19/11/2011

Um abandono qualquer dentro do fim (I)

Fotografia: Carlos Díaz



Foi aos dezesseis anos que aprendi a desaparecer, pela primeira vez, a cada nova recusa. Quando também desaprendi meu nome e o interesse pelo carinho que tinha por meus pais. Conheci Aurélio na casa de um amigo; um dos poucos que eu tive na vida. Mas não é disso que pretendo falar agora, de carinhos recentes. Quero explicitar o ódio e a carência passados; não pretendo explicar o fim das minhas descoradas iniciativas para o amor, quando eu ia manso rumo ao começo do carinho alheio, quando eu ficava em pé, as pernas doloridas, esperando que as pessoas (meus amigos, meus professores, meus avós, minha mãe, meu pai) permanecessem comigo, mesmo que elas não estendessem as mãos pra mim, mesmo que elas me deixassem despencar naquele abismo, cheio de um breu que nunca receberá luz alguma. Só queria que eles estivessem lá para dizer o quanto aquela queda toda não é tão ruim assim e me ensinassem como não deixar qualquer ferida infeccionar, que eles não me deixassem morrer, dentro de qualquer breu. Só.
Nossa casa não era uma imensidão como deveria ser para qualquer criança. Mamãe enfeitava com placas de obrigações e compromissos - Pare!, Cuidado!, Siga em Frente!, Proibido Estacionar no Erro! - a estrada que papai construía para mim, com uma certeza sem limites que eu seria um homem importante, e tudo precisaria ser claramente definido: primeiro eu deveria ser um homem e aprender com o corpo e a voz, e qualquer tom que eu viesse a adquirir, a masculinidade que satisfaz qualquer família. Deveria ser mais que um ensaio. Depois viria minha importância como um jovem salvador.
Mamãe comprava revistas pornô estreladas por loiras peitudas e morenas abusadas, abertas em posições que nunca imaginei que a flexibilidade de um corpo pudesse resistir. Aos doze anos achei camisinhas na minha carteira infantilizada (andorinhas sobrevoando uma montanha azul com nuvens ao seu redor que pareciam andorinhas que não voavam). Apresentou-me “Amor de Perdição”, e a possibilidade de um amor torrencial, aos treze. No entanto, ela não experimentava solitária o prazer de me possuir, de me guardar em seu coração com premonições de falta e frustração fortes o suficiente para fazê-la desistir de tudo, de me fazer sentir o peso da culpa por preferir liberdade à natureza estupidamente graciosa do seu amor. Não estava sozinha. Convivia com a ausência de papai. Que fugiu para um canto gelado qualquer, quando eu tinha seis anos, com outro homem. Fugiu simplesmente. Rumo ao Nada. Como se em casa ele tivesse Tudo. Como se nossa família fosse Tudo. E mamãe, então, começou a me ensinar, com doses diárias de ressentimento, culpa e rancor passivo-agressivo, pequenas mortes diárias.
Comecei a confundir Tudo. Quando digo tudo, é quase Tudo. Minhas paixões já não tinham mais direção, desgovernadas; não sabia se andavam de automóvel ou avião, se meu corpo tremendo era causado pelas estradas escavadas que meus afetos percorriam ou pela turbulência dos voos que me permitia. Apaixonava-me por moços mais velhos, mas não os queria por perto ou com dedos cheios de cuidados. Dormia embaixo da cama. Tomava café amargo. Cuspia no prato que comia. As lágrimas corriam secas em sentido oposto ao que costumeiramente se experiencia. E inventei fugas para a dor:
meus desmaios,
os cortes superficiais,
a masturbação no quintal,
o amor por Aurélio.
saber que o futuro é hoje. Repetir-se nas lamúrias. Gestos excessivos para histórias curtas. Escrever “O que não dói mais a cada dia”, depois riscar não, e perceber que também faz sentido. Contar degraus e gotas de chuva. Calcular o tempo da lua em noite de solidão. Remexer, romanticamente, as cartas passadas destinadas, ridiculamente, a “Quem ainda vai chegar". Nunca mais esperar alguém chegar. Sentir-se maior, mais c l o r i d o e s-o-l-e-t-r-a-d-o que os outros por ter algo diferente. E perceber que a verdade é de outra natureza. Livro embaixo do travesseiro para aprender dormindo. Viver um ano em um dia. Amar, em uma noite, alguém em um encontro qualquer. Odiar por toda a vida alguém num encontro estranho. Escrever Deus na palma da mão, abrir e fechá-la para tentar salvar outras vidas. Lágrima a contragosto. Remédio em conta-gotas. Amor de contragolpe. Carinho contrafeito. Vomitar comidas preferidas. Controlar o tempo com a preguiça. Correr gritando “Eu não desisti” Dizer-se o dono de alguém. Acostumar-se ao inimaginável, ou imaginar um contraponto, um recomeço, e descobrir o que não dói a cada dia. E assim viver simplesmente.
E assim tentei entender a dor de mamãe. Seus faniquitos estressados diziam mais a respeito de mim do que sobre sua personalidade. Uma revelação sóbria a cada grito. Como se profetizasse o que ela chamava de “meu desvio”, uma maldição, como ela declarou uma vez. Aliás, ela nunca foi mulher de simplesmente afirmar; condenava logo qualquer futuro com as armas nucleares de seu cuidado e ansiedade materna.



2 considerações:

ZG disse...

quando cheguei nas lágrimas que correm ao contrário, tive a certeza que é um bom texto. parabéns!

ZG disse...

quando cheguei no trecho das lágrimas que correm ao contrário tive a certeza de que é um bom texto. parabéns!