Fotografia: © Paulo Nozolino
Ou: Quantas vezes a verdade acontece na vida?
O corpo se aproximou seguro apenas das convicções sobre o que é desistir cedo, declarando que amar era mais que ter cuidados em noites volúveis e tristes, enquanto eu estava vivo numa entrega desproporcionalmente continental, deixando correr nas veias a certeza livre que ele queria primeiro fortalecer sua carência por algo menor e a sensação de abandono que trazia no peito.
Mas eu não era capaz de entender o que acontecia com minhas repetições ilimitadas: ligar nos dias que antecediam qualquer desespero, marcar visitas à tristeza subseqüente, molhar seus dramas com minhas lágrimas reservadas a perdas, catástrofes e angústias similares, aquecer seus movimentos friamente perdidos nos tons inapropriados da hesitação.
Um de nós era uma árvore gigantesca e secamente monstruosa de galhos retorcidos no meio do nada, e o outro a folha verde lubrificada de milagre inventado pela solidão, quase independente, que nascia de incômodos. E uma brisa nervosa do fim do mundo anunciava o equívoco, a fome, a falta.
Meus carinhos tornaram-se sobressaltados. A pele cheia de medo. Eu havia entortado a possibilidade férrea do querer bem do outro com fogo bravo; derreti sua admiração com raiva e histeria. Fiz montanhas de rancor erguerem-se em minha testa, com os olhos ressentidos de quem odeia por um minuto e ama pelo resto da vida: eu não ouvia desculpas; cuspi no orgulho; queimei minha maturidade e bondade de longos vinte e sete anos em cinco minutos.
Hoje eu sou o amor cheio de asco emprestado. Minha dignidade está sendo questionada. Atiraram a primeira pedra cada um dos que viram Raimundo-Apocalipse envergonhar o gostar discreto do homem que soube desejar com discrição demasiada. Não me atingiram.
Por pouco.
Restou muito de mim no fim que não escolhi sozinho.
Não queria um amor cheio de poucos dedos tocando com sutilezas o dorso da mão. Eu precisava que alguém inventasse mil mãos cuidadosas que amparassem minha raiva, meu salivar enlouquecido, que anotasse todos os meus detalhes em cadernos velhos, que dissesse Estou aqui de minuto a minuto, que ressonasse acordado para embalar meus sonhos, que tornasse o amor presente justamente nos lugares em que ninguém entende de cumplicidade e anula a sinceridade dos afetos com vaidade, orgulho e veneno.
[Nós: Não carregamos mais verdades imutáveis. Elaboramos a nossa própria, como nos convém, garantindo dignidade, sem abalar nosso auto-conceito, pelo menos até o próximo amor chegar ardendo nos vazios.]
Alarguei meus limites.
Desconstruí meu orgulho.
E comecei a entender o que é gostar de alguém sem medo: Que eu me encontrava dentro de um acaso formulado por engano, pressa ou abandono. Mesmo não havendo volta, e a presença de antes não possuindo poderes para ressuscitar esforços, ter tentado não foi sinal de fraqueza, corrupção do amor próprio ou ofensa ao orgulho.
Tentar outra vez foi entender que desentendimentos podem ser um ponto de partida, de reavaliações.
Foi recomeçar na separação - e enquanto durou - até quando não foi mais possível.
Tentar, até onde é possível, é amar a própria vida.
Foi reinventar o amor futuro, que está por vir.

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