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| Fotografia: Peter de Potter |
A vida hoje exige pedaços cada vez maiores de cada um, de cada coisa (ato, pessoa e objeto). As declarações estão se tornando mais caras: declarações de amor, de bem querer, de desistir, de preferir amanhã o que não se pode ter agora, de permanecer ausente, de precisar de uma proximidade sufocante; declarações de Aniversário, Natal, Ano Novo. Declarações reproduzidas, programadas, incansavelmente pesquisadas na internet. Não se pensa no outro como conteúdo singular. A mesma declaração para qualquer pessoa disponível. A repetição da palavra sem sentido.
Os presentes são grandes, coloridos, roem o valor do bolso e esvaziam a honestidade dos sentimentos. Pessoas que passaram o ano construindo uma indevassável e descomunal muralha de intolerância tentam acentuar a gravidade da maldade escorada em todas as suas atitudes: Um cartão de natal, um abraço opaco. Elas não sabem como recomeçar. Preferem o valor das coisas (ato, pessoa e objeto) à delicadeza que é reconhecer equívocos e aceitar particularidades.
Algumas pessoas desistem do próprio entendimento. Elas não olham para cima pelos pedaços calmos de nuvens que espalham sombras redondas. Não entendem que dentro do peito tem céu. Buscam salvação no valor, no preço, na marca, na facilidade de ter por perto alguém que não precisa ser nada parecido com o que satisfaz sua decência.
O natal está quebrado. O amor agora é vidro. E os homens são papel picado ao vento.
(Você conhece os detalhes das pessoas que ama? Consegue ler os fragmentos que elas deixaram na sua vida? Consegue carregar por mais alguns anos os pedaços imprevistos e pesados que elas não conseguem guardar em si? Você conhece a música que mora nos dedos do Alguém que nunca te quis na vida? Você entende quando não é mais possível perdoar o futuro que não vai acontecer pra você?.)
As pessoas que você pretende amar estão repletas de segredos nas dobras perdidas dos gestos secretos. Observe:
:A tentativa de controle da mão fechada sobre a mesa, quando o namorado expõe sobre a ex alguma dificuldade inspirada, uma represa de ciúmes contida no tremor circunspecto.
:A filha desentendida da vida abandona os dedos inseguros nas dobras da calça e aperta as pregas ornamentadas buscando paciência, amassa o desespero do toque. Em poucos segundos tudo está desfeito. Mas os dedos continuam vivos, e conferem ordem à matéria que não é a interior.
:A vizinha de olhar caído e vincos de preocupação, pequenas montanhas de desgosto que deixam escapar rochas-filhas morro abaixo. Despencando para a terra desolada da família.
:O homem que coça as orelhas para o som vagar sem aborrecimentos em suas fantasias.
:O casal que adormece vigilante, protegendo de qualquer mentira os sonhos que virão a inventar. As lembranças do namoro estalam dentro do que possuem de concreto atualmente (porque eles casaram, e ele a esperou por anos e anos, e eles tinham carinhos gêmeos que foram separados no nascimento): a pele coberta de vergonha encostava-se com discrição ao corpo próximo, o dele, o dela, os sentidos se aguçavam, havia cheiro de satisfação e café-da-manhã-da-nossa-vida-a-dois; e assim talharam o rosto feliz da pessoa que são hoje. O amor também vem no atrito.
:O menino tímido que não consegue anunciar sua busca. Os dedos dos pés estalando, dobrados sobre a própria vergonha. A palma da mão em giros lustrando a ponta do nariz em cócegas, como um conserto, mas ao contrário. As notas ao avesso.
:Alguém que acorda dentro da noite para cumprimentar o ressonar aliviado do companheiro e protegê-lo com um cobertor, tocar com a ponta dos cílios os cantos desolados da boca que anuncia um sonho inquieto.
:O marido que observa a esposa preparar o almoço com verdes indigestos, os dedos firmes no corte vermelho do tomate, a força impressa para fatiar o sabor da dedicação da mulher que o agradará ternamente.
:A paciência lustrosa do rapaz que esperou três anos ou mais, sozinho, até que a garota, que ele não sabia que seria sua pelo resto da vida, voltou.
:O som dos cabelos limpos dos que chegam com surpresas cuidadosas em uma tarde qualquer.
:Caixas de presente com sentimentos duradouros embalados, sem preço, com valor.
:O sorriso enrugado de uma Avó falecida brilhando no quarto escuro da recordação aborrecida.
:Os cuidados mansos do meu Avô resmungão e sorridente, mas que me ensinou a salvar borboletas. Açúcar, água limpa e fios de misericórdia na extremidade dos dedos.
:Quando a árvore de natal é composta de livros. E há morada fixa poesia dentro das luzes.
:Quando há dança no abraço surdo dos que sentem saudade.
:Quando uma boca gentil mata a sede no copo das tristezas daqueles que tem histórias tristes para contar.
:Quando a declaração de ‘Estamos Juntos Outra Vez’ vem com o dardejar das asas finas de olhos cansados.
:Quando os olhos estão cerrados, cortando a aspereza oferecida pela realidade, deixando pó velho das esperanças ressentidas, pode-se enxergar como deveria ser o futuro. Ou deveria ser assim.
E a vida é cheia de atos mínimos que salvam. E poucos executam. Quando digo imensidão o que vem a sua cabeça? A grandeza das coisas não reside no tamanho delas, mas na execução do ato que as compõe, que as constitui, nos espaços que podem ser alimentados, na fome que pode ser preenchida com detalhes.
Alguns gestos sustentam-se nas sombras que projetam, são máculas destoantes presas ao comportamento de alguns homens e mulheres que buscam uma grandiosidade inalcançável.
Não existirá história de amor (histórias de natal, de regresso, de união) sem rascunhos. Poucos aceitam algum risco, correm em direção ao incerto. Correr riscos? Nem pensar. Como andar por linhas tortas sem perder o equilíbrio?
Não é um dia de morte. Não é um dia para acreditar nas coisas que não deram certo. O ano todo foi constituído de fragmentos de pequenos desastres. O nosso. Pequenos incidentes que riscaram a dignidade e que não ajudaram na escolha que se seguiu. Ficamos amarrados e desajeitados à expectativa de que enormidades surjam à nossa frente e invadam a costa do nosso porto vazio: que não houvesse discordâncias, que o dinheiro triplicasse seu poder, que o chefe fechasse o ódio e insatisfação dentro de sua arrogância, que o amor viesse inteiro e magnífico, próximo, e repleto de uma majestade inconfundível que não aceita falhas e desvios.
Esperamos um mundo novo começar.
Esquecemos do mesmo mundo, nosso, que sobrevive com minudências.
O amor é um fragmento de bem querer que precisa de tempo para surgir enquanto continente. Ele não se move. Nós vamos até ele.
Amor ancorado em fantasia não vai a lugar algum.
Então construa uma árvore de natal dentro dos olhos, e enxergue a vida perdida de alguém que você aceita: Aqui está o Natal. Aí está o futuro.

1 considerações:
"E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes”
. Clarice Lispector em A Paixão Segundo G.H.
Fantástico, cara.
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