20/12/2011

Desastres provisórios na terra de ninguém


Fotografia: Carl W. Heindl




Não pensei em uma aproximação. Nenhuma tática surgiu brilhante em minha cabeça. Algumas ideias flanavam lentificadas no vácuo que se tornou aquilo que eu acreditava ser inteligência e sagacidade. Esta distância – de cores e coreografias diferentes, de vários amores escritos dentro dele, um estilo livre de discrepância – como se soubesse o que quer mesmo dormindo ou aceitando inconveniências infantis em homens meio velhos – que eu inventei, só nos aproxima.

Ele não vem até mim todas as vezes que o imagino aqui, impossível dentro dos seus termos ajustados, montando seu vídeo-game novo e lustroso, grafite. E depois, quando o jogo começa, um homem careca, forte, carregando uma guerra inteira contra deuses maiores ainda nas costas, Renan mordisca o lábio inferior até deixá-lo sem cor, aquele risco que denuncia timidez nervosa diante da busca de bom desempenho, cheio de uma habilidade adolescente para alcançar a próxima fase; e depois: Ele reclama do insuportável calor que mora dentro do meu quarto, e então tenho que buscar no fundo das minhas fantasias antigas um pouco de frio, algum floco de esperança congelada que faça Renan permanecer. O amor permanece mais quando o verão vai embora? E depois: Não vou até ele. Nem existo em outra perspectiva, seja numa história contada sobre a noite anterior ou como aparição opaca sob a luz negra na pista de dança ao lado dele.

Os movimentos são lentos. Um som de harpa, ou o movimento de alguém lerdo tirando som dos próprios dedos. Braços, pernas, cabeça, quando caminha ou gesticula, ao aperfeiçoar alguma narração, pontuam a exatidão de sua beleza espantada, com detalhes manuais dos membros caramelados. Apostaria numa paixão dormente pela execução meticulosa daquele desfile lépido, como se sentisse prazer em viver numa vida-clipe em slow motion em que todos admiram e esperam a próxima agitação revigorante. Há tremor nas terras secretas dos olhos de Renan que são irreveláveis.

Poderíamos ter conversado, dirigido algum sentido importante, mesmo que um conteúdo subterrâneo tentasse fugir do fundo de nós e revelado o desarranjo da paixão antecipada que, uma vez submersa nos medos inamistosos de um passado repleto de rejeições, causa uma perplexa condescendência, na maioria das vezes impronunciável, dentro dos atos manifestos de buscar algum novo parceiro, ou simplesmente interessar-se por alguém qualquer; uma torturada piedade pelas dores que não são apaziguadas, apenas revestidas de ousadia e destemor. Um adensamento da dor, mas que me deixava vivo.

Como articular os lábios, sem abrir o coração?

- Oi, Renan?

- (Cara de Destruição!)

- Você não me conhece, mas acho que venho tentando conhecê-lo há um tempo!

- (Dentro de Renan, seus sonhos de amor, de futuro, começam a ser inflados, e escapam num suspiro resignado, modestos balões coloridos começam a subir acelerados. Sou a criança que segura firme as cordinhas que os prendem à terra seca de suas maneiras disparatadas, raízes de algodão em cores vivas erguidas para o ar, livres, como espaguetes de algodão, alçando voo, sem nem mesmo saber o que é voar.)

Renan virou-se preso a um movimento incompleto. Piscou os olhos. Uma, duas, três vezes. Um código. A alma de Renan também é cheia de sinais. Talvez Renan quisesse iniciar alguma faísca de compreensão sem precisar declarar seu repúdio. Deixou-me entretido com sua sombra que se misturava à urgência da festa. A sombra de Renan, um pouco mais esticada que o normal, e numa comodidade silenciosa, me fez companhia. Por alguns segundos. Tive de entender sozinho, para variar, que ele não desistira por maldade; possuía uma admiração enfeitiçada pela desistência, aquela coragem de acreditar em qualquer outro amor para ser dono de um recomeço intenso e bem-sucedido. Renan ama a desistência que nasce nele, entra desgostoso na chuva para esperar pelo sol que vem depois.

(Só senti algo assim uma única vez. Eu havia entendido que meninas e seus sentimentos com cheiro de margarida e abelhas e pedaços de compreensão em pó serviam para mim apenas como apoio a minhas alegrias. E só. Comecei a ter vergonha disso. Meu pai também começou a envergonhar-se da minha vergonha. Não sabia bem o que fazer. Subi no telhado da casa (um esboço descolorido de um palecete em ruínas. Pense na Casa Branca. Pense na decadência de uma família cheia de borrões, desbotada, lascas de tinta morta caindo ao redor da casa, como caspas acumuladas em uma cabeça que não sabe mais o que pensar. Agora pense na Casa Branca desenhada por um garoto de dez anos de idade com desempenho irregular em matemática, artes e desenho geométrico, que morde os pulsos quando olha para dentro de si e não encontra absolutamente nada. Pronto: É essa a nossa casa. A da sua imaginação), e me joguei de lá. Não queria morrer, apenas consertar o que estava desorganizado. Achei que almofadas coloridas poderiam me salvar de desastres. Consegui apenas uma clavícula fraturada. Algo lá no fundo do sistema da minha engrenagem também deve ter ficado defeituoso. De lá pra cá carregado a tendência a uma persistência desgastante, desvios misteriosos, para escolher homens que não ficam por muito tempo.)

(Foi exatamente como despencar de uma casa de dois andares, vinte metros, com o corpo envolto em almofadas coloridas, sentindo o vento correr nervoso pelo rosto, depois aquela sensação de que há algo dentro se aproximando do fim; em seguida, os músculos mastigados, um gosto forte de ferro e sangue na boca. Mesmo com os olhos abertos, encarando os pés dos vizinhos, seus dedos corados de decepção, em dancinhas mínimas de apreciação da ridicularia do vizinho complicado, é como se tudo – a vida e a solução para aliviá-la – continuasse em queda, prestes a desintegrar-se antes da dor final. Acho que aquilo era a minha nova verdade, a dos desastres internos.

Nos rabiscos mal cuidados de conversas que não existiam, eu e Renan nos dávamos bem. Dizíamos:

- Você é um bom partido, sabia?

- Sabia, sim. Partido ao meio.

E então ríamos. Cheios de emancipações.


Mas assim como papai tentou se enganar a meu respeito deixei que a mentira se espalhasse em mim como um exercício vivificante de minha tentativa febril de poder ser outro amanhã. Não uma mentira destruidora, mas uma miragem silenciosa, apenas balbuciando fórmulas redentoras de salvamento que me ajudariam a permanecer intacto no segundo andar de casa olhando para a incandescência do céu azul de verão para evitar outro desastre. Se não for possível olhar para a iria em fogo do sol, que luz poderá me fazer bem amanhã? Funciona para o amor: Olhar para dentro e não conseguir ver nada.

Poderia ter gritado o nome dele: Re-nan. Estaria apenas gastando energia ao pedir socorro ao futuro. Poderia ter seguido-as, dezenas de vezes, enquanto ele escolhia seus caminhos. Deveria ter escolhido os caminhos de Renan mais vezes. Tropeçado neles. Amarrado minha esperança numa encruzilhada. Ter inventado o destino.

Corri para o banheiro. Como não utilizo álcool como ferramenta para amolecer princípios, não houve mal-estar ou urgência em meu corpo que fosse artificial. Corri pelo desassossego de uma ideia. Retirei do bolso da frente da calça um bloco de papel em branco; uma caneta estava perdida no outro bolso. Escrevi: Oi! Sou eu. Vamos nos encontrar no futuro. Sou pequeno e grudento, não faço mal, aos outros, carrego um tom escuro no contorno dos olhos, posso acender se você resolver ficar de uma vez, meus cabelos são desarrumados, faltam-me alguns dentes, discretamente, e outros vazios menos físicos, não sei nadar, e qualquer superfície gelada me faz desistir de aproximação, no entanto, posso arriscar um mergulho raso em águas translúcidas, se você segurar minha mão ou empurrar minha cabeça com força para o fundo, como brincadeira, e depois puxar meus cabelos num ensaio de salvamento brusco. Espero você no futuro. P.S.: Qual a temperatura dentro da tua profundidade?

Amassei o bilhete. Guardei-o na privada. Merda. Quando saí do banheiro, Renan estava na fila que se formara. O primeiro da fila, o último da minha vida. (Era um jogo que eu fazia com meu pai antes da morte abraçá-lo. Apostávamos uma corrida breve no supermercado, ele catando todos os temperos para saladas que salvassem seu coração de manteiga e triglicerídeos acumulados, e eu escolhendo as verduras que abençoariam mais alguns anos de nossa convivência.) Renan tinha os braços cruzados sobre o peito magro, impassível, protegendo o coração da minha energia nuclear, o olhar preparado para um combate, organizando uma estratégia vitoriosa para vencer a fumaça doce e pesada do ar. Eu disse: Vomitei na privada. Renan abriu bem os olhos, duas grandes amêndoas açucaradas, dois grandes pedaços de sinceridade delicada, torceu o canto da boca até formar um bico repugnante. Algum alarme poderoso contra incêndio soou dentro do seu entendimento, e seus olhos correram pela saída de emergência, para longe da minha busca idílica por reconhecimento e afeto.

Menti. Alguém ria atrás de Renan; uma risada satisfeita e pegajosa. Inventei sobre o vômito. Talvez para mentir pra mim também; algo ali dentro poderia começar a justificar a desistência de Renan, porque ele não teria a candura cuidadosa de segurar minha cabeça, em dias inglórios, quando eu estivesse vomitando. Surgiria nele um nojo redobrado. Não foi uma grande mentira, só um assunto espontâneo que borbulhou das ansiedades que me consumiam. Como se eu estivesse lado a lado com minha mãe preso a uma roda gigante e alguém dissesse que para impedi-la de continuar girando mais rápido ainda eu precisaria falar absurdos escatológicos a seu respeito.

Renan estava fazendo movimentos reservados numa dança calculada, na tentativa discreta de animar algo dentro dele, alguma engenhoca enferrujada que há muito tempo não entra em exercício; o próximo passo seria causador de um acidente engraçado, em que todos ririam e ninguém sairia ferido. Uma euforia crescente, sem muitos desgastes. Empurrava sua felicidade envelhecida sem combustível ladeira abaixo na esperança de que aquele movimento ajudasse-o a renovar-se, então, sua máquina de sol-nascente, de ser outro, realizado, se iniciaria ali, e não pararia mais.

Comecei a batucar com o pé direito no chão. Um espaço sujo, e o contato com um poça imunda e viscosa, davam a impressão de um som percorrendo a sola do pé e o reproduzia na cabeça. Não está lá, mas você o percebe. Deve ser assim com o perdão.

Levanta os braços. Abaixa. Levanta novamente, completamente. Finge alguma dor. E fecha os olhos. Pula, desce. Ergue a cabeça, como numa coroação do início da música. Ergue os braços, levando uma das mãos àquele céu de nuvem de gelo seco que gravita sobre todos os corpos descompensados na pista minúscula; a outra mão para no meio do caminho, como se tivesse esquecido a parte mais importante dela mesma, algo que não a deixaria ser exatamente como a outra mão, inadequada, e voltou para perto dos bolsos, o esconderijo do monstro da timidez que quase ninguém assume. Ergue em seguida os ombros, gira a cabeça tresloucadamente; nas outras pessoas funciona como um movimento aquático, presos pela cabeça e mergulhados numa piscina néon de gotas em gel. Nele o quadro monta-se adequado e destoando do restante, pois na cabeça carrega um modelo capilar que apenas grandes guerreiros de desenhos animados assumem. E prossegue: braços pra cima, braços pra baixo; cotovelos pontiagudos injetando incômodo em seus vizinhos de dança, braços em giros, zigue-zague, girando, uma comunicação cansativa num resumo de um tema explosivo, gargalhadas e hematomas emprestados. Braços e pernas em movimento, repetidas vezes, dentro de música e mais música, mas não de uma maneira brusca. Como um marshmallow dançarino. Inseguro demais para estar pelo avesso ou tostado ou crocante.

Cada homem e cada mulher sustentavam-se com seu próprio ponto de luz; os travestis eram letreiros cadentes com letras rebuscadas reproduzindo frases incineradas que causam sempre algum impacto.

Fecho os olhos e não consigo imaginar como deve ser o quarto dele. Arejado, espaçoso, cortinas azuis filtrando o sol que avança preguiçoso às seis da manhã, quando Renan não ousa acordar seus sonhos para apreciar aquela cor celeste que varre sua desorganização infantil. Uma cama de solteiro king size, dois armários antigos doados por seus dois avôs ainda vivos que o chamam de Nanzinho. O computador descansando sob uma capa transparente de bordas amareladas que lembram olheiras carregadas de hepatite; a coleção de jogos de vídeo-game; o guarda-roupa provençal de hematomas na madeira abrigando seu estilo apertado de ser também revelado no espelho retangular que não comporta sua magnitude postural, uma presença abrasada dentro do coração agitado de um desconhecido, mas imóvel, feito uma antiga constelação inominável; e uma fotografia sépia do ex-namorado que ainda é lembrança e poderia ser presente dentro do peito.

Renan traz consigo um estado de alerta maior que o exigido por qualquer desastre que já lhe tenha acontecido, na esperança de que as piores experiências possíveis só aconteçam no mês seguinte. Dentro dos olhos dele, tempestades solares. Mas, agora, olhando bem, só enxergo eclipses e bichos assustados.

Renan organizou alguma resposta que me enclausurasse numa inquietação renitente. Ergueu a sobrancelha direita, como se do seu cérebro um fio fino e invisível repuxa-se aquele ponto da carne, e perguntou se eu não me enxergava. Disse mais ou menos assim: Você não se enxerga não? Tentei explicá-lo que rejeito espelhos há alguns anos, não vejo TV também. Não enxergo homens que não sejam como ele. Que meu mundo é fantasia, que há nódoa espalhado pelos desenhos da infância, e que ele não aguentaria decifrar qualquer linha que eu ousasse escrever no seu cotidiano. Renan não está preparado para descobertas. Está revelado desde sempre e distante. Eu não disse isso. Balbuciei: Estou apagando as escolhas que me fizeram permanecer na procura.

Pedi desculpas. Ele nem percebeu. Bocejou apenas. E voltou a dançar, rindo, explodindo numa gargalhada arrasadora, um começo de universo, um big bang de deboche e superioridade. Há Há Há Há Há Há Há Há Há Há Há Há Há Há Há. E eu apaguei.

Sabe estas amarguras provisórias que nos ajudam a entender que a vida pode não ter terminado ainda?

E ele repete-se incrédulo num pensamento frágil, escorregadio, que fugiu daquele breve momento em que consegue ser outro e não um homem qualquer dentro de um silêncio frustrado.




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