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| Fotografia: gema gonzález lópez |
E se existisse um planeta insólito, vazio, sombrio, de existência paralela em sua consciência (olhos fechados, respiração trancada, placidez, coração escancarado) e uma passagem-segredo escondida dentro dos seus desejos exagerados (Que desejo não parece um absurdo de tão grande?) que o direcionasse para os cantos perdidos daquele universo desconhecido? E se o começo do fim do seu mundo se iniciasse dentro dele, perdido, e nunca parasse de acontecer?
Ele abre a porta de casa e o quintal acorda o verde fino depois que o sol sussurra um breve calor constante, macio, um toque sereno daquilo que nunca poderá ser mensurado. Ele abre a porta de casa, e a manhã acontece sem ele, apesar dele.
É muito cedo para morrer, ele pensa. São apenas sete da manhã.
Ou existe apenas uma manhã dentro das tuas vinte e quatro horas sem mim?, ele pensa outra vez. Dois pensamentos por minuto. O tempo não corre dentro do amor dele, não existe tique-taque intruso estalando no desconhecimento daquilo que o torna estranho e feliz; os segundos são abelhas de asas brilhantes pousadas em poças limpas de mel; minutos agora se tornaram nuvens doces vagando livres num céu de papel machê de amassados modernosos; todas as horas do seu tempo obsoleto são grandes castelos, erguidos sob uma raiz robusta de decência, protegidos de golpes gigantes de um futuro inadequado.
Quando anoitece ,os abraços são fantasmas, uma rachadura acesa na noite assustada o deixa perplexo. Toca com o dedo a réstia que brota dentro das sombras; busca arrancar as camadas mais espessas daquela escuridão. Suas unhas são curtas, não abrem cortes profundos ou alargam fendas abertas. Ele também não sabe cicatrizar inconsequências. Consegue permanecer sozinho por muito tempo, como a força natural e preguiçosa dos animais que hibernam, no frio, cobertos de gordura e roncos surdos e guturais.
Ele trabalha com voos, com sonhos mecânicos. Mas não sai do lugar, do mesmo lugar que ocupa desde os dezessete anos. Com trinta e um, as coisas não mudaram muito; a não ser a mesa de madeira que ocupou o canto direito da sala minúscula por oito anos, e agora ocupa o meio-campo daquele espaço sufocante. Porque é um jogo, e todos os vencedores cometem faltas escandalosas e não são punidos. É reconfortante sustentar-se como um perdedor quase o dia inteiro, ninguém ouvirá seus passos arrastados como um desastre, nem entenderá seus sumiços, não notarão a cadeira espaçosa que sua ausência ocupa quando ele ainda está presente. É como se ele não fosse parte de qualquer coisa, mesmo daquilo – daqueles – que estão com ele.
O amor é, em si, a loucura que assanha sua dignidade expansiva desde a infância, que o torna acessível ao mistério turvo pulsátil sobre o qual ele se deleita disperso e ininterrupto.
Um dia, transformo a expectativa em picadinho e faço os seus pedaços dançarem dentro da força e do som dos ventos nascidos no começo do mundo, na terra dos homens eternamente sozinhos.
Seu tormento é discreto. O tormento de guardar amor nas gavetas velhas do coração rude; aquele rosto desfigurado que aprendeu a ensaiar; um sorriso esfumaçado, arrastado, que vai abrindo esperança nos montes rochosos e negros das marcas da adolescência. A beleza é apenas uma impressão infrutífera; sua beleza possui uma dispersão dos inconformados, drenada pelas críticas entusiasmadas que sua mãe fez questão de sustentar durante anos e anos e anos e décadas e séculos e ele sente que a juventude morreu pelas bandas de suas chances de não querer pertencer à morte. Sua mãe dizia, Guardar amor por alguém é como usar um lenço de seda chinesa falsificado para tentar esconder um elefante apodrecido. Sua mãe morreu. Sua mãe está morta. Sua mãe usava um lenço de seda branca para amansar as rugas. Ela o aplicava um tanto úmido sobre o rosto (o nariz, um mastro adunco de rigidez impenetrável) antes de qualquer sono. Ele via o lenço mover-se liso e lento, cheio de discrição, como uma tenda erguida contendo o maior espetáculo da terra: os sonhos de uma mãe. Quando ela morreu (sem mais amor, sem menos alegria), ele depositou cem novos lenços de seda branca, com desenhos de crianças empurrando carrinhos de supermercado lotados de corações azuis, em cima do rosto amortecido da mãe. A morte agradeceu pelos cuidados e exageros. A morte riu para ele através da rigidez dos cílios, da pele e suas dobras mais cansadas do que nunca, mas agora satisfeitas, porque o tempo parou, o tempo não mais correrá sobre ela, sobre a mãe. O amor da mãe permanecerá eterno, a única certeza que lhe resta é a eternidade, a saudade e a falta.
Por isso, por causa daquilo (do trabalho repetido, da mãe que acorda e morre todos os dias dentro dele sem gritos, do cansaço, do calor) ele não sabe permanecer na vida dos outros. Aproximar-se de alguém é apenas o movimento que o empurra para dentro de si, como esses clichês escrotos que ele lê em trechos agourentos. Não dá para cobrir seus medos mais encorpados com um guardanapo. Sua mãe morta cobria o abandono com um lenço de seda e acabou morrendo de frio, ou de rancor, ou como ele costumava dizer, Minha mãe morreu de esconderijo. E ria, sozinho. E depois chorava, monstruoso. Ele prefere ficar descoberto, se for possível permanecer escondido.
Toda liberdade abre espaço para um preenchimento, ninguém diz a ele.
Ele pensa, Ou estou fora de mim e não consigo voltar; ou trancado no sem-saída-que-me-tornei, sem chances de fugir para outra pessoa.
Repensa, Ou estou inadequado o tempo todo, ou não caibo mais dentro dos outros.
E então mastiga a comoção que habita seus movimentos. Agita-se. Duas vezes. Mais uma agitação e ele sai dançando bruscamente. Como num susto sem motivos aparentes para um susto. Pois sabia que alguém só o entenderia como um ser grande e de conquistas se essa pessoa estivesse na pior, cheirando merda e fumando passado. E se ele abrir a palma da mão percebe um caminho ali; e quando ele fecha a palma da mão, lembra de portas, portas sendo arrombadas, portas sendo cruelmente fechadas antes da entrada de alguém desagradável, o que o faz lembrar-se de brigas, desentendimentos, agressões verbais, cães de rua, e abandonos; e quando ele abre a mão novamente, lembra que ali há um caminho, mas homem nenhum cabe na palma da mão de ninguém, nem nos piores lugares-comuns.
Ele sabe que as pessoas são cavernas cheias de ecos, e que se ele resolver gritar lá para o fundo delas, respostas repetidas e gritos que são repetições de tudo que também o deixa insatisfeito sairão voando como morcegos medrosos. Ele gritará para a profundidade daquelas pessoas, e a resposta que ele espera é a que ele já sabe.
Então ele liga para a única pessoa que está conhecendo. A única pessoa que ele está conhecendo está conhecendo outras Únicas Pessoas mais permanentes. Ele diz, Oi! Adivinha quem está escrevendo isso? E a outra pessoa diz Uhn, deixa eu ver. Você é o cara que conheci hoje queimando ônibus?. Ele não era o tipo de cara que conhece várias Pessoas Únicas ou queima ônibus. Mas as Pessoas Únicas que ele invariavelmente tenta conhecer apreciam outras várias Pessoas Únicas. Ele fica confuso e entende que, às vezes, deveria começar pelo fim e nem começar a conhecer pessoas que conhecem outras Pessoas Únicas. Porque para ele só existe uma Única Pessoa Única, aquela pessoa que receberá em seu colo seu corpanzil febril e dilacerado por convulsões e acnes de ansiedade.
É como se eu estivesse sempre dentro da escolha errada. Encharcado.
É como se eu estivesse sempre dentro da escolha errada. Encharcado.
Ele fecha a porta de casa. Olha para dentro do escuro que acontece. Veste os olhos com um pedaço de seda. E desaparece, dentro de um sumiço branco.

1 considerações:
E eu ainda hei de ter palavras para, quem sabe, expressar minimamente o que é essa tal solidão...
Esse texto vai ser sempre um mistério para mim!
Muito bom!
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