01/01/2012

Abrigo antiaéreo para solidões desconcertantes

Fotografia: Chelsee Ivan






Eu odiava homens que diziam Ei! Estou dando um passo adiante, além do que não deu certo em nós. Pensava, mas não dizia: Eu sei. Você está pisando no meu calo.

Foi quando Marcos chegou. Lúcido, olhos enormes num rosto fechado; não havia passagem secreta ou liberdade no riscado sorriso de cautela que Marcos me apresentou. Ele nem disse Oi. Segurou minha mão firmemente, estalando minha insegurança, e entrou na minha vida.

Era um silêncio largo que amansava a minha inquietude. Tão largo que caberia outro homem. Não houve uma traição especificamente narrada e declarada. Aconteceu apenas uma revelação. Cortinas, um picadeiro, um palhaço, um leão banguela e irado e um Eu em pedaços, como picadinho de amor vencido.

Ele pediu para que houvesse um recomeço pela quarta vez. Não é um número bonito para o amor. Talvez 1.465.782.487 seja um número relevante para falarmos de amor e contabilizar: abraços inquietos, beijos reconfortantes dentro da tristeza desmedida e incontida que ele despejava sobre mim; o número de vezes seguidas que o observei de longe, distante da minha expectativa, enquanto ele ria de tudo que não fazia parte de mim; todas as vezes que ele abriu os olhos, assustado, após os filmes entediantes, e eu não estava lá, mas também não havia partido completamente. Fiquei com uma perna em arranque para fora de casa e a outra hasteada permanente na sala, esperando que ele resolvesse logo e não me deixasse mais com aquela sensação de que poderia continuar pela metade na vida de alguém, na vida dele. Nenhuma outra pessoa fazia tanto sentido. 

Ele dizia Você diz isso pra todos; e eu mordia-lhe os braços, depois enfiava minha boca em sopros acelerados dentro da sua boca, até ele rir extremado, tossindo sua alegria sem relutâncias e pedindo para eu demorar um pouco mais. Deixa o café esfriar, ele dizia.

Marcos quer passar os sábados comigo. Impregnando aquela particularidade que nele é apenas desejo e incerteza.

- Por que não qualquer outro dia?

- Você só existe pra mim aos sábados.

Ele sabe fazer minha paixão vestir-se como um fantasma apavorante e maldito que mora na casa de um cientista renomado. Inútil ou uma inutilidade dentro da descrença.

- Você acha que isso que existe entre nós se encaixa nas coisas da matemática?

- E o que existe entre nós?

- Algo próximo do amor.

- Acho que algo de outra natureza.

- Como uma briófita?

- Como uma briófita.

- Ok! Mas não entendo o nosso gostar-briófita como uma peça de encaixe.

- Porque não é algo realmente de encaixe. É apenas uma possibilidade.

- Tudo que a matemática carrega com ela são certezas, não?

- Mais ou menos isso.

- Você não pode usar mais ou menos assim nos termos da matemática, a não ser que você queira adicionar ou subtrair algo.

- Como 2 + 2 = 4?

- Isso!

- Você acha que se parece com a gente?

- 2 + 2?

- Ahn ran!

- Não. 4 não é um número bonito para o amor.


Sou o tipo de cara que prepara abrigos antiaéreos para desastres de carência materna. Tentei explicar a ele, antes da fuga. É o lugar no meu coração que mão nenhuma afaga. Minha mãe não é um acidente completo. Ela beija meus pés enquanto durmo. Sinto uma maciez sob a sola dos pés sujos. (Que homem beijaria meus passos pesados enquanto construo sonhos?) Minha mãe acorda rindo dos sonhos estúpidos de vingança que tem desde os dezesseis anos, quando ela assassina o amor – o meu, o seu – com a mesma colher de madeira que serve para o preparo de molho madeira vermelho (Uma iguaria vermelha que não deveria ter o nome madeira) carregado de tomate, muito tomate. Ela diz que o amor, quase morto em seu sonho, depois do crime, ainda acredita estar vivo porque há caldo de sangue e tomate, que aparenta uma representação da morte real.

O olhar de Marcos serena quando finjo escapar da sua oferta. Ele quer ver florescer a primaveril compreensão dos apaixonados. Que suas águas silenciosas, que deslizam apaziguadas nos córregos de sua timidez, lavam a vida do outro de todo desconforto opressor. Ensaio uma declaração diante de sua imobilidade. A ponta da língua convence-se da beleza dos beijos construídos a partir de cuidados. São os alicerces do amor que, um dia, será intimidador e satisfatório. É quando as almas se abraçam. Conheço pessoas cujas almas vivem de mãos dadas, como uma dança que não tem mais fim. Eles riem com o coração. Precipícios vão sendo cavados quando desavenças brotam em conversas incomuns.

Existe um desconforto assanhado dentro das fantasias. Uma desordem que precisa ser assimilada pelos cuidados da expectativa. A carência não será áspera. Não haverá medo da distância; o que surge é o pavor de ter feito a escolha errada. Não há luz no coração do homem que convive razoavelmente bem com a incerteza, qualquer incerteza.

Ele se comporta como um grande amigo salvando minha decência amanteigada; mas é um filho da puta quando me faz esperar dentro do cinema. Chega apressado, uma hora após o início da sessão; senta-se despencando no desfiladeiro da minha irritação, me dá um beijo repleto de suor e consternação, e abre suas explicações sobre não estar me traindo mesmo que eu tenha todas as certeza do mundo inteiro. O mundo inteiro, da Groelândia ao Chile, mandando-me e-mails recheados de obesas evidências de suas viagens internacionais (fotografias singelas de beijos escancarados, as portas abertas da sua depravação estúpida, declarações digitadas em lucida calligraphy, cartões postais com fotos de sua língua debochada, códigos nada secretos marcando encontros também nada secretos). Então as pessoas da sessão gritavam para ele calar a boca e criavam uma chuva de sal e pipoca sobre nós. Ele apanhava as muitas pipocas que se acomodavam em suas roupas (folgadas e limpas) e me oferecia, dizendo: Para o seu abrigo antiaéreo.

- É que eu te acho o homem mais especial do mundo.

- Como uma oração?

- Como uma oração. (Todos os dias.)


Marcos vê o tempo passar dentro dos olhos; uma saída escondida do que em mim é desagrado. Não gosta de me ver reclamando do tempo, das roupas, da contas a pagar; existe um tempo novo prestes a explodir dentro dos seus desembaraços, em como ele deixa os lábios pousados sobre os meus, depois uma montanha de carne vermelha se ergue da parte inferior e a meiguice possível nos seus vinte anos me convence a assumir alguns contentos. Sua mão sobre minhas costas é um rochedo no meio do meu deserto, ou um animal de estimação saciado em seu reduto de paz e alimento. Meu corpo clama pelas sombras do toque dele quando o sol escaldante da vida e seus problemas me queimam os detalhes inventados.

- É que você faz tudo parecer tão distante.

- E você é sempre tão vago. O que significa tudo?

- Você não me deixa abraçar suas febres e resfriados, não me deixa limpar a tristeza dos seus olhos, se incomoda quando te espero fora das consultas médicas, não permite que eu segure tua mão na penumbra agitada do cinema, não compartilha comigo a tua alegria esplendorosa sempre linda de se ver quando está visitando uma livraria, até quando estou observando teu corpo repousar da luta diária de sobreviver à insatisfação, percebo um incômodo nos teus gestos adormecidos, mesmo espontâneos, de cobrir teu adormecer com os lençóis que repousavam distantes, como se tu não suportasse mais ser vigiado pelo meu amor cauteloso.

- Marcos, eu só gosto de proteger minha solidão de um amor que pode desertar a qualquer momento.


Só existe o permanecer ausente, como um exercício. Marcos entende e diz: o amor é fragmento e incerteza. Dois dias depois de pintar meu coração com as cores de fogo pacífico do sol, Marcos foi embora. Nenhum rastro de sua partida. Sem bandeiras erguidas anunciado o retorno, a paz, a calma de nunca mais arriscar um encontro despretensioso como o nosso. Um bilhete apenas: Encontrei alguém a menos de 10 km da minha iniciativa de pertencer a alguém, sem desastres. Você é um acidente, menino.


Marcos,

Há uma abertura no humano para a aceitação que, às vezes, é preenchida com racionalizações egoístas sobre como a vida está cheia de complicadas e escassas alternativas para a felicidade. A busca pela tão almejada completude (você e essa falta monstruosa que escapa de dentro) é também possível pelo reconhecimento das incertezas. Não há nada que possa ser feito pelo amanhã que nos assegure uma escolha certa ou solução perfeita. A natureza institui o amor original. Aberto e ilimitado. O corpo aprende mais sobre o amor por outras vias. Nossa possibilidade de aceitar a vida como dádiva, por exemplo, foi vendida, por moedas poucas, à rotina recheada de consumo de novos objetos. O amor tornou-se plástico. A amizade foi fragilizada. Deposite nos tambores vermelhos de reciclagem as amizades plásticas que estão desgastadas após tentativas e sacrifícios de renovação. Os interesses românticos são medidos em quilômetros e horas de viagem: Se você estiver a menos de 40 km dos meus braços talvez possamos nos conhecer.


Mas qual o tempo necessário para se ter certeza que o amor já começou?



3 considerações:

Danilo de Sá disse...

sem palavras...você acaba de descrever o que aconteceu ou acontece comigo. obrigado por escrever com maestria e tamanha paixão sobre as aflições de eternos apaixonados pela possibilidade do amor. obrigado!!!

Danilo de Sá disse...

sem palavras...obrigado por descrever o que acontece ou aconteceu comigo com tamanha maestria as aflições de um eterno apaixonado pela possibilidade do amor. obrigado

Janna disse...

Amor-briófita? Nem de longe o Amor que tu tem pra dar pode se comparar a um musgo. Tu é mais uma angiosperma. tão grandiosa quanto = )