19/11/2011

Um abandono qualquer dentro do fim (III)

Fotografia: Jacobs Roberts Kendall



A Senhora Decepção ficou lá dentro, presa em sua angústia macilenta, anaeróbia. Alguns vizinhos tentaram lançar palavras de conforto pelas janelas fechadas, não imaginando o que realmente tinha acontecido. Batiam nos vidros; as crianças sopravam e escreviam S.O.S. na umidade que desaparecia. Rastejei da sala para a calçada; e senti o julgamento arrancando pedaços de meu resto de consistência de adulto jovem pelas eméticas e incessantes perguntas, mais curiosas que preocupadas com nossa saúde. Por que sua mãe gritava daquele jeito?, arrancou a cor dos meus olhos; Você dá trabalho e desassossego pra sua mãe, rapaz!, feriu toda a minha língua e paladar; Por que não ajuda sua mãe?, destroçou minhas pernas e salgou minha bondade emancipada para os próximos devoradores que estavam por vir.
Nossa rua era larga e comprida. O sol, nascendo ou se pondo, sempre demorava a percorrer toda aquela distância. Os jardins eram cuidados e acolhedores, conformados com arbustos e poucas cores. Não existiam árvores com sombras afáveis. As casas estavam sempre com as portas e janelas fechadas, sóbrias; outras assustadoras e velhas; carros desbotados estacionados numa representação metálica de classe média subterrânea. Cercas de madeira branca imitando a humildade disfarçada de modelos estrangeiros. Mas aquela escuridão, quando a noite caía, sem o barulho carinhoso de folhas sendo sopradas por brisas de fim do mundo, refletia a decisão de todos os que ali moravam pelos segredos alheios. Escuros que se devoravam; e não tinha mais fim.
Minha consciência estava desmaiada. Com o olhar apagado, desfeito de poder ou beleza, apenas ouvia os vizinhos relembrando o nosso abandono, relativizando meu sofrimento, como se a salvação estivesse apenas na juventude. O sentimento de derrota havia costurado minha boca com fios enferrujados de uma raiva precoce. As mãos finas pousadas nas pernas cobertas de roupas comuns. Sem forças para o recomeço. A calçada estava amolecendo com meu desespero. Sim, porque eu estava desesperado. Mamãe continuaria a explodir atômica todas as vezes que lembrasse tudo aquilo: eu, papai, o abandono; se ao mesmo tempo não me expulsasse de casa ou me incitasse ao suicídio antes do seu fim como sacrifício ariano, ou procurasse até o esgotamento a cura desta traiçoeira e congênita doença (mais que força de expressão na boca dos pais) que eu carregava no sangue enegrecido.
Baratinei de volta rumo ao caos do meu quarto, pela porta dos fundos. Ela levantou daquele suco sofrido que deixou escorrer de seu desapontamento, e começou a fazer algo pra comer na cozinha. Cheiro de alho, cebola, feijão torrado, açafrão, carne, manteiga, frango, cereja e a calda, pimenta e... leite condensado? Aproximei-me um pouco de toda aquela estranheza, e entendi mamãe como se procura entender monstros da ficção: nas entrelinhas, com detalhes sórdidos, de atos absurdos, ressignificados. Reparava quase cega a comida como se fosse veneno, temperando o preparo com rancor e solidão, naquela eternidade que o ódio proporciona e o para sempre que a frustração e a amarga decepção alimentam.
Tornei-me, como meu pai, aquilo que ela não queria mais entender.

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