07/12/2011

Duas sombras e nenhuma coincidência.



Na última festa em que esteve invisível:

O jovem da camisa listrada encontrou o homem do medo púrpura.

Fotógrafo: Jeff Burton. Site: www.homography.com





Pepo começou o primeiro dia da sua vida sem Pablo assim: Para você que,  num sábado qualquer, vestido de timidez e camisa listrada, não disse Oi, mas me deixou ir embora.

O segundo dia existiu sem ousadia. Ele arriscou contar-se, de um até mil, e, talvez, não tenha sobrado nada sobre nada de Pepo.

Tinha o ar preso e tenso no peito, e no modo que gargalhava com receio de explosões e liberdade mostrava-se forçado, extremamente automático. Ainda assim delicado. Parecia profanar algum momento especial com banalidades e baixarias ditas com firmeza e inadequação. Comportava-se como sacerdote arrependido no seu templo inventado de mortes que nunca chegaram realmente a se concretizar; uma rigidez branca daquela estrutura sagrada descascava a cada incerteza sobre... sobre mim? Sobre minha procura indiscreta? Ele estava mesmo olhando para mim? E o mistério que não tem nome, se escondia entre nós em que momento meu?

Não entendia se jogava conversa fora, como quem joga o excesso, coisas velhas sem importância, água que entra pelas feridas da sua carcaça jovem, tentando salvar seu barco comum do naufrágio daquela noite com amigos antigos, aqueles dos votos sempre renovados, segurando o mesmo copo cheio de nada com a vaga certeza de que poderia terminar a noite alegre e confiante, talvez sozinho ainda.

Na certa era uma conversa fiada com outras conversas engraçadas (ele ria e parava no tempo), impressionantes (parecia não acreditar no que a moça alegre-estranha-fashion-brega contava), amargas (quase triste, preso a algo familiar), tecendo uma rede fina de esperanças implacáveis de estar também sendo admirado. Muitas esperanças. Bichinhos miúdos soltos vivos correndo dentro dele, para cima, para baixo, parte em seu sangue, parte em seus olhos, de todas as cores, e faziam o barulho incomum e encantador dos seres da noite, dos monstros crepusculares, de todos os animais do dia e da noite que não assustam ninguém, mas se alimentam da solidão de todos os outros que não os veem.

A cada passo, os olhos rápidos, suas chamas vacilantes eram sopradas pelo final das minhas frases, o resto do meu fôlego que já não sabia como precisar de alguém sem precisar tanto.

Estava envolvido no papo civilizado, por vezes soava dramático; forçava rugas nos cantos dos olhos, levantava os braços quase atingindo a lua, jogava a cabeça para trás sem cuidado, para, em seguida, salvá-la de um acidente qualquer que o transformasse no meu próximo cavaleiro sem cabeça. Abria as mãos, enormes, ensaiando uma magia estranha aprendida naquela história comprida de duas horas atrás.  No seu templo imaculado, as paredes que o revestiam eram palmas pálidas de uma mão aberta que sabia acolher; seu pescoço jovem e irretocável sustentava sua beleza que já nascia devastadora.

Parecia haver entre nós montanhas gigantescas, sequóias frondosas, um rio de proporções imensas, barcos e mais barcos e seu tripulantes agitados, porque a tensão que respirávamos despretensiosamente era a que nasce daquelas pessoas que estão separadas por imensidões desmedidas. Era como se não estivéssemos a trezentos metros. Como se fôssemos impossíveis.

Ele era um edifício colossal de topo inalcançável com trinta andares, amarelo e imponente, seguro, mas ainda assim assustador. A sensação que minha presença agitada bebendo hi-fi de Fanta quente causava nele era apenas um reflexo indecifrável na 369ª janela daquele edifício na sala que serve como almoxarifado.

Levantou. Olhou através de mim. Além de mim havia outra coisa que eu não era. Uma cor além-mundo, uma sombra claríssima que cega, uma lamento personificado, um céu aberto e púrpura derramando o medo que talvez ele já conhecesse em mim mesmo sendo desconhecido: que amanheço todos os dias o meu anoitecer sem ninguém.

Meu rosto suado, preso a expressões abafadas de desespero e inconsistência aos vinte e sete que eu não saberia enxugar, me tornava... transparente? Um iceberg sem detalhes submersos de um continente gelado e devastado.

Ou aquele homem morava no coração de um céu que inventei?

Deu o primeiro passo, quase definitivo. Acompanhou uma amiga ao banheiro. Uma amiga com incontinência, bêbada, fina, que precisava de acompanhante para ir ao banheiro, provavelmente para ser sacudida antes de cair profunda e amolecida naquele canto sujo, escurecido por cerveja velha e xixi quente de cerveja velha.

Ele passou indeciso entre uma velocidade mediana que despertava interesse pelos detalhes do caminhar atrapalhado (os braços presos, siameses ao tronco, e os olhos rastreando riquezas minerais naquela areia grossa) e um voo desordenado de quem poderia realmente tornar-se um super-heroi, forte como rocha, a pedra lisa que receberia meus toques sutis e deficientes, e na sua força eu escorregaria dependente, rolaria escandaloso quando o abandono surgisse inevitável, esfregaria as costas sujas feito bicho sarnento, e na hora da solidão eu diria: Agora, olhe através de mim. E não me veja.


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