“Toda palavra tem a sua sombra.” Clarice Lispector

“É uma lira, mas sem cordas; uma primavera, mas

sem flores; uma coroa de folhas, mas sem viço.”

Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo



Heartland ou Lira dos 18 anos


Tua presença ensolarada de dezoito anos aconteceu para dissipar o nevoeiro carregado que fui antes de ti.

A única iniciativa que não tive foi de te acolher com abraços. Mas fiz o mínimo possível: apertei as pontas de teus dedos, pousei minhas pernas sobre o acalento de teu colo magano, cheirei a palma de tuas mãos, permiti sem culpa o dardejar dos meus beijos em teu rosto lividamente liberto de acréscimos preocupantes de homens que, como eu, carregam sem alívio a nódoa das desilusões e das reclamações sem fundamentos.

Vi, não entendo com quem olhos internos de homem permissivo, meu olhar acompanhar as minúcias dos teus movimentos, o escorrer lento de teus cabelos pelas laterais do rosto quieto, teus cílios desenhados enfeitando o piscar, dançando compassados ao som da lira que carrega nos olhos, com sinais não muito claros de que eu era uma possibilidade.

Eu faço parte de algum dos teus sonhos?

Eu disse Sim segurando as colunas que sustentavam o templo de tuas costas, decorando os detalhes de tua arquitetura jovem de pouco vigor - Se tivesses dito Sim, eu teria sustentado meu interesse sem restrições -, quase exigindo que te permitisses deitar e rolar sobre minha disponibilidade. Meu compromisso estava no fundo dos olhos, irreconhecível; e só teus olhos nus, livres, de sol a pino, profundamente maduros para uma existência de dezoito anos, poderiam resgatar em mim uma entrega suficiente, confortável, adequadamente resistente para quem ama enfrentando tempestades, para quem mastiga a paixão recente alimentando o corpo com uma fidelidade vitoriosa.

Não permiti a desobediência da língua, que se tornasse íntima de tuas profundidades e te tomasse a inocência, ou corrompesse teu querer, para não contaminar tua busca por um homem que não exige permanência para a vida toda. E foram oito sorrisos abertos, inúmeras encaradas solares, três gargalhadas imaculadas, cinco apertos de mão tão ardentes quanto determinados, e uma atenção serena, composta de concordância e placidez.

Encostou seu ouvido ao meu: Nossos mundos das palavras ouvidas estavam então próximos. E passaríamos a entender tudo um do outro.

O caminho até ti estava escuro; uma ventania alvoroçada de outros homens maiores, de bocas nervosas, aqueles tipos que trovejam mordendo os lábios, mostrando sua substância lasciva de criaturas que habitam inferninhos soturnos.

Eu só queria consertar meus desejos de salvação, meus cuidados, meus maneirismos exagerados com homens crescidos que pouco ligam para uma companhia de uma noite apenas, e terminei procurando vestígios da tua paixão, esperando que a brisa mansa e pacificadora soprada ao longo de teu horizonte revelasse algo mais que o despertar da tua juventude imperturbável e de nossa intimidade suspeita.

Há um receio monstruoso me perseguindo, fantasiado de sorriso amarelo: Talvez eu descubra então que as sombras de tuas asas não acolherão meu desassossego; que teus olhos ensolarados desabriguem por fim meu desespero. Era mentira que eu poderia livremente deixar minha tristeza borboletear sobre teus clichês néon? Minhas verdades tórridas rebolaram inseguras dentro de ti e me fizeram um ser menor. Tenho ideias truculentas a respeito do fim, temendo que ele seja gracioso demais pra alguém especialmente insatisfeito como eu.

Então...

Aceito tua busca, se entenderes os meus caminhos.

Acolho tua juventude, se couberem em ti minhas faltas.




1 Comment:

Bruna said...

Hahahahha
nem sempre um texto longo é ruim.. Pelo contrario..
Eu que so preguiçosa mesmo.. Mas adoro ler seus textos.
Eles passam algumas coisas que eu acredito..
hahaha
obrigada por passar pleo meu!