Amor à Flor da Pele. Wong Kar-Wai, 2000. Foto: .adorocinema. “O fato é que, tendo uma vez se encontrado na parte secreta deles mesmos, resultara na tentação e na esperança de um dia chegar ao máximo. Mas que máximo? (...) Procuravam-se cansados, expectantes, forçando uma continuação da compreensão inicial e casual que nunca se repetira – e sem nem ao menos se amarem.”
Clarice Lispector, p.123, A Mensagem.
“Tudo o que se passou entre os dois eventos nada mais foi que um tatear no escuro, uma série de erros crassos, falsos rudimentos de alegria. Tudo o que tinham em comum os unia num único episódio.”
Nabokov, Lolita pág.41
“E corava pouco a pouco até ficar bem vermelha, como se em dez minutos passasse por seu rosto uma tarde de sol. A um palmo de distância dela, eu era o maior homem do mundo, eu era o sol.”
Chico Buarque, Leite derramado, pág. 46
O coração sofria morno quando ele veio lançar-lhe sua desmesura: Encontrei em você o que eu estava procurando. Com os olhos fechados arriscou-se então, e as palavras vieram renovadas de seu último relacionamento, apuradas pelo desejo por uma semelhança, seu oásis em tempos desérticos, um acalento, uma angústia corada que o fizesse querer sempre mais, nunca menos.
O mesmo coração que recebera a declaração, agora fritando em esperança, deslocou-se afoito rumo ao juízo, a fim de desorientá-lo, provocá-lo para o sim: Sim, eu quero, eu devo, preciso entregar-me do começo ao fim, e se doer que seja o dia todo; se sangrar, que a madrugada ansiosa do meu exagero urgente esconda o horror das minhas expressões de paixão descoberta.
Ele foi prático quanto aos discursos sobre seu amor, plástico nas frases de efeito; descobriu a possibilidade de um sofrimento sem cortes profundos. Revelou para a família seu agrado, carregou carinho recente para que os amigos conhecessem o que o tornava outra vez devidamente dedicado: O que ele tem de melhor é o que eu esperava. O compromisso firmou-se no toque; sem enormidades o interesse derramava-se com voracidade, aplacando o que era para aplacar, pronunciando tudo o que era vontade, mas quase insuportável.
As palavras davam-se as mãos, e de minuto a minuto se abraçavam: É tão bom conversar contigo, sabia? Explanavam sobre livros, autores que os aproximavam de conteúdos assustadores, autores que os libertavam para a procura, cineastas que acentuavam a intensidade. Seus planos também enroscaram alguns dedos, lamberam-se um pouco, quase submissos e higiênicos: Vou levar você comigo.
O outro transparecia sentimentos rubros e austeridade: Alguém já disse que você é pra casar?. Um questionamento estreito, rápido, estrangeiro, que fez aquele outro cair mil vezes dentro da mesma certeza rutilante de quando se viram pela primeira vez: Eu não conseguia ouvir nada; o barulho de uma criatura de centenas de bocas em escândalo impedia tuas revelações. Só pude agarrar-me a teus olhos me pedindo pra voltar, ficar, confiar nas tuas explicações, nos teus atos investigativos sobre meu passado, meus interesses, minhas poéticas ridicularias virtuais.
Iniciou-se a ostentação feliz de um atual envolvimento. O outro esteve com os olhos graves, evitando a ofensiva desrespeitosa dos bichos ariscos que se assemelhavam a homens de dentes cáusticos.
Quase por vergonha o outro deixou de dizer sim. De abraçar sem pudor, de permitir também quase incrédulo o sentimento nunca experimentado, aquela brasa emergente, tudo que se firmava concreto e pungente nele tornou-se de outra natureza. O que vinha do homem o intoxicou irremediavelmente: Tão parecidos, como pode? Estamos na mesma frequência e vibrando. O que pode acontecer além de dar errado? Sinto o gosto da expectativa ferida. Escreva no meu corpo seu dia-a-dia. Acho que não aguentaria quinze dias sem segurar teu coração limpo de traição e maldade nas mãos. Posso visitar teu cotidiano quando a tristeza estiver me engolindo?
Mas o outro se revelou irresponsavelmente. Os olhos do homem derretiam angustiados; o receio de não suportar. Os problemas do outro enchiam a boca dele de areia fina. Faltava o sol se pondo, convidando estrelas para detalhar o começo de um novo encontro, e a brisa extrema e suave, um afago da vida, e a imensidão alargada de um mar feliz. Mas o outro não sabia criar pequenos universos assim. Não escondia seu interesse, e não sabia inventar a paixão.
Talvez não fosse mesmo um início prudente e ameno; talvez houvesse algo mais a se buscar, que poderia ser encontrado em outro homem, um passado que voltasse e o abraçasse com carinhos acostumados e um desassossego cheio de muito sentido, ou um futuro realmente surpreendente. Porque o novo outro, que o habitava agora, não era mais surpresa, e o seu brilho morreu assim: pa-puf.
O outro era como todos os outros. Como quase todos os outros. Afinidades inventadas, com aquele querer que faz sombra e não queima as relevâncias. O homem queria as tempestades solares do amor repetido de uma vida toda, que um dia viveu. O outro não sabia como fazer pra cuspir fogo, encher a boca de álcool e apimentar a relação com desconfiança e a chama do ciúme.
Seus corpos dialogavam cheios de aproximações, falando quase a mesma língua; partes acrômicas de si quando precisam ser discretos. As dores do outro espalhadas pelo plexo solar e lobo frontal. Já o homem descascava quando pequenas ameaças surgiam para comprometer seu bom futuro.
O homem vivia a injúria escarlate de quem está perdendo o controle. O corpo com pedaços encarnados, enciumado de ter outro por perto capaz de atenção suficiente e um querer ajustável. Porque ciúme é isso: querer mais do que se tem. Camadas delgadas, aspectos avermelhados, róseos ou acerejados -lindamente translúcidos e doces como cereja em caldas (o corpo de um deles se confundia com cor e sabor) - de algo crônico que apresenta recidivas, erupções de um conteúdo que só poderia ser imenso, comprometedor, importante, um rubor congestivo que só precisava de honestidade e bons tratos para desaparecer por uns tempos.
E enquanto o outro se arrepiava, os pelos hasteando a bandeira da intenção revelada, o corpo psoríaco do homem mostrava seu enrubescimento impetuoso que precisava de cuidados: Eu, que nunca esperei acompanhar o florescer de uma cerejeira, entusiasmava-me com a presença fragrante daquele surgimento rosicler, esperando o flanar pacificado das pétalas que desistiriam da beleza rosácea e orgânica daquele homem do qual, dali alguns dias, eu colheria arrebatado os frutos cálidos da entrega sublime.
Seu corpo se dedicava em porções, do máximo ao mínimo, e o outro poderia ter percebido o fenômeno antes, ter avançado nos níveis do homem, um a um, antes do fim, arrancando todas as suas coberturas, até chegar próximo a algum conteúdo que garantisse algo duradouro; o núcleo de segurança, desistências, aquela verdade de cada dia, que se transforma e se adequa; entender que medo o perturbava, qual pedaço de si pacificaria a escolha do homem. O outro deveria tê-lo desmanchado por completo até ter nas mãos a certeza que hoje possui assustado: que findaria antes do começo.
A potência sem escrúpulos da iniciativa do outro deveria ter demolido a firmeza das dúvidas do homem. Ele parecia tão engolido pela certeza de que desistiria no décimo terceiro dia – abandonando a novidade do outro – que não teria forças para abrir a boca gigante do monstro do passado que o mastigava, afastar as presas extravagantes, tomar fôlego e pensar mais um pouco. Não passava por sua cabeça que seria tão simples esquecer o envolvimento inaugural, os carinhos dedicados, o compromisso assumido apressadamente: foi como estalar os dedos, piscar os olhos, calçar sapatos, o rebentar de uma pipoca, como lavar o cabelo, ensaboar o corpo nacarado, odiar um filme sobre zumbis, ajustar os ponteiros do relógio, como um gole de vodka, como um cumprimento furtivo, um Oi nas festas seguintes, foi como respirar. Como tentar esquecer um amor aborrecido, uma experiência de tantos anos com alegrias cheias de hematomas, como organizar na agenda da vida lembretes desafiadores e que jamais serão esquecidos: Não posso esquecer de lembrar sempre dele. Como se a novidade fosse um contratempo.
Disfarçou sua incerteza secretamente, num estilo pop-cult, de quem não quer marido pobre, sem dois turnos de labuta excessiva e com o corpo sem modelações de academia. Vivia suspenso nas lembranças, que poderia tudo agora ser diferente. E teve raiva, uma cólera burra tomava conta do homem, porque poderia ter sido diferente, bem que poderia ter dado certo, quatro anos de afagos e de um amor sem manual de sobrevivência na selva das traições que não se esquece. Entendia-se ainda plural. Duas vezes o mesmo amor antigo. Duas vezes o outro primeiro que o satisfez. Aquele outro que o arrastara para longe dele, que o acorrentou à impossibilidade de querer amar outra vez, aos poucos, lentamente, desabrochando um querer qualquer.
E agora apareceu esse outro homem bom, que era só bom. No entanto, esse sentimento impraticável não chegava a ser uma renovação, não o aproximaria dele mesmo, do outro corpo, nem esmagaria seu passado, não o ajudaria a enxugar os excessos de suas memórias. Não havia prazer em descosturar tais reminiscências, desfazer o sentido de tudo, estender a mão e acolher a nova tentativa, e ceder, ceder, ceder. Para que o impulso adiantasse o amor.
Mas o outro, dos tempos da paixão incurável, lançou-se primeiro no desafio da superação, para curar o corpo que vivia dormente e acostumado: o passado agora se satisfaz com um novo presente.
Alguém não teve tempo de chorar até esvaziar o corpo. Alguém não se explicou com suficiência. Alguém fechou os olhos antes da aproximação. Alguém disse as palavras inadequadas. Alguém está sem entender até o momento. Alguém não vai voltar. Alguém dançou como idiota. Alguém entregou o jogo. Alguém partiu antes do fim.
O final foi pintado com exasperação, como se superar o desejo de treze dias fosse a grande conquista da nova vida livre, aberta e tranquila do homem: Estou bem sozinho, calmo; sair com os amigos, encher minhas convicções de sabores etílicos, sumir de mim por algumas horas, e não justificar a ausência, não explicar meus caminhos: Você chegou ontem. Mas pode ir hoje se quiser.
E o outro foi. Assim, com o querer recente latejando nas mãos.
Foi sem entender, sem mais nem menos.
Assim mesmo: pa-puf.

2 Comments:
Seus textos sao mt grandes mas gostei do que li..
se puder me add a sua lista de amigos ia ser um prazer.. beijos
Neto, você tá começando a ser um dos meus livros de cabeceira prediletos. Tá sim.
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