25/12/2011

Como inventar uma fantasia sem saber escrevê-la



 Fotografia: Francisco Lachowski


Qual o nome daquilo que o mastiga quando ele chega atravessado por uma sensação aguda de cansaço, depois de um corrido dia de trabalho, e, ao depositar a inquietação apreensiva em sua cama, sente o mundo crescendo dentro dos seus significados, quando ele despenca lento em cima dos lençóis desarrumados?

Ele desentende o exato lugar que ocupa na vida dos outros. Ainda é preciso preparar o que comer. A geladeira está branca e exata em suas faltas. Ele não tem fome, e sabe que o corpo precisa de algo para manter-se vivo. A poeira quieta embaixo dos seus sapatos ensaia um barulho permanente. É perigoso não se saber necessário para alguém, ele pensa. Deposita o peso das pernas na cama. Fecha os olhos. Respira fundo. Abre os olhos. Respira fundo. E fica assim, abrindo e fechando as portas de um inferno permanente que é estar sozinho. Sente a dormência dos olhos que não enxergam a realidade como deveria ser; o ar fica escuro dentro do peito, uma fumaça espessa que sobe e desce nos canais que o habitam. Sua inadequação está fumando a própria existência, em tragos monstruosos. Sua vida não cabe mais em um minuto. Ele precisa de uma vida inteira.

Ele poderia estar mais vivo, só um pouco mais vivo, se soubesse o que fazer exatamente para ser um poucos mais dos outros.

Talvez se ele não se movesse, o mundo resolveria se mexer primeiro. Silenciosamente. Como nunca. Há uma disputa velada entre ele e o mundo. As coisas (tudo) nunca vão bem porque foi o que ele sempre esperou do mundo, uma iniciativa milagrosa.

Ele gosta da largura extremada de pescoços que recebem toques suaves. Ele gosta de toques. Gosta de perfumes que despertam a memória afetiva de uma época em que as pessoas importantes da sua vida não morriam ou mordiam o amor com dentes afiados. Ele não tem nada disso; não sabe como começar a ter tudo isso.

Se ele ficasse quietinho, imóvel, mudo, abafado, guardando qualquer perspectiva nesse desalento que ocupa seu quarto, o que aconteceria? Se ele permanecesse assim por três ou quatro manhãs, quem o procuraria extremamente preocupado abrindo a única janela pela qual, um dia, a vida lhe ofereceu ar puro e luz?

Ele está apavorado pelo dia de amanhã. Outro dia igual aos outros. Quando gotas de suor organizam uma insistente revolução no corpo, manifestando os direitos dos poros de expressarem sua inconformidade com climas infernais. Ele fará apenas uma xícara de nescafé amargo, não comerá carboidrato, pois ninguém ama um homem com tanta massa e tantas dobras de pele e oleosidade concentrada. Ele prevê o futuro na fumaça que escapa da xícara fumegante, as voltas soltas e voláteis da quentura, da fumaça, explicam a ele que todo e qualquer plano para o amor é demasiadamente distante, e poderá se dilatar a ponto de romper, e quando o futuro rompe, a esperança derrama suas últimas gotas no chão árido dos sonhos impossíveis.

Fecha porta de casa depois do cansaço. Entra no quarto. Vive e morre no quarto. Fecha e abre os olhos. Abre algum livro e o encara cheio de fé. Ele só tenta ser o que os outros esperam dele: suas qualidades, aquelas que ele ainda não percebe, estão em silêncio num desarranjo incapaz de abraçar a ordem. Escreve uma ordem de caos dentro do peito; então escreve uma ordem de caos na parede do quarto, depois no corpo da xícara, nos lençóis: Estarei sozinho enquanto existir amanhã.

Ele não acredita no poder do inverno. Não entende o que é mansidão de chuva calma. Nunca existiu inverno no mundo privado dele. A impossibilidade de movimentos ternos e tremores infantis não vêm do frio que o mundo aplica rigoroso aos homens. Sente, com as pontas cautelosas dos dedos que sua alma tem, coragem e disposição para entender a própria dificuldade de dispor-se ao amor; disposição que está enrugando, aquela matéria grossa, amassada, gasta e repleta de desfios, de uma velha capacidade que perdeu o viço.

Ele não tem nome. Por enquanto. Mas gostaria de ser nomeado Francisco, e depois encontrar um Lachowski jogado em qualquer editorial glamuroso e inserí-lo em suas definições. Ele é qualquer pessoa que aprendeu a durar por mais um tempo.  Se a alegria dele fosse um programa na TV, seria aquela imagem estanque de listras verticais de zumbido hipnótico que preenche os horários vazios das programações. Quem aprecia aquele arco-íris elétrico e espera alguma revelação? Quem contempla tuas falhas, Francisco? Quem recebeu teus equívocos nos últimos dias com moderação? Quem entendeu teus olhos inquietos quando você fugia da inquietação de não suportar ser deixado outra vez? Quem te entendeu com sossego e acalento quando soluções e engasgos de decepção te sufocaram? Quem não teve vergonha das tuas revoltas adolescentes aos trinta anos, do teu medo de não conseguir ser outro? Quem?

Ele não elabora preocupações sobre onde estacionar um carro, porque ele não tem carro. Também não planeja adquirir um. Francisco não é um conformado irremediável com a inviabilidade financeira de consumir determinados produtos (mesas de mármore, cuecas Box, playstation 3, camas king size, viagens para Portugal, guarda roupa embutido, Ipads, televisores de tela plana, comida libanesa, unhas que lembram joaninhas, peças de prata para os braços, apartamentos sem padarias na circunvizinhança, sorriso sem manchas, e amor).

Presencia a ruína do que ele não possui com alheamento. Seu olhar desafiador de antes, quando os movimentos de escolhas certeiras eram possíveis, escorrega em poças de lama e sulcos profundos cavados na área mais bem assentada de suas expectativas. Cada homem que disse “Desculpa, você mora muito longe” encheu seus olhos, agora vacilantes, de perturbação. Para cada homem desses, ele elaborou uma frase agradecida e lacrimejante que foi pintada em camisas brancas encardidas da Hering: Não posso oferecer outra coisa que não seja trânsito, pista escorregadia, derrapagem e acidentes no percurso. Nas camisetas pretas acinzentadas ele imprimiu o seguinte sentido: Às vezes tem algo bonito no meu coração, mas nem sempre. Tem mais uns rasbiscos de poucas decisões e romances que não deram certo.

Um vestígio de sanidade se apossou de sua decência e não o deixou entregar-se à bagunça que é sua irremediável e turbulenta sensação de desarrimo. Ele aceita algumas escolhas sem compreendê-las, extasiado.

Seu pai arremessou o próprio corpo repleto de vergonha e dor, como se fosse alívio, do oitavo andar de um prédio abandonado, e gritou antes do esfacelamento: A vida só tem sentido para os que não sentem dor. Francisco aceitou a queda, e desde lá apagou seu nome da vida dos outros. Passou anos (ou anos passaram por ele fazendo sinal de Se fodeu) imaginando todas as outras palavras gritadas que seu pai teria dito no momento anterior ao esmagamento dos ossos: Não esqueça de desligar a Tv, Pode deixar que hoje eu preparo o almoço, Se você não é um filho da puta porque essa maldição ainda mora em você?

E se o chão, a terra, piedosa natureza, tivesse resolvido pôr uma enorme boca vazia com dentes de vermes e raízes no lugar exato em que seu pai caíra, e o tivesse engolido completamente, e ele tivesse apenas desaparecido dentro do próprio desastre da desistência, Francisco-que-não-é-mais-Francisco estaria sentindo-se menos perdido hoje? Neste exato momento? Há uma amplitude irregular e desmedida, até mesmo misteriosa, na certeza pesarosa que aflora nos finais de questionamentos dele, quando uma resposta quase se anuncia, como se uma parte dele, aquela que coagula e apodrece pela falta de amor, estivesse recebendo duros golpes, até o despedaçamento, pelas mãos pesadas do destino. Como se fosse culpa de um destino seletivo e exigente ele não ser figura adequada para amores delicados e permanentes.

Ah! Ele possui um querer tão fugaz, passageiro, que parece um rabisco de projeto grandioso que nunca será efetivado.

Ele não é ninguém. Por enquanto.

Francisco permanece nos lugares que os outros deixaram de ocupar, a casa das sombras.




1 considerações:

Anônimo disse...

segurando as lágrimas, pois há gente por perto, e eu ainda tenho vergonha disso.

é o que dá ler o texto desse, eu um fim de ano. em que o mundo inteiro pede para você fazer retrospectiva, analisar e refletir. Eu reluto, resisto. Digo que é porque não passa de convenções bobas.

Mas, na verdade, tudo não passa de medo.

E frente estas palavras, fico assim, abrindo e fechando as portas de um inferno permanente que é estar sozinho. Sinto a dormência dos olhos que não enxergam a realidade como deveria ser; o ar fica escuro dentro do peito, uma fumaça espessa que sobe e desce nos canais que o habitam. Minha inadequação está fumando a própria existência, em tragos monstruosos.