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| Fotografia: Dato |
Nós - Um breve passeio com asas mecânicas a um abismo
Um som calmo e profundo atravessou o quarto e nos dividiu em algumas partes.
Ele - A chegada
Você funcionando como um moço de dezoito anos que respeita a juventude com a conformação da velhice de uma avó rabugenta, mas precisa tatuar o corpo com rock e liberdade. E eu, sua tatuagem e seu voo, seu acesso ao que há de explicativo e simples no mundo, parado, esperando teu fim de dia me engolir.
Eu - A dependência excruciante
Seus dezoito anos e o perverso desejo de me tornar dependente, era isso, ou muito mais, o que habitava os olhos maduros dele. Na sua boca sempre orvalhava o sossego de ter por perto minhas necessidades. Porque eu não conseguia esquecer sua presença sempre inflamada perto de mim. Um metro e oitenta e dois de remota possibilidade de amor e segurança. E quando ausente outra inflamação de uma ordem superior à costumeira, aquela que é sempre maior que as infecções purulentas que só a paixão não correspondida causa na alma, me ocupava os vazios, como se tudo em mim se desligasse e apenas essa concentração dele em mim fizesse a doença do amor parecer grande e insubstituível, como se eu me perdesse estranhamente sem sua imaturidade.
Ele - A paixão insolente
Caminha com os olhos escravizados no horizonte, quase esmagando cachorros, crianças e bichos menores que interfiram no seu caminho. A decisão dos passos, pernas urgentes diante de qualquer compromisso que o faça sempre mais importante, a cada hora mais ensolarado. Seu sorriso não espera ninguém, brilha nos riscos do canto da boca numa alegria puramente debochada, ironizando o universo e o destino que lhe apresentam homens que se arrependerão da entrega, mas que não saberão evitá-la, que não se desviarão de sua postura incandescente, de suas decisões duras, de seu desdém colérico, seus dedos sem cautela, verbos errados, dentes metálicos, olhar raso, língua presa, orelhas-borboleta, seu coração enegrecido pelo abandono e pelo desespero de perder-se na vaidade de sua beleza compromissada com a conquista.
Eu - A Rejeição, O Veneno e o Afeto
A disponibilidade ártica de seu humor desinfetante funcionou como meu ponto de apoio para a desistência, foi o centro em torno do qual comecei a orbitar: as idiotices construídas pelo veneno de sua incompetência, a vagabundice tagarela que carrega na magreza de seus dezoito anos cortava o ar dos meus pulmões com destreza, tudo isso me ajudou a reagir contra aquela escuridão que consumia o esplendor da minha solteirice. Críticas nubladas sobre o que de errado e ineficaz eu era possuíam um quê inconsciente, que revelava as sombras dele e não meus fantasmas.
Ele - Monstruosidade
Antes eu entendia o estrabismo do olho esquerdo como um mistério importante em sua vida que caberia a mim, inundado de pretensa apreensão e paixão em brasa, compreender. Hoje, percebo que se tratava de um mero desvio, e me lanço, num processo de racionalização encharcado de autocomiseração, a divagar sobre interpretações para aquela anomalia. Quantas vezes aquele olho não precisou se desviar do amor e disfarçar para outros rumos, enganar o próprio caminho, o próprio coração?
Nós - O voo
Então, em dois minutos você se transformou num homem que tropeça em cartas de amor segurando balões coloridos e limpos com sorriso de palhaço burro, levanta da cama, espreguiça os pensamentos retorcendo a coluna, os braços, a alma e o fundo dos olhos, reclama do meu amor que canta sempre a mesma música, e com um movimento até então desconhecido para nós, abre a janela do apartamento, pede pra eu desistir e calar a boca, e liberta os balões.
E eu sigo, sem pedir pra voltar, entendendo que sou pesado para um homem que não suporta nas mãos a mansidão de um amor repetido.

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