Retratos de Família. Foto:AdoroCinema



Dominique aprende a odiar

Eu verdadeiramente não saberia para onde ir se amanhã as coisas continuassem como estavam. Há uma desordem que se abastece de nossa mediocridade; e me incluo, sempre me incluí, nos grupos medíocres. Possuo a consciência de um bicho que se diverte com novelos de sentimentos recentes e agrados reservados. Fico nos cantos limpando minha tristeza com saliva de um bem querer que nunca aconteceu do tamanho certo pra mim. E divulgo as tormentas de se viver no desequilíbrio; e acima de nós o céu apocalíptico, a suspeita da morte pelo fogo divino; e abaixo, o picadeiro com os leões famintos, o povo e a maldade sem misericórdia, e o inferno de nossa realidade de família que não se basta.

Estávamos ligados pelo rancor. Um fio grosso de um metal enferrujado e maleável percorria a casa, mantendo pontos de ligação entre nós, prendendo-nos uns aos outros, e ao passado. Cada um arrastando os grilhões de sua culpa, condenados por infrações de um amor que nunca existiu de verdade. E foi ódio que aprendemos a bem digerir.

Destruímos bons momentos sem reversão. Todas as palavras eram grandes e poderosas chamas que aterrorizavam a estabilidade de qualquer dia menor que não merecíamos. Mas em meio ao caos, às armas que giravam no centro desse monstro de vento, fogo e comiseração furtiva, eu nunca soube destruir ninguém aos poucos ou jogar impropérios cáusticos nos parentes insignificantes que caluniam, que afiam as lâminas escuras da injúria e do ódio assente.

Eu descobri, assim, amar partes de um todo desorganizado, que resiste desconhecendo a paz, o respeito e a sanidade: não mais quero todos os familiares por perto. Acostumei-me a instalar pedaços de paz no inferno; procurando locais arejados no escuro de um lugar que já não existe apenas em mim. O coração deu vida ao desejo de sumir, mas não sei pra onde ir. Nunca soube fugir ou me esconder com eficiência. Sempre estive em evidência, mas sem importância; fácil o lugar para o qual sempre me desloquei, os esconderijos que me guardaram: na superfície de qualquer pessoa que me ocupou por toda a vida.

Costuramos nossas vidas com contrariedades e sentimentos dispersos. Movemos-nos aceitando as colunas de discórdia construídas entre nós para sustentar o céu de uma casa que, se caísse, despejaria demônios e buracos-negros que não nos mobilizariam para a salvação.

Se a casa em que guerreamos sem tréguas pudesse revelar-se, personificando-se em um detalhe razoável do mundo, ou um ser mágico de pedras e voz gutural, conferindo fato ao que é apenas um depósito de sofrimento, ela se ergueria desta terra amaldiçoada, nos mastigaria com a certeza das coisas vivas que tiveram seus interiores molestados, e partiria para o fim do mundo buscando desbravar possibilidades de uma nova família.

Não sou frágil pelo nome Dominique. Carrego culpa pelas mortes que não experimentei. Se eu me chamasse Devorah, algo hebraico, algo abençoado, talvez tudo soasse como um sacrifício plausível. Talvez eu corresse sem desespero, apenas para emagrecer, descarregar dor e culpa com a mesma devoção. Mas não. A sensação quando estou correndo, quase numa fuga, é esta: meu coração esta parando. Meus radicais, os livres e os que me fazem deprimente, destruindo-se, envelhecendo minha alegria; meu coração mais rápido, eu não consigo ouvi-lo, a dor vai acentuando-se o sol se pondo tudo ficando gelado o suor ainda está quente como se fosse sangue aquecido este que ferve no meu centro ainda existe um sentido em mim tenho poucas direções mas um sentido e não preciso voltar só tenho a roupa do corpo. Estou morrendoperdidamasviva. Esóaprendiaodiar. Até agora. Apenas ir cada vez mais longe, como se fosse leve e útil sentir dor por todo o corpo, como se fosse doce e prudente pensar no futuro como acaso ou a medida certa de esforço, sacrificios, pouco sexo e orações.
Como se eu fosse simplesmente D...
E...
S...
A...
P...
A...
R...
E...
C...
E...
R...
no próximo passo. No próximo quilômetro. No estalar seguinte dos ossos.

Como se amar fosse apenas um estremecimento.

E o perdão acontecesse num piscar de olhos.

E o sofrimento fosse apenas uma desorientação.

E a família: apenas um pesadelo.

3 Comments:

Alex said...

Gostei da densidade, do tom confessional. Gosto muito quando escreve em primeira pessoa. :)

Thaísa Oliveira said...

adoreiii seu blog.. o título então.. perfeitooo!!

edson marques said...

Belíssimo texto!


Também gostei muito do Amor Potencial.

E da foto exuberante da Pollyana...


Flores e estrelas..