentas daquele Raimundo.
- Ele é psicólogo, né?
- É. Faz também especialização em Psicologia Clínica. Não tem que diga. A boca é puro desamparo. Sai pouco de casa e do corpo da gente. É apaixonado por filmes antigos e literatura. E só. E escreve em blog e numa revista eletrônica que está em sua última edição. E só. Eu quero mais. Ou menos.
- E ele é mais ou menos?
- Ele é passado.

3 Comments:
mas esse Raimundo aí é muito gente boa tb!
Gosto disso, dos ouvidos de dentro. Raimundo me parece difícil, mas belamente contemporâneo. ;)
Poxa!
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